Ação entre amigos explica silêncio da mídia sobre malfeitos do PSDB

Nova compra milionária de assinaturas pelo governo de São Paulo expõe parcialidade. Foram R$ 5,5 milhões para renovar compra de revistas e jornais.

:: Da redação27 de agosto de 2013 15:04

Ação entre amigos explica silêncio da mídia sobre malfeitos do PSDB

:: Da redação27 de agosto de 2013

Nas redes sociais, o sentimento de indignação com a chamada grande mídia tem sido crescente nas últimas semanas. A razão é o silêncio e a falta de empenho do jornalismo investigativo sobre o escândalo do metrô de São Paulo, com desvios que já superam meio bilhão de reais durante 20 anos de governo do PSDB. Uma notícia que começou a circular nos blogs e redes sociais no último final de semana – que evidentemente a grande mídia manteria em segredo, se pudesse – explica parte desse suspeito comportamento: na surdina, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, renovou as assinaturas de publicações da Editora Abril e dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S.Paulo, para distribuição na rede de educação estadual, num gesto de bondade com dinheiro do contribuinte de cerca de R$ 5 milhões.

Dentre todos os artigos e textos publicados na internet a respeito desse novo escândalo, um merece atenção: o escrito pelo jornalista Paulo Nogueira, em seu site “Diário do Centro do Mundo”, Por que Alckmin não deveria comprar lotes de revistas e jornais amigos.

Paulo Nogueira merece crédito por conta de seu histórico profissional. Além de tarimbado repórter e editor, ocupou cargos de direção tanto na Editora Abril (chefiando o grupo de publicações que gravita em torno da revista Exame) quanto na Editora Globo (como diretor de todas as revistas da empresa) – cargos em que assistiu a cenas comprometedoras, como o caso em que ele relata no artigo.

“É dinheiro público, extraído do orçamento da educação”, diz ele, sobre a milionária compra. “As publicações supostamente vão ser lidas pelos alunos das escolas públicas de São Paulo, e isso os ajudará em sua formação.

Isso mitigaria, pelo menos em parte, o problema de a compra haver sido feita sem licitação. Mas não é exatamente isso”.

Para Paulo Nogueira, trata-se, isso sim, de “uma ação entre amigos, em que as partes – empresas jornalísticas e políticos – trocam favores usando dinheiro do contribuinte”.

Nas linhas abaixo, Paulo Nogueira conta um desses casos:

“Vivi, na editora Globo, uma situação exemplar. Era 2007, e eu acabara de ser contratado para ser diretor editorial das revistas da Globo.

A principal delas, a Época, era singularmente gentil com um governador da região norte. Esse governador, fiquei sabendo depois, comprava grandes lotes de livros da Globo, o que vinha ajudando substancialmente a editora a dar lucros.

Demos, na revista, uma denúncia contra ele. Instalou-se uma confusão. Ele foi a São Paulo para falar comigo e com o então diretor geral da editora, Juan Ocerin.

A conversa não poderia ter sido pior. Ele foi grosseiro, e eu disse que não admitia que uma visita falasse naquele tom ali, numa sala ao lado da redação da Época.

Ele saiu da sala com uma ameaça. ‘Vou conversar com o João Roberto’. João Roberto era e é João Roberto Marinho, o filho do meio de Roberto Marinho, aquele que é o editor de fato das Organizações Globo.

Não sei se falou.

Antes de ir embora, ele se avistou com o diretor de publicidade da editora, que era seu interlocutor nas negociações de compras de lotes de livros.

Nova confusão. Desta vez, o resultado foi uma conversa a três: Ocerin, eu e o diretor de publicidade.

Em alguns minutos, depois de palavras ríspidas, eu disse ao diretor de publicidade que jamais voltaria a falar com ele.

E de fato não voltei.

Foi contratado um novo diretor de publicidade, e ele me disse que várias vezes Ocerin se queixou dele por não ter o acesso mágico àquele governador para que aportasse dinheiro na editora em momentos de seca.

O que se fazia na editora Globo é uma coisa parecida com a compra de lotes de publicações por Alckmin”.

Mas não se trata apenas de comprar simpatia editoria, alerta Paulo Nogueira. Trata-se, também, de jogar dinheiro público pelo ralo.

“Do ponto de vista estritamente lógico, alguém consegue imaginar jovens estudantes lendo a Veja, a Folha ou o Estadão, para apreciar os artigos de Dora Kramer, Maílson da Nóbrega e Pondé?”, ele pergunta.

Como se vem noticiando com frequência, jornais e revistas são espécies em extinção. Com tiragem cada vez menores, não correspondem ao que quer a nova geração de leitores, predominantemente digital, que não aprecia a mídia impressa.

“Para testar a motivação real da compra, verifique se alguma escola particular gasta milhões de reais para adquirir a Veja, a Folha ou o Estado.

É, repito, uma ação entre amigos.

Mas quem paga a conta é o contribuinte”.

Link para íntegra, com reprodução de documentos comprovando as compras do governo do Estado de São Paulo: Diário do Centro do Mundo.


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