Aliados do governo rejeitam convidar ex-ministros para explicar escândalo

:: Carlos Mota29 de novembro de 2016 16:05

Aliados do governo rejeitam convidar ex-ministros para explicar escândalo

:: Carlos Mota29 de novembro de 2016

Líder da Minoria no Senado, Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que oposição pode recolher assinaturas para instaurar CPI sobre a pressão de membros do governo em favor de interesses privados

Carlos Mota

29 de novembro de 2016 | 13h50

Foto: Alessandro Dantas

 

O governo reforçou, nesta terça-feira (29), que quer jogar para debaixo dos panos o escândalo envolvendo altos escalões do Executivo e a construção de um prédio em Salvador (BA). Senadores da base aliada votaram em peso, na Comissão de Meio Ambiente e Fiscalização do Senado (CMA), contra o convite para que os ex-ministros Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) e Marcelo Calero (Cultura) explicassem o caso que levou a pedidos de demissão das duas autoridades.

Os requerimentos foram apresentados pelo senador Humberto Costa (PT-PE). O documento tem com base a denúncia de Calero de que Geddel o pressionou para que o Instituto Nacional de Patrimônio Nacional (Iphan) revisse a decisão de embargar a obra do edifício de luxo “La Vue”, onde o ex-titular da Secretaria de Governo teria comprado um apartamento.

O debate foi quente. Logo no início da reunião da CMA, Humberto pediu a inversão de pauta para que os requerimentos fossem apreciados antes dos demais projetos. Os senadores aliados ao governo, em desvantagem naquele momento, enrolaram o quanto puderam até conseguir quórum para rejeitar o pedido do petista.

Indignado, o líder da Minoria no Senado, Lindbergh Farias (PT-RJ), afirmou que a base aliada do governo obriga a oposição a tomar medidas mais drásticas, diante da falta de colaboração para investigar o caso. “Os senhores estão nos empurrando para coletar assinatura para [instaurar] uma CPI”, afirmou.

A alegação dos governistas é de que havia uma pauta extensa e importante na CMA e que, por isso, não era possível mudar a ordem de apreciação das matérias.

Mas o discurso caiu por terra após a atuação do senador Romero Jucá, ministro de Temer se demitiu após divulgação de áudios escandalosos que escararam o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Logo após o pedido de inversão ser rejeitado, Jucá atuou para que os governistas tirassem da pauta do dia todos os projetos que iriam ser votados. O objetivo? Agilizar a votação dos requerimentos de convite a Calero e Geddel, para rejeitá-los.

Humberto criticou duramente a atitude dos aliados de Temer. “No começo da reunião, pedi que houvesse uma inversão de pauta. Vários senadores falaram que não era correto, porque tinha uma pauta gigantesca que precisava ser limpa. E, no final, abriram mão de tudo, para que se votasse esses requerimentos e os derrotassem. Eles tentam, com isso, acabar com a crise. Não vai acabar. Porque esse governo não tem condições políticas e nem éticas de continuar”, afirmou o senador. 

Entenda o caso

O escândalo começou após Marcelo Calero pedir demissão do cargo de ministro da Cultura. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, ele afirmou que tomou a decisão após ser pressionado pelo então ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, para que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) revisse a decisão de suspender as obras do projeto imobiliário “La Vue Ladeira da Barra”.

O caso ganhou contornos ainda mais suspeitos quando a Folha de S.Paulo deu outro furo jornalístico, revelando que dois parentes de Geddel atuam na defesa da obra embargada. O processo administrativo sobre o caso no Iphan tem como procuradores os advogados Igor Andrade Costa, Jayme Vieira Lima Filho e o estagiário Afrísio Vieira Lima Neto – estes dois últimos, respectivamente, primo e sobrinho de Geddel.

Não bastasse esses absurdos, até mesmo o presidente Michel Temer estaria envolvido. Em depoimento de Calero à Polícia Federal, ele afirmou que Temer queria que o ex-titular da Cultura encontrasse uma “saída” para o embargo da obra. A ideia era que processo fosse enviado à Advocacia Geral da União “porque a ministra Grace Mendonça teria uma solução”.

 

MULTIMÍDIA

Assista vídeo de Lindbergh Farias comentando sobre a possibilidade de uma CPI sobre o caso:

 

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