Agência Brasil

Estudo da Unicamp mostra que redução da jornada terá impacto na formalidade, com geração estimada de 4,5 milhões de vagas
Historicamente, sempre que se propõe ampliar direitos trabalhistas no Brasil, o setor empresarial e parte da elite política reage com previsões de desemprego e retração econômica. Foi assim na Constituição de 1988, na formalização do trabalho doméstico e também durante a política de valorização real do salário mínimo. O cenário se repete agora no que diz respeito ao fim da escala 6×1, com o velho argumento de que defender o trabalhador pode aumentar o desemprego. Mas o Governo Lula e o Partido dos Trabalhadores, que apoiam a redução da jornada para que as brasileiras e brasileiros tenham mais tempo para ficar com suas famílias, um descanso merecido e mais saúde mental, se ancoram em dados que apontam um cenário muito mais promissor com a mudança.
Um estudo chamado Dossiê 6×1, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), contraria esse diagnóstico fatalista da elite e coloca o governo Lula mais uma vez do lado do povo trabalhador.
A estimativa é que o impacto da redução da jornada de trabalho resulte na criação de 4,5 milhões de empregos e no aumento de 4% na produtividade. Segundo um dos artigos que integra o levantamento, a geração de novos postos virá de setores mais aquecidos, como comércio e serviços, e da diminuição da informalidade, com empregos de carteira assinada mais atrativos, inclusive para os mais jovens.
Para a professora e pesquisadora do Cesit/Unicamp, Marilane Teixeira, a juventude se afastou das vagas de empregos formais porque o ambiente de trabalho está deteriorado, os salários ofertados são muito baixos e são impostas exigências acima do aceitável para essa nova geração. “Não é uma negação de direitos, é uma negação a uma condição de trabalho de quem não quer morrer trabalhando e vai buscar outras formas. A redução da jornada seria uma forma de tornar o trabalho formal mais atrativo novamente”, explica a pesquisadora.
Aproximadamente 21 milhões de brasileiros trabalham mais de 44 horas semanais, quantidade que excede o previsto na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Funcionário satisfeito rende mais
O levantamento da Unicamp leva em consideração um ponto importante para o brasileiro e que geralmente é deixado de lado pelos empregadores: funcionários satisfeitos e descansados rendem mais.
“Se eu trabalho cinco dias da semana e produzo dez relatórios, vou trabalhar quatro dias e produzir a mesma coisa. E com dois ou três dias de folga para o trabalhador, a empresa vai ter que contratar mais, que é onde está a reclamação. Mas há setores com uma margem de lucro tão abusiva que o impacto disso vai ser muito pequeno”, afirma a professora Marilane Teixeira.
Além das novas contratações, ela explica que o ganho de produtividade está ligado ao investimento em tecnologia e à melhoria da saúde física e mental do trabalhador. Numa jornada de oito horas diárias quase ininterruptas, há perda de atenção e concentração. “Ter um trabalhador menos estressado, menos cansado dos longos deslocamentos, das pressões, do abuso por metas e da sobrecarga de trabalho contribui para a produtividade”, diz a professora.
Caso a produtividade se mantivesse estável após a redução da jornada, o estudo estima que seriam necessários 8,9 milhões de novos postos de trabalho para manter a produção atual no país, o que não seria viável em curto prazo. Por isso, a estimativa mais realista, de 4,5 milhões de novos empregos, combina aumento de produtividade com contratações.
De acordo com a pesquisadora, setores com escalas pesadas, como o comércio, sofrem com altos custos de contratação e demissão devido à insatisfação dos trabalhadores com as condições precárias e longas jornadas. Só em 2024, o Brasil registrou meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais causadas pelo ambiente de trabalho formal, segundo o IBGE. Melhores condições de trabalho e jornadas mais curtas tendem a reter trabalhadores, reduzindo esse custo para as empresas.
Há ainda um precedente histórico que corrobora o aumento da produtividade. A redução da jornada de 48 para 44 horas na Constituição de 1988 foi acompanhada por um aumento na produtividade média anual de 6,5% entre 1990 e 2000, além de uma expansão do emprego e diminuição da informalidade, indica o estudo da Unicamp.
Mais tempo para as famílias muda comportamentos
Outro ponto a ser levado em consideração quando se projeta o aumento dos empregos formais está relacionado ao comportamento da população no período de folga. Nos dias de descanso, as pessoas gastam mais com lazer e outras atividades.
“Nossa avaliação é que isso vai estimular o consumo em setores que as pessoas não conseguiriam porque elas não têm o tempo livre necessário, como lazer, cultura, esporte e entretenimento. Se eu tenho um dia a mais, posso optar por fazer um curso de línguas, me dedicar a algum tipo de atividade de formação ou capacitação”, projeta Marilane Teixeira.
De acordo com o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), Daniel Duque, à medida que a produtividade da economia aumenta, os salários médios crescem de forma sustentada e o resultado é mais consumo.
“As pessoas escolhem transformar parte desse ganho em mais lazer, férias mais longas, semanas de trabalho mais curtas e aposentadoria antecipada. Isso explica por que, historicamente, as horas médias trabalhadas caem à medida que os países enriquecem”, afirma Duque, no artigo Brasil e a redução da jornada: o que dizem os dados globais.
A discussão sobre a jornada de trabalho no Brasil segue, portanto, uma tendência observada nas economias mais desenvolvidas e que garantem produtividade maior com menos horas trabalhadas.
Agência PT de Notícias



