Mulheres

Quase 70% das mulheres vítimas de violência herdam traumas e depressão

Pesquisa da FPA revela que mulheres têm dificuldade em reconhecer abusos, especialmente se não deixam marcas físicas. Ataques são naturalizados e subnotificados

Agência Brasil

Quase 70% das mulheres vítimas de violência herdam traumas e depressão

Na sondagem da FPA, 43% das mulheres relataram ter sofrido violência psicológica e 37%, violência moral

Apesar dos avanços legais e institucionais conquistados nas últimas décadas, a violência contra as mulheres segue sendo uma realidade estrutural no Brasil, marcada pela subnotificação, pela naturalização de abusos e por falhas persistentes na rede de proteção. É o que revela a 3ª edição da pesquisa “Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Públicos e Privados” , realizada pela Fundação Perseu Abramo (FPA), em parceria com o Sesc, entre 2021 e 2023.

O estudo, que dá continuidade a uma série histórica iniciada em 2001 e atualizada em 2010, permite observar avanços, permanências e retrocessos ao longo de mais de duas décadas de políticas públicas voltadas à igualdade de gênero. 

Em mais de 700 páginas , a pesquisa traz um rico diagnóstico estruturado e dividido em seis capítulos: Imagem da Mulher; Corpo, Sexualidade e Saúde; Violência; Proteção Social e Política de Cuidados; Trabalho Remunerado e Trabalho Não Remunerado; e Cultura Política e Participação.

Com destaque especial para o campo da violência (capítulo 3)  mostram que, embora a legislação tenha avançado – com marcos como a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e a ampliação de serviços especializados -, a violência doméstica e de gênero permanece amplamente disseminada e, em muitos casos, invisibilizada.

Metade das mulheres já sofreu algum tipo de violência

De forma espontânea, 23% das mulheres entrevistadas afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência praticada por homens. No entanto, quando as entrevistadas foram estimuladas com perguntas sobre 31 situações concretas de violência, esse percentual saltou para 50%, evidenciando o quanto práticas abusivas seguem sendo naturalizadas e pouco reconhecidas como violência.

A violência psicológica e moral aparecem como as mais recorrentes: 43% das mulheres relataram ter sofrido violência psicológica e 37%, violência moral, quando consideradas situações estimuladas. Ainda assim, esses tipos de violência quase não aparecem nas respostas espontâneas, o que aponta para um dos principais gargalos no enfrentamento do problema: a dificuldade de reconhecimento do abuso, especialmente quando ele não deixa marcas físicas.

A violência física, por sua vez, foi mencionada espontaneamente por 11% das mulheres e chega a 22% quando estimulada. Já a violência sexual atingiu 23% das entrevistadas ao longo da vida, incluindo estupro, tentativa de estupro e coerção sexual dentro de relações afetivas

Violência doméstica, subnotificação e dependência econômica

O ambiente doméstico segue sendo o principal espaço onde a violência se manifesta, sobretudo praticada por parceiros ou ex-parceiros. Uma pesquisa revela que 71% das mulheres que sofreram violência não fizeram denúncia oficial, um dado que escancara falhas na proteção institucional e barreiras concretas para o rompimento do ciclo de violência

Entre os fatores que dificultam a denúncia estão o medo, a dependência econômica, a ausência de acolhimento familiar e a desconfiança em relação às instituições. Os relatos qualitativos mostram que muitas mulheres retornam ao convívio com o agressor por não terem condições materiais de se manterem sozinhas ou de sustentar os filhos, revelando a íntima relação entre violência de gênero, desigualdade social e ausência de políticas de autonomia econômica.

Quando ocorre a denúncia, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) é o principal equipamento procurado, mas o acesso ainda é desigual no território nacional, sobretudo fora dos grandes centros urbanos.

Impactos profundos na saúde mental e na vida social

As consequências da violência são tensões e implicações em múltiplas dimensões da vida das mulheres. Entre aqueles que relataram ter sofrido violência, 69% afirmam conflitos diretos na saúde mental, como traumas psicológicos, medo constante, insegurança, dificuldades de estabelecer novas relações e desconfiança em relação aos homens

Além disso, há registros de depressão, ansiedade, síndrome do pânico e uso de medicamentos controlados. Em outros casos, a violência praticada em separações, isolamento social, prejuízos à saúde física e indireta na trajetória profissional, reforçando o caráter estrutural do problema.

Pesquisa como instrumento para políticas públicas

Ao combinar abordagem quantitativa e qualitativa, a pesquisa inova ao aprofundar a compreensão das experiências vividas pelas mulheres, incluindo, pela primeira vez, entrevistas com mulheres trans e recortes mais precisos de raça, renda, território e orientação sexual. Os resultados indicam que mulheres negras, periféricas, LGBTQIA+ e em situação de maior vulnerabilidade social estão mais expostas à violência e enfrentam maiores obstáculos para acesso proteção e justiça.

Mais do que produzir diagnósticos, estudos como este cumprem um papel estratégico para o aperfeiçoamento das políticas públicas, ao evidenciar onde estão os principais gargalos: a subnotificação, a fragilidade da rede de atendimento, a naturalização da violência psicológica e a ausência de políticas integradas que articulam proteção, autonomia econômica, saúde mental e educação para a igualdade de gênero.

Em um contexto de recrudescimento da violência e de disputas em torno dos direitos das mulheres, uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo reafirma a importância da produção contínua de dados, da memória histórica e do uso da evidência científica como base para a formulação de políticas públicas capazes de salvar vidas e promover uma democracia eficaz igualitária.

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