
Quem já andou pelas feiras do Nordeste conhece bem a cena: folhetos pendurados em barbantes, exibindo capas com desenhos marcantes em preto e branco, que para serem impressos, foram antes esculpidos na madeira. É a xilogravura que, unida à poesia rimada, vai ganhar o reconhecimento no Senado, a partir do trabalho dos senadores pernambucanos Teresa Leitão e Humberto Costa, ambos do PT.
A Comissão de Educação e Cultura (CE) aprovou o projeto de Teresa Leitão (PT-PE), que reconhece formalmente a xilogravura vinculada à Literatura de Cordel como uma legítima manifestação da cultura nacional. Como a aprovação foi em decisão terminativa e não recebeu emendas, o texto segue agora direto para a Câmara dos Deputados.
O projeto, que teve o relatório favorável do senador Humberto Costa (PT-PE), celebra uma arte que nasceu da pura necessidade. No início, o desenho na madeira era a ferramenta visual para contar ao comprador analfabeto qual era a história daquele folheto. Com o tempo, essa técnica ganhou uma força poética própria: a resistência da madeira exigiu traços firmes e simples, e essa simplicidade gerou uma linguagem visual belíssima, capaz de traduzir drama, humor e crítica social em uma única piscada.
Como bem destacou Humberto Costa em seu parecer, a xilogravura não é um mero enfeite regional, mas sim a própria base da nossa identidade. E a importância desse reconhecimento vai muito além do aplauso simbólico. No dia a dia, os artistas populares enfrentam um problema bem prático: o mercado comercial costuma usar a estética do cordel e da xilogravura de graça, sob a desculpa de que é “folclore de domínio público”, ignorando os direitos de quem produz e vive dessa arte.
“O mercado ignora a autoria vigente e fragiliza toda a cadeia produtiva dos artistas populares. Elevar essa manifestação à condição formal de cultura nacional não é gesto simbólico: é o primeiro passo estrutural para o fomento e a efetivação de direitos autorais nessas comunidades, que há décadas sustentam uma tradição sem a proteção jurídica que ela merece”, explicou Humberto Costa.
O senador lembrou que a manifestação artística, presente em escolas no Ceará e no Rio Grande do Norte, deve ganhar força nacional. No relatório, Humberto Costa lembrou a trajetória do mestre pernambucano J. Borges, cujas obras saíram das feiras do sertão para estampar as paredes de museus internacionais, como o Louvre, em Paris, e o MoMA, em Nova York.



