Analistas de economia daqui erram tanto quanto os de fora

Previsões pessimistas para o Brasil se renovam todos os dias nos jornais, mas a realidade insiste em dizer o contrário.

:: Da redação26 de fevereiro de 2014 19:39

Analistas de economia daqui erram tanto quanto os de fora

:: Da redação26 de fevereiro de 2014

Dia após dia, a área econômica dos jornais se desdobra em entrevistas com analistas econômicos que possam opinar sobre a situação brasileira. Com frequência, repetem análises catastróficas como se o Brasil vivesse por um colapso econômico, nunca reconhecendo erros crassos das projeções que se processam. Muitos desses analistas são levados profundamente a sério, como se fosse deles o veredicto final. O modelo pouco muda, seguindo a cartilha do “chefe do departamento econômico de hedgde fund de tal banco” ou o “estrategista do fundo de investimento xis”, alerta isso, não acredita naquilo – enfim, falam e repetem à exaustão suas previsões catastróficos, como se os brasileiros fossem levar a sério tais projeções a tal ponto de cair em depressão e não sair mais de casa.  

Mas o fato é que os analistas daqui erram tanto quanto os sediados nos Estados Unidos ou na Europa. Nesta semana, ao fazer a leitura de algumas projeções, notam-se os deslizes, que podem influenciar negativamente a atuação de uma horda de especuladores chamados carinhosamente de investidores.

Veja o exemplo do indicador de construção de novas casas nos Estados Unidos: a queda em janeiro foi de 16%, inferior à queda de 4,8% em dezembro e abaixo do que previam os analistas: -4,9%. As licenças para construção caíram 5,4% em janeiro, para 937 mil casas, após recuo de 2,6% em dezembro. Os analistas apostavam em queda de apenas 1,6%. Os novos pedidos de seguro-desemprego nos Estados Unidos totalizaram 336 mil até 15 de fevereiro, abaixo dos 339 mil pedidos solicitados na semana anterior e acima do que os analistas previam: 335 mil pedidos.

O índice de preços ao consumidor subiu 0,1% em janeiro e ficou abaixo do percentual de 0,3% de dezembro. Na comparação anual, o indicador subiu 1,6% em janeiro e acima de 1,5% de dezembro. Aqui, nesse caso, os analistas se dividiram. O índice dos gerentes de compras (PMI/Market) ficou em 56,7 em fevereiro, acima dos 53,7 de janeiro e das expectativas dos analistas, de 56,3.

Na Europa os erros dos analistas são constantes também. O índice Zew, que mede as expectativas na Alemanha, ficou em 55,7 em fevereiro, abaixo dos 61,7 em janeiro e das previsões dos analistas: 61,5. O índice Zew de situação anual, em fevereiro, ficou em 50 pontos, acima dos 41,2 de janeiro e dos 44 pontos esperados e projetados pelos economistas.

O índice de atividade PMI da manufatura alemã, da França e da Zona do Euro, ficaram em 57,7; 48,5 e 53 pontos. Na Inglaterra a taxa de desemprego ILO de três meses chegou a 7,2% em dezembro, superior à taxa imediatamente anterior e das expectativas dos analistas, que cravaram 7,1%.

Já no ambiente doméstico a taxa de desemprego ficou em 4,8% em janeiro, acima dos 4,3% de dezembro, mas abaixo do “consenso dos economistas” de 5,1%. A inflação medida pelo IGP-10, da FGV, ficou em 0,30% em fevereiro, abaixo dos 0,58% de janeiro e da projeção dos analistas, de 0,34%.

Frisson
O frisson de hoje nos jornais diz respeito à divulgação do PIB relativo ao quarto trimestre do ano e o resultado do ano. Nos jornais, vinte analistas de consultorias de bancos e de empresas privadas foram consultados. Preveem que no quarto trimestre a economia avançou de 0,1% a 0,5% e, no ano fechado, 2,2%. Algumas previsões apostam em 1%.

Nesse conjunto de apostas, há quem centre suas análises pessimistas se o governo vai ou não cumprir o superávit primário neste ano de 1,9% do PIB. Como os jornais ouvem dia sim, dia não, o ex-diretor de política monetária do BC, hoje chefe do departamento econômico do Banco Itaú, Ilan Goldfajn exibe toda sua bola de cristal: diz ele que o rebaixamento da nota soberana do Brasil está próxima. “Eu não descarto que o rebaixamento aconteça antes das eleições. Minha primeira impressão é de que a agência não gostaria de influenciar a política interna do país, mas não sei quanto mais ela pode adiar a decisão”, disse ele.

Em 2010, o mago Ilan fez a seguinte previsão: “um exemplo é a meta de superávit para este ano, que não deverá ser alcançada plenamente, mesmo com forte crescimento na arrecadação e incorporação de ganhos contábeis na capitalização da Petrobras”. O mesmo pessimismo de antes que vigora hoje – e errou lá atrás. Aliás, no dia 15 de novembro de 2008, quando estourou a crise mundial, o jornal O Estado de S. Paulo anunciou sua saída da gestora de fundos Ciano Investimentos. Suas previsões não foram lá uma ‘brastemp’. O jornal noticiou que “ele deixa a empresa com um saldo de rentabilidades positivas, mas longe de serem brilhantes. Em outubro do ano passado (2007) o fundo alcançou patrimônio de R$ 400 milhões e hoje (2008) tem apenas 10,6 milhões e 19 cotistas”. A mesma matéria do jornal anunciava que outros fundos geridos por pessoas que ocuparam postos de relevo do Banco Central também sofreram saques volumosos durante a crise de 2008. O ex-diretor do BC Luiz Fernando Figueiredo, gestor do fundo Mauá, que chegou a ter R$ 1,76 bilhão em novembro de 2007 atingiu R$ 145 milhões em novembro de 2008. O fundo Quest, do ex-ministro tucano Luiz Carlos Mendonça de Barros, um dos maiores defensores da privatização, que tinha patrimônio de R$ 1,84 bilhão em novembro de 2007, viu seu fundo “afundar”, tendo somente R$ 160 milhões em novembro de 2008.

Fica a pergunta
Se a situação econômica do Brasil é ruim ao ponto das agências de risco cogitarem rebaixar a nota do Brasil, como explicar a elevada procura de investidores estrangeiros pelos papéis brasileiros, detendo o equivalente a 17,2% ou R$ 335,37 bilhões na dívida interna?

O coordenador-geral de Operações da Dívida Pública, Fernando Garrido, informa que essa participação é recorde e reflete a confiança internacional na capacidade do Brasil em gerir a dívida pública. “Percebemos que esse interesse pelos papéis brasileiros continua se mantendo”, disse ele.

Portanto, deve-se pesar e analisar  “as análises” catastrofistas de muitos especialistas renomados com muito cuidado. A notícia de que o Brasil lançará títulos no mercado internacional vai mostrar, realmente, como País está sendo bem conduzido. O difícil para estes analistas é reconhecer isso. Mais fácil é ver uma catástrofe.

Marcello Antunes

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