Alessandro Dantas

O governo do presidente Lula entende este momento de transformações profundas na geopolítica global, como motivo de preocupação e desafios momentâneos. Mas que, ao mesmo tempo, oferece ao país uma janela de oportunidade para o seu reposicionamento qualitativo na nova ordem multipolar florescente.
Enfrentamos período de transição da ordem global concertada no pós-segunda guerra e no fim da guerra fria. Essa fratura vem sendo acelerada pelos desatinos levados a cabo pela atual administração dos EUA para tentar evitar a perda relativa da sua hegemonia unipolar. Como sugerimos em artigo anterior, não há quem mude na marra os movimentos estruturais da história. Sintomático da erosão da ordem em declínio, desde o término da guerra fria somam 150 as guerras e conflitos armados entre nações pelo mundo. A ONU, enquanto principal pilar institucional da velha ordem há muito não tem poder para quase nada. Em particular, não consegue sequer evitar ou mediar o fim de conflitos; nem mesmo em se tratando de genocídios a exemplo do ocorrido em Gaza. Em contrapartida, o ‘hegemon’ acuado tenta subjugar países e praticamente todas as instituições multilaterais criadas para sustentar a velha ordem.
Nesse contexto histórico o governo brasileiro vem dando passos significativos e certeiros para assegurar ao país presença diferenciada na ordem multilateral em configuração.
No plano comercial, vem atuando com afinco por uma ampla diversificação de mercados e facilitação do comércio, tanto em parcerias bilaterais como pela criação de áreas de livre comércio a exemplo da resultante do Acordo Mercosul/União Europeia que entrará em vigor no dia 1º de maio, em caráter provisório.
Porém, mais importante, têm sido as tratativas e articulações intensas que o governo Lula empreende pelo fortalecimento do sul global e, mais relevante, ainda, as estratégias adotadas interna e externamente para inserir e consolidar a economia brasileira na fronteira tecnológica e no ‘clube top’ da nova economia global. Em artigo no jornal Valor Econômico a diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, disse que o país tem aquilo que o mundo mais quer: alimentos, energia e terras raras. A gestora de patrimônios está na perspectiva correta, mas além de ter economizado nas nossas potencialidades, não basta que as tenhamos, é preciso explorá-las de forma diversa da historicamente feita. Estava correto o saudoso ministro Delfin Netto quando certa vez, em que pese a óbvia contradição com os seus feitos na condição de “czar” da economia brasileira, criticou a desinteligência da exploração das nossas potencialidades naturais: “temos a mina, não temos o negócio”.
A recente viagem de Lula à Europa foi exemplar dos passos significativos do governo na estratégia de reposicionamento do Brasil na economia e na geopolítica globais. Na ocasião, foram firmadas muitas parcerias em áreas nevrálgicas como na I.A, Data Center, energias renováveis, minerais críticos, terras raras, etc. Especificamente com a Espanha foram firmados 15 atos, incluindo a cooperação no setor de minerais críticos, a transformação industrial, tecnologias de informação e telecomunicações.
O presidente brasileiro reforçou a força-tarefa Brasil/UniãoEuropeia criada, e que se reúne mensalmente desde novembro para uma parceria na área vital dos minerais críticos.
Na Alemanha foram firmados acordos que ampliam a cooperação bilateral em setores como defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia e pesquisa oceânica e climática. Nessas épocas cada vez mais perigosas, na área de defesa foi constituído consórcio binacional que está construindo quatro fragatas para entrega até 2028.
Em resumo, o governo Lula avança em saltos na escalada histórica do Brasil.



