ARTIGO

O endividamento das famílias, por Beto Faro

Juros elevados, crédito digital e novas formas de consumo ampliam endividamento e desafiam crescimento sustentável
O endividamento das famílias, por Beto Faro

Os avanços observados na economia brasileira e nos programas sociais desde o início do governo Lula3 podem ser negados apenas por desinformação ou por motivações políticas desleais. Vivenciamos período de aumento real do salário-mínimo e das aposentadorias, incremento da renda do trabalho, enorme redução da fome e da pobreza, desemprego no menor patamar da história, inflação controlada e economia em crescimento. Os dados e indicadores que atestam essa realidade são fartos e facilmente verificáveis.

Porém, em contradição com esse cenário, o fenômeno do endividamento das famílias brasileiras, que obviamente não teve origem no governo Lula, passou a criar volume e chamar a atenção ao ponto de se transformar em objeto de grande preocupação social e política para o governo, notadamente neste ano eleitoral.

De acordo com a Confederação Nacional do Comércio, o percentual de famílias brasileiras endividadas atingiu 80,4% em março, o maior nível da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor.  Em março de 2025 essa taxa já era elevada (77.1%). Ressalvadas as diferenças em relação à CNC, para a Serasa, são 82,8 milhões de brasileiros negativados, também o maior número de inadimplentes em toda a série histórica. No estado do Pará, 48% da população adulta encontra-se em situação de inadimplência. Portanto, temos, sim, um grave problema social.

Na realidade, desde o início do atual governo Lula o incremento do endividamento constituía fenômeno previsível, mesmo considerando a expectativa do cenário econômico antes posto. O principal fator preditivo da escalada do endividamento se manifestava com a taxa de juros básicas da economia em patamares exorbitantes.

Não à toa, desde o começo do governo, com frequência e veemência, o presidente Lula passou a criticar a taxa Selic, mantida pelo então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. As críticas de Lula não ignoravam a correlação entre as políticas monetária e fiscal, mas todos os indicadores macroeconômicos, em especial, a estabilidade projetada dos preços, respaldavam o início gradual de redução da Selic. As pressões não lograram êxito e veio a substituição de Roberto Campos por Gabriel Galípolo indicado pelo presidente Lula. O novo presidente assumiu com níveis contratados para a Selic. Mas é verdade, também, que a nova gestão do BACEN manteve a ortodoxia extremada da política monetária, que só recentemente sinalizou o início de um processo tímido de redução da Selic; 0.5 ponto percentual em duas reuniões do COPOM. Para a nossa “desventura”, tal processo, mesmo acanhado, poderá ser negativamente afetado pelos efeitos da guerra no oriente médio.

A Selic elevada encareceu modalidades populares como o cartão de crédito, que responde por cerca de 84,9% das dívidas das famílias. O efeito dos juros compostos transforma em impagáveis, pequenas dívidas. A digitalização bancária e a expansão do crédito sem garantias desde a pandemia inflaram o endividamento de pessoas de baixa renda.  O dado novo, alarmante, tem sido o endividamento com a proliferação das bets, que tem gerado situações de “inadimplência severa” entre as famílias brasileiras.

Afora o drama social, a continuidade da escalada do endividamento tem o potencial de frear o desempenho da economia. Por todas essas razões, e ante as insuficiências do “Desenrola”, o governo do presidente Lula anunciou uma série de medidas para restabelecer o conforto material e psicológico das famílias brasileiras. Até o fechamento deste artigo as medidas não haviam sido oficialmente divulgadas, estando previstas para pronunciamento do presidente em 1º de Maio. De todo modo, divulga-se que 100 bilhões de Reais seriam objeto de troca de dívidas no cheque especial e no crédito rotativo por outras em condições extremamente favoráveis que incluiriam descontos de 40% a 90%, para serem liquidadas em 4 anos. Importante: quem aderir não poderá fazer aposta esportiva.

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