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Negócio da China?, por Beto Faro

Entre a força exportadora e a dependência externa, a agricultura brasileira enfrenta desafios que exigem visão de longo prazo

Alessandro Dantas

Negócio da China?, por Beto Faro

No artigo da semana passada abordamos os riscos ora enfrentados pela agricultura brasileira em função dos efeitos dos conflitos mundiais na oferta e preços dos fertilizantes químicos, num cenário de dependência crônica e aguda do país na importação desse insumo.

Neste artigo mantemos o foco na agricultura para uma breve reflexão sobre a interessante, mas preocupante matéria divulgada (não asseguro se originariamente) pela ‘Sputnik Brasil’ sobre os riscos gigantescos para a nossa agricultura e o país pela sua profunda dependência ao mercado chinês. De janeiro a maio do presente ano praticamente metade das exportações agropecuárias do Brasil tiveram a China como destino.

O Brasil desenvolveu uma agricultura pujante em termos econômicos, com alta relevância para a oferta agroalimentar global, todavia, repleta de contradições e fragilidades sistêmicas.

Deixando de lado as contradições do modelo agrícola, vale destacar entre as suas fragilidades, que a elevada dependência externa nos fertilizantes, agrotóxicos e na genética, tem tido implicações até no atual despreparo da atividade para o enfrentamento adequado das ameaças crescentes da crise climática.

Afora isso, no rol dos seus ‘riscos econômicos’ destaca-se o pequeno grupo de produtos para vendas externas limitadas a destinos ainda mais restritos.

Em 2025, complexo soja, carnes, produtos florestais, café e complexo sucroalcooleiro responderam por 93% das exportações do agronegócio. China e União Europeia, importaram 49% desses produtos. Abaixo desses dois destinos tivemos os EUA com participação de 6.7% nessas compras e Vietnã com 2.1%.

Em seguida, foram 17 países importadores, cada um deles com participações de 1% a menos que 2%. Após, uma relação de 103 países com participações entre 0.9% e 0.01%.

Portanto, exportamos produtos para muitos países; porém, na grande maioria, em volumes e valores rigorosamente irrelevantes.

As exportações do complexo soja para a China correspondem a 66% do total exportado de soja e, da carne bovina enviada para o exterior, 50% tiveram a China como destino.

Nesse quadro, a agência Sputnik alerta para os riscos assumidos pela agricultura do Brasil com a falta de diversificação dos mercados. Lembra a agência que o 15º Plano Quinquenal da China incluiu metas ousadas para a redução das vulnerabilidades do país na segurança alimentar. Para tanto, em analogia às estratégias adotadas que levaram à super industrialização do país, os chineses vêm adotando medidas de forte estímulo estatal para a agricultura, com crédito barato, subsídios e investimentos contínuos em pesquisa.

A matéria sublinha que a segurança alimentar foi elevada ao mesmo nível de prioridade da segurança energética e financeira, com foco em autonomia tecnológica e redução do déficit agrícola de US$ 124,5 bilhões. Já em 2030 a China deverá ter reduzido as importações de soja em até 25%.

Parece não haver dúvidas que o Brasil estruturou um setor econômico poderoso com gigantescas subvenções públicas, mas, como dito antes, com contradições e fragilidades congênitas capazes de impor-lhe ameaças existenciais. Os ganhos a curto prazo e a qualquer custo dispensaram garantias estratégicas. O caso do plano chinês ganhou tração com as instabilidades geopolíticas globais, mas boa parte do setor no Brasil ainda não se deu conta dos seus problemas vitais, tampouco, sobre o senso de urgência para enfrentá-los. No caso em análise, as incertezas geopolíticas deveriam elevar para status de emergência grave para a segurança nacional, a implementação de medidas céleres e vigorosas de diversificação de mercados para os produtos agrícolas.

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