Fraude judicial

Documento Word, usado contra Dilma, é manipulável por programa

Em poucos minutos, um arquivo Word criado pode ter sua data alterada
Documento Word, usado contra Dilma, é manipulável por programa

Imagem: GGN

A ata do registro em cartório de uma conta de Gmail que é atribuída à Dilma Rousseff pela delatora Mônica Moura, esposa do marqueteiro João Santana, circula nas redes sociais nos últimos dias com inúmeros questionamentos sobre sua veracidade. Mas não é a única prova que, a princípio, é considerada frágil e está anexada à delação.

Mônica disse à Lava Jato que só salvou uma única mensagem que teria sido escrita por Dilma, mas em formato Word, após deletar o rascunho do Gmail. Na papelada da delação, consta que esse arquivo foi criado em 19/02/2016, às 19h40.

Nessa mensagem, Dilma teria supostamente escrito: “O seu grande amigo está muito doente. Os médicos consideram que o risco é máximo. E o pior é que a esposa dele, que sempre tratou dele, também está doente. Com risco igual. Os médicos acompanham dia e noite.” Mônica encarou como um aviso de que a Lava Jato iria prender o casal.

Esse “.doc” foi registrado em um cartório de São Paulo, em 20/05/2016.

Apesar de ter sido aceito como evidência contra Dilma, qualquer documento de Word é manipulável.

O GGN fez um teste após o download do programa New File Time. Em poucos minutos, um arquivo dessa natureza, criado na tarde desta segunda (15), foi manipulado para fazer parecer que foi criado em 19/02/2016, às 10h05. Também é possível alterar a data em que o arquivo foi acessado pela última vez ou modificado. O tutorial, com poucos passos, está disponível aqui.

Para alterar um documento Word no New File Time, basta arrastar ou importar o arquivo para dentro do programa, selecionar “be older” ou “be younger”, a depender da data que o documento vai passar a ter. Depois de ajustar as configurações de “data de criação”, “modificação” e “último acesso”, é só clicar em “set-time” que a mudança é feita automaticamente 

TELEFONEMA?

Há mais dúvidas sobre o depoimento de Mônica Moura sobre Dilma.

No vídeo em que a delatora detalha a suposta obstrução de Justiça por parte de Dilma, uma da então presidente para o escritório de João Santana, na República Dominicana, na noite anterior à Operação Acarajé, é mencionada. O GGN apurou que essa ligação não está registrada na papelada da delação homologada pelo Supremo Tribunal Federal.

Outra informação que consta na delação avalizada pelo STF é a informação correta do dia e hora em que Mônica acionou, por mensagem de telefone, o ex-assessor presidencial, Anderson Dornelles.

No enredo contado por Mônica no vídeo, Dilma escreveu a mensagem no dia 19, o casal entrou em pânico com a notícia e tentou contato com Dorneles entre 20 e 21 de fevereiro de 2016. Na noite do dia 21, Dilma teria ligado para um telefone na República Dominicana e avisado do mandado de prisão. E no dia 22, Mônica deixou um rascunho no Gmail avisando que o casal embarcaria para o Brasil – foi preso no dia 23 de fevereiro – e não gostaria de ver “espetáculo”.

Ao contrário do que diz no vídeo, Mônica não enviou mensagem para a esposa de Anderson entre os dias 20 e 21, numa tentativa de falar com Dilma. A prova anexada à delação mostra que, na verdade, as mensagens disparadas por Mônica ocorreram na manhã do dia 22 de fevereiro, por volta das 11h, quando a empresária já sabia que seria presa na Operação Acarajé.

por Cintia Alves.

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