Cerveró: não é verdade que Pasadena custou US$ 42,5 milhões

Ex-diretor internacional da Petrobras desmente imprensa e mostra que empresa seguiu planejamento feito no governo FHC

:: Da redação16 de abril de 2014 19:54

Cerveró: não é verdade que Pasadena custou US$ 42,5 milhões

:: Da redação16 de abril de 2014

Inutilmente, oposicionistas estimularam
Cerveró a criticar Dilma e Graça Foster
(Agência Câmara) 

Em audiência pública na Câmara dos Deputados na manhã desta quarta-feira (16), com expressiva presença da imprensa e parlamentares da oposição, o ex-diretor da área Internacional da Petrobras, Nestor Cuñat Cerveró, desmentiu a imprensa ao dizer que a refinaria de Pasadena, no Texas, custou R$ 42,5 milhões. O depoimento, com riqueza de detalhes, contribuiu para esvaziar o ímpeto da oposição, que tenta cravar adjetivos de que houve “malfeitos” na operação. “A expansão de refino no exterior era uma recomendação do planejamento estratégico da Petrobras, feito ainda na gestão anterior”, disse disse Cerverá, que se referia ao período em o presidente da República era Fernando Henrique Cardoso.

Sobre o carnaval que a imprensa tem feito – e que tem subsidiado a oposição com argumentos – sobre duas cláusulas existentes no contrato, a put option e a Marlim, Cerveró minimizou o fato ao explicar que a cláusula de saída de negócio (put option) não era uma intenção da Petrobras, ou seja, a empresa não queria sair da sociedade. Quanto à cláusula Marlim, disse que sequer foi colocada em prática pelo simples fato de que os investimentos para dobrar a capacidade de refino de 100 mil barris/dia para 200 mil barris/dia não prosperou. Isso porque a parceria do negócio, a comercializadora Astra Oil, não tinha a intenção de arcar com os pesados investimentos para adaptar a planta de Pasadena ao refinamento óleo pesado produzido pelo Brasil.

Cerveró demonstrou que a Petrobras desenvolveu, de forma pioneira, a capacidade da engenharia básica para adaptar refinarias para o processamento do óleo pesado brasileiro. O ex-diretor lembrou que a última refinaria foi construída no Brasil em 1975 e que, por isso, empresa ganhou conhecimento para fazer readaptações. O plano estratégico para o período de 1991 a 1999, feito na gestão de Fernando Henrique Cardoso, apontava uma necessidade para aquele momento: o mercado interno brasileiro de consumo estava estagnado, enquanto crescia a produção de óleo pesado no Campo de Marlim, na Bacia de Campos (RJ).

A partir daí, a Petrobras iniciou a prospecção para comprar uma refinaria no exterior, até porque nos Estados Unidos o consumo de combustível, em especial de gasolina, era crescente e beirava 9 milhões de barris por dia – no Brasil, com a economia estagnada pelos tucanos, o consumo não chegava a um milhão de barril/dia. O consumo de petróleo nos EUA, o maior consumidor do mundo, representava um mercado de 80 milhões de barris/dia.

Ao comprar a refinaria, a estratégia era processar o óleo pesado brasileiro, mais barato do que o óleo leve, e, nessa operação, a Petrobras teria ganho porque havia uma margem de lucro superior a US$ 10 dólares por barril. “A ideia não era só entrar nos Estados Unidos. Era disputar um mercado que consome 20 milhões de barris por dia. Por isso, além da refinaria, também comprou uma comercializadora, no caso, a trading Astra Oil”, disse Cerveró.

Disputa
O ex-diretor asseverou que diversas consultorias participaram para analisar os ativos da refinaria. Em agosto de 2005, a diretoria, de forma colegiada, aprovou a compra equivalente a US$ 360 milhões e o comunicado feito ao mercado acionário ocorreu em novembro daquele ano. Fechado o negócio, a Petrobras pagou US$ 189 milhões pela refinaria e US$ 170 milhões pela trading, a comercializadora que detinha estoques – esse valor seria pago em duas parcelas, a primeira de US$ 85 milhões no primeiro ano e a segunda, de igual valor, dois anos depois.

O projeto para ampliar a capacidade de refino de Pasadena, em meados de 2006, fazia sentido porque o mercado norte-americano ainda era crescente. Os investimentos para adaptar Pasadena, portanto, demandariam no mínimo US$ 1,1 bilhão, indicando taxa de retorno de 10,7% em relação ao preço mais baixo do óleo pesado e até 18% para duplicar a capacidade de refino para 200 mil barris/dia. “Mas a alta direção da Astra se recusou a fazer investimento e aí começou a disputa”, afirmou.

Inicialmente a Astra pediu US$ 1 bilhão para vender os 50% restantes da refinaria e da trading e a proposta feita pela Petrobras foi de US$ 700 milhões, conforme avaliações feitas não só por Cerveró, mas também por uma comissão interna, apoiada por trabalho de avaliação feito pelo Citigroup. Com a disputa indo para a corte arbitral dos Estados Unidos, Cerveró mostrou que o pagamento final pelo empreendimento foi de US$ 798 milhões, aí incluindo o valor relativo à segunda parcela que deveria ser paga dois anos após o fechamento do contrato.

Shale gas
Mas a grande virada do negócio aconteceu em 2007, quando a Petrobras descobriu reservas gigantescas de petróleo na camada do pré-sal. “Essa descoberta mudou o cenário do País e o mercado interno brasileiro havia mudado, exibindo uma forte expansão. E os investimentos para produzir esse petróleo do pré-sal seriam elevados, daí uma mudança de foco da empresa”, apontou. Para completar a mudança, a crise de 2008 trouxe reflexos negativos para o mercado interno norte-americano, só que nesse período os Estados Unidos desenvolveram a tecnologia de explorar petróleo e gás (shale gas), fato que está mudando a geopolítica mundial.

“Os Estados Unidos nunca exportaram petróleo por questões de segurança e a descoberta e exploração (do shale gas) diminuiu sua necessidade de importar gás e petróleo”, disse Cerveró. Na prática, a refinaria de Pasadena aproveita esse momento por estar na capital do petróleo – Houston – e agora usa sua capacidade de refino de 100 mil barris/dia para atender o mercado norte-americano, tanto é que a Petrobras não a incluiu no plano de desinvestimentos.

Na audiência pública, deputados da oposição abusaram das afirmativas de que não foi bom negócio e tentaram, de todas as formas, colocar o ex-diretor contra a presidenta da Petrobras, Graça Foster, e contra a presidenta Dilma Rousseff. Não conseguiram. Cerveró elogiou a crença do ex-presidente Lula que sempre defendeu o fortalecimento da maior empresa do País e sua internacionalização. “Entrei por concurso na Petrobras em 1975 e tenho orgulho de ter ficado cinco anos na diretoria internacional. Nós estávamos presentes em 7 países e, quando saí, a Petrobras já estava presente em 26 países, na África, na China, no Japão, no Oriente Médio, na Europa, graças à visão do presidente Lula”, afirmou.

Marcello Antunes

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