vida ameaçada

Bolsonaro comemora com “arminha” exílio de Jean Wyllys

Deputado federal diz que ligações do clã Bolsonaro com milícias o aterrorizaram. Jair Bolsonaro usou as redes sociais para comemorar decisão do parlamentar
:: Alessandra Gondim24 de janeiro de 2019 17:41

Bolsonaro comemora com “arminha” exílio de Jean Wyllys

:: Alessandra Gondim24 de janeiro de 2019

“Me apavora saber que o filho do presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe de um miliciano”. Com essas palavras o deputado federal reeleito, Jean Wyllys (PSol-RJ) anunciou na tarde desta quinta-feira (24) que não assumirá o mandato conquistado nas últimas eleições e que ficará fora do País. A presidenta do PT nacional, senadora Gleisi Hoffmann (PR), disse que Jair Bolsonaro será responsável pelo que venha a acontecer com o deputado.

“Precisa ficar claro que Bolsonaro será cúmplice de qualquer coisa que acontecer ao deputado Jean Wyllys daqui pra frente, porque quem comemora uma decisão dessas com a pessoa dizendo que está se sentindo ameaçada, que pode morrer, falando das milícias do Rio de Janeiro que são ligadas à família Bolsonaro, dá a ele [Bolsonaro] total responsabilidade pela vida e pela integridade do deputado”, afirmou Gleisi após visita hoje ao ex-presidente Lula.

Solidariedade ao Deputado Jean Wyllys

#FORÇAJEANWYLLYSO brilhante deputado Jean Wyllys (PSOL) abriu mão do mandato pela vida dele e de parentes. Ameaças de morte o fizeram tomar essa decisão correta. Jean, defendia as mesmas causas de Marielle Franco e tantos outros brasileiros. Onde ele estiver, vai continuar lutando como sempre fez e nós que ficamos aqui, seguiremos na luta por dias melhores para todos os brasileiros. Força, Jean! 🇧🇷

Publicado por Humberto Costa em Quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

 

As recentes denúncias de que familiares de um ex-policial militar suspeito de chefiar a milícia investigada pela morte da vereadora Marielle, trabalharam no gabinete do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) durante seu mandato como deputado estadual pelo Rio de Janeiro, levaram o deputado federal Jean Wyllys a tomar a decisão de renunciar ao terceiro mandato consecutivo pelo Psol do Rio de Janeiro.

Em reportagem à Folha de S. Paulo, o parlamentar afirmou que está fora do País e que não pretende voltar. “O presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou de homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim”, acrescentou.

Momentos após Jean Wyllys anunciar sua decisão, Jair Bolsonaro utilizou seu perfil no Twitter para comemorar o anúncio afirmando ser esse um “grande dia”.

Foto: Reprodução

Em novembro de 2018, Wyllys recebeu apoio da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), que cobrou do Estado brasileiro que assegurasse proteção ao deputado e à sua família. Por meio de medida cautelar, a comissão cobrou ainda que o governo investigasse episódios de “ameaças e difamação” que “aumentam a situação de vulnerabilidade” do parlamentar, ao “torná-lo alvo do ódio de setores da sociedade”.

“O Pepe Mujica [ex-presidente do Uruguai], quando soube que eu estava ameaçado de morte, falou para mim: ‘Rapaz, se cuide. Os mártires não são heróis’. E é isso: eu não quero me sacrificar”, contou ele ao jornal. Wyllys é o primeiro e único parlamentar assumidamente gay no Congresso brasileiro e virou alvo de ódio e fake news diárias por parte da direita.

Recentemente, Jean Wyllys venceu um processo por difamação contra o também eleito deputado federal, Alexandre Frota (PSL-SP), que o acusou nas redes sociais de defender a pedofilia.

Em seu lugar, deverá entrar o jornalista e vereador David Miranda, também do Psol e defensor da causa LGBT.

NOTA DO INSTITUTO LULA

Jean Wyllys um dos deputados federais mais combativos dos últimos anos, inúmeras vezes premiado por sua atuação em defesa dos direitos humanos e da população LGBT, abrirá mão de seu terceiro mandato na Câmara pois não se sente seguro no Brasil.

Suas motivações são absolutamente legítimas: a escalada do ódio e da intolerância na política, que fez dele um alvo preferencial, justamente por suas convicções ideológicas e seus posicionamentos altivos e aguerridos. Ameaças de morte, insultos e agressões físicas passaram a fazer parte do cotidiano de Jean Wyllys.

Para preservar sua vida, ele se viu forçado a despedir-se do Brasil e de sua vida pública, um gesto que evidencia que nossa democracia não é mais tão plena assim.

A execução de Marielle Franco, o aumento dos crimes de ódio, o assassinato de Moa do Katendê, a perseguição e prisão injustas de Luiz Inácio Lula da Silva, o auto-exílio de Jean Wyllys: nuvens sombrias pairam sobre nosso país.

Transmitimos nossa solidariedade a Jean Wyllys, que, há poucos dias, recebeu uma carta de Lula, declarando sua admiração pelo trabalho desenvolvido pelo deputado.

Mais do que nunca, é necessário estarmos vigilantes e atentos, e fortalecer entre nós, defensoras e defensores dos direitos humanos, uma rede de solidariedade e resistência democrática. Ninguém solta a mão de ninguém.

Por Instituto Lula

Com informações da Folha SP e Brasil de Fato

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