Aproveitadores e oportunistas vão formar governo ilegal e imoral, acusa líder

:: Da redação12 de maio de 2016 05:55

Aproveitadores e oportunistas vão formar governo ilegal e imoral, acusa líder

:: Da redação12 de maio de 2016

Paulo Rocha: maiores perdedores são os que acreditaram num Brasil mais justo e solidárioAs cartas estão dadas, mas a batalha de hoje é apenas o início da luta, dentro e fora do Congresso. “As ruas continuarão gritando ‘não vai ter golpe, vai ter luta’ – e terão nosso mais irrestrito apoio e participação”, garantiu o líder do PT, senador Paulo Rocha (PA), em pronunciamento na madrugada desta quinta-feira, na sessão que decide a abertura do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff.

“Dilma poderá pagar, a partir desta sessão no Senado, com a perda temporária do cargo, mas quem mais perderá na realidade serão nossas instituições, será a integridade da nossa Constituição, será a democracia, serão os milhões de eleitores que acreditaram nas propostas de um Brasil mais justo e solidário. Num Brasil para todos”, afirmou.

Paulo Rocha ressaltou a ilegitimidade do governo provisório chefiado por Michel Temer, sem respaldo do povo, ilegal, ao arrepio da Constituição. “Um governo imoral, porque tem sua origem na aliança espúria entre aproveitadores que querem tirar vantagem dos efeitos da crise financeira global no Brasil. Entreguista, que já se apressa em anunciar a entrega do nosso patrimônio”.

O senador deixou um avido aos apoiadores do golpe: o PT esteve à frente dos movimentos que reconquistaram a democracia no Brasil e não vai recuar frente a esse revés.

Leia a íntegra do pronunciamento do senador Paulo Rocha:

Senhoras senadoras, senhores senadores
Cidadãs e cidadãos que nos acompanham pela rádio e tevê Senado

As cartas estão dadas: a admissão do impeachment da presidenta Dilma Rousseff será aprovada pela maioria desse plenário, apesar do seu vício de origem, da manipulação com que foi conduzida na Câmara.

Aqui no Senado, como denunciamos e pedimos para que fosse evitado, tivemos parcialidade no relatório que impôs rigores inéditos às contas fiscais da União.

A presidenta da República não cometeu crime de responsabilidade, mas isso não tem a menor importância se servir para justificar o golpe. O que vale, como estamos cansados de ouvir, é o conjunto da obra.

A primeira etapa desta batalha tende a terminar como os golpistas e os conspiradores planejaram. Conjunto da obra…

Mas a verdade é que se prepara a punição para a presidenta Dilma Rousseff, primeiro, porque não cedeu à chantagem de Eduardo Cunha, que foi afastado tardiamente da presidência da Câmara pelo Supremo Tribunal Federal, depois de ter sua intenção frustrada de contar com a interferência da Presidência da República no inquérito da Lava Jato para escapar ao cerco da Justiça.

Cunha chantageou a presidenta cobrando o impossível. Queria a impunidade. Não sendo atendido, sabotou o governo com suas pautas-bomba para minar a confiança de um governo comandado por uma pessoa reconhecidamente honesta. Uma pessoa contra a qual não pesa nenhuma acusação, nenhum indício de improbidade, nenhuma presença nas listas de contas no exterior com dinheiro da corrupção. Nada, absolutamente nada, de ilegal pode ser atribuído à presidenta.

Dilma Rousseff poderá pagar por ter sido honesta com a pior pena que se pode aplicar a uma pessoa pública: o afastamento do cargo para o qual foi eleita pelo voto livre de mais de 54 milhões de pessoas.

Dilma poderá pagar, a partir desta sessão no Senado, com a perda temporária do cargo, mas quem mais perderá na realidade serão nossas instituições, será a integridade da nossa Constituição, será a democracia, serão os milhões de eleitores que acreditaram nas propostas de um Brasil mais justo e solidário. Num Brasil para todos.

Dilma poderá pagar, sobretudo, pelo isolamento político a que foi submetida por se recusar a praticar o toma-lá-dá-cá do apoio político em troca da vista grossa aos erros e desvios de aliados que foi obrigada a aceitar por força do nosso falido modelo de presidencialismo de coalizão.

Vários desses mesmos aliados que até bem pouco tempo atrás ocupavam postos importantes no governo, agora estão entre seus maiores algozes.
Transformaram em pó os benefícios e a confiança de que usufruíram, colocando em seu lugar discursos carregados de mentiras, de cinismo e hipocrisia. Sua maior motivação é dar o troco contra a ex-chefa dura na cobrança por resultados, intransigente com o mal feito e inflexível no trato com o bem público.

Alguns manifestaram apenas ressentimento pelo rigor do comando a que estiveram submetidos, muito embora tenham sido eleitos justamente por exercer o cargo público cumprindo exatamente o que havia sido determinado pela presidenta.

Outros são apenas oportunistas, que agora se assanham com os futuros cargos e dotações orçamentárias que terão com um governo surgido da conspiração e da traição.

A história registrará cada voto dos senadores presentes a essa reunião extraordinária do Senado que sinaliza a concretização da primeira fase do golpe.

O futuro mostrará que a votação de hoje representa a conquista de um mandato que as urnas lhes negaram. Esses são os golpistas da primeira hora, que não esperaram completar 48 horas depois da votação para questionar o resultado das urnas, colocando em dúvida até mesmo a reputação da Justiça Eleitoral.

Haverá também os que serão descritos como os que se deixaram levar pelo estouro da manada provocado pela ideia pré-concebida, pelo julgamento apressado, pela opinião da mídia que incentivou a perda de confiança, o descrédito, além de omitir muitas realizações que dentro de muito pouco tempo cada um de nós haverá de reconhecer.

A batalha de hoje é apenas o início. Nossa luta vai continuar, dentro e fora do Congresso. As ruas continuarão gritando “não vai ter golpe, vai ter luta” – e terão nosso mais irrestrito apoio e participação.

Aqui, neste Senado, insistiremos na apresentação dos fatos que terminarão por comprovar a injustiça da acusação de crime de responsabilidade. A violência ora cometida contra uma presidenta eleita legitimamente pelas urnas, contra a Constituição, será denunciada quantas vezes for necessário.

Ao mesmo tempo, ao contrário do que muitos senadores esperam ao votar hoje pela admissibilidade do impedimento, irá se comprovar que não há crime algum nos atos hoje imputados à presidenta.

A batalha que nos espera será longa e árdua, mas todo o empenho será compensado.

Essa recompensa será a democracia. Mas eu pergunto: o que significa a democracia para nós?
Para alguns, eu sei que não significa muita coisa. Querem apenas chegar ao poder, e não importa por quais meios – inclusive os golpes.

Aliás, é assim que atua e sempre atuou a elite brasileira quando perde o poder. Retorna sempre através do golpe. É assim, hoje, com a armação deste golpe parlamentar que envergonha o Brasil no exterior; foi assim no passado, quando batiam nas portas dos quartéis para a instalação de ditaduras que ampliavam seus privilégios através de salários de fome e nenhuma proteção social para dar suporte aos mais pobres.

O golpe que estamos denunciando é uma conspiração mais sofisticada. No lugar da baioneta, seus autores foram buscar cúmplices no Judiciário e no Ministério Público, com o apoio das mesmas empresas de mídia que atentaram contra Getúlio Vargas, contra Juscelino Kubitschek, contra João Goulart, contra Lula e contra a presidenta Dilma. Em todos as vezes, ao lado dos que não conquistaram o poder pelo voto e a favor do golpe.

Essas são as forças rejeitadas pelo eleitor que buscam criminalizar o PT. Essa é a aliança de derrotados, golpistas, corruptos e traidores que agora estão tentando construir um eventual governo de Michel Temer

Um governo, desde seu nascedouro, ilegítimo porque não tem o respaldo do povo. Um governo ilegal, porque violenta a Constituição para tomar o poder sob a falsa acusação de que a presidenta cometeu crime de responsabilidade.

Um governo imoral, porque tem sua origem na aliança espúria entre aproveitadores que querem tirar vantagem dos efeitos da crise financeira global no Brasil.

Um governo entreguista, que já se apressa em anunciar a entrega do nosso patrimônio para o grande capital, a começar pelo pré-sal.

Um governo antipopular, que antecipa seus propósitos com a retirada de direitos dos trabalhadores e com a redução das políticas públicas que levaram um pouco de esperança e dignidade para as classes menos favorecidas nos últimos treze anos.

Nós continuaremos na trincheira contra os golpistas porque, para nós, do Partido dos Trabalhadores, a democracia é estratégica para uma sociedade, para um país como o Brasil que almeja ser uma nação soberana.

Não se iludam os democratas de plantão nem os golpistas de fancaria. O PT esteve à frente dos movimentos que reconquistaram a democracia no Brasil. O PT sempre esteve ao lado dos que cobravam eleições diretas, dos que exigiram maior transparência e independência nas relações externas.

Foi com a autonomia que alcançamos com a democracia que o Brasil deixou de falar fino com os EUA e falar grosso com a Bolívia.
Foi graças à democracia que um operário metalúrgico chegou ao Palácio do Planejamento para se tornar o maior presidente da República que o Brasil já teve em toda a sua história.

E só por causa da democracia que os golpistas querem deformar que o PT conseguiu mudar a agenda e incluir, pela primeira vez, os pobres e miseráveis entre as prioridades do Brasil. Nós temos muito orgulho de afirmar que somos os responsáveis pelo surgimento da nova classe média que ampliou nosso mercado interno como nunca havia acontecido antes. Nós, de fato, reduzimos a pobreza. Nosso governo foi o que tirou o Brasil do mapa da fome da ONU.

O tão repetido “conjunto da obra” que os golpistas utilizam para justificar a violação da nossa Constituição se esquecem das realizações fundamentais dos governos do PT. Foram os nossos governos que se empenharam em levar mais dignidade para milhões de homens e mulheres com propostas que levaram mais dignidade e cidadania para quem mais precisava. Foi o nosso conjunto da obra que criou a lei de combate ao trabalho escravo e a lei dos empregados domésticos.

Conjunto da obra…eu vou lhes lembrar o conjunto da obra:

As reservas internacionais líquidas do Brasil hoje domam US$ 376,3 bilhões; eram apenas US$ 16 bilhões em 2002;

Nossa dívida externa, hoje, é de US$ 333,6 bilhões. Logo, podemos pagá-la com folga e ainda nos restarão US$ 42,7 bilhões;

A dívida pública líquida é de 38,9% do PIB; era de 60,4% do PIB em 2002;

Os investimentos externos produtivos (IED) no Brasil foram de US$ 78,9 bilhões nos últimos 12 meses, ou 4,56% do PIB;

O Brasil, hoje, tem o 7º maior PIB mundial, tinha o 13º em 2002;

A renda per capita do Brasil é de US$ 10.000; era de US$ 2.500 em 2002;

O salário mínimo, hoje, é de R$ 880,00, equivalente a cerca de US$ 250. Era de apenas US$ 55 em 2002;

Esses são os números do conjunto da obra que os golpistas omitem. Mas não é apenas isso.

Foi também nos governos populares do PT que o Brasil deixou para trás sinais do atraso a que estávamos submetidos pelo projeto neoliberal que hoje financia o golpe. Nós tiramos o Brasil do atraso do apagão elétrico, nós criamos infraestrutura básica como a recente hidrelétrica de Belo Monte. Nós ajudamos a tirar o Nordeste do atraso social e econômico secular com programas sociais que se tornaram referência para os países em desenvolvimento.

Nós tivemos a coragem de tirar do papel e transformar em realidade a transposição do rio São Francisco, uma das obras mais importantes da humanidade neste século.

Mas os versos fáceis do golpismo se esqueceram de todas essas conquistas para subir a essa tribuna para atacar a corrupção, como se se tratasse de uma novidade, algo que não fazia parte do nosso cotidiano. Esquecem-se, esses golpistas, de registrar que foi no governo do ex-presidente Lula que nossa imagem externa melhorou, que nosso país passou a ser mais respeitado. Esquecem-se  de que foram nos governos do PT que a Polícia Federal recebeu os maiores investimentos de sua história.

A democracia é estratégica para o progresso da sociedade em paz, é essencial para que nosso povo ganhe mais cidadania e dignidade.