Enfrentar a crise

Chegou a hora de uma resposta fiscal global à covid-19, diz FT

Preocupar-se com as finanças públicas num momento desses é ao mesmo tempo perverso e contraproducente: gastar muito pouco é uma ameaça maior à prosperidade do que gastar muito
:: Da redação16 de março de 2020 14:31

Chegou a hora de uma resposta fiscal global à covid-19, diz FT

:: Da redação16 de março de 2020

“A primeira obrigação dos governos é salvaguardar a sobrevivência e a segurança física de seus cidadãos. A segunda é proteger seu bem-estar. A epidemia do coronavírus ameaça as duas. Os governos têm sido lentos na resposta ao desafio”, afirma matéria do jornal Financial Times, republicada pelo Valor, nesta segunda-feira.

“Está claro agora que o vírus representa uma ameaça potencialmente catastrófica à saúde pública, que só poderá ser resolvida com medidas extraordinárias de distanciamento que inibirão grandes parcelas da atividade econômica”, destaca o jornal.

Para o FT, ” tarefa é implementar essas medidas – a maioria dos governos ocidentais está, por vezes, atrasado em relação às iniciativas do setor privado – ao mesmo tempo em que se minimiza os danos econômicos”.

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Chegou a hora de uma resposta fiscal global à covid-19

A primeira obrigação dos governos é salvaguardar a sobrevivência e a segurança física de seus cidadãos. A segunda é proteger seu bem-estar. A epidemia do coronavírus ameaça as duas. Os governos têm sido lentos na resposta ao desafio.

Está claro agora que o vírus representa uma ameaça potencialmente catastrófica à saúde pública, que só poderá ser resolvida com medidas extraordinárias de distanciamento que inibirão grandes parcelas da atividade econômica. A tarefa é implementar essas medidas – a maioria dos governos ocidentais está, por vezes, atrasado em relação às iniciativas do setor privado – ao mesmo tempo em que se minimiza os danos econômicos.

O dinheiro não pode ser um obstáculo à capacidade dos serviços de saúde de fazer todo o possível para controlar a epidemia e cuidar dos doentes. Preocupar-se com as finanças públicas num momento desses é ao mesmo tempo perverso e contraproducente: gastar muito pouco é uma ameaça maior à prosperidade do que gastar muito.

Além disso, os danos econômicos são multiplicados pelas repercussões da ruptura inicial. Trabalhadores que perdem o emprego e empresas que ficam sem caixa reduzem suas aquisições, fazendo mais trabalhadores e empresas perderem seus meios de subsistência.

Os governos não deveriam medir esforços nem perder tempo para minimizar esses efeitos em cadeia causados por golpes temporários aos fluxos de caixa e às receitas. Empréstimos generosos, garantias e programas de apoio de renda deveriam ser implementados. Também é preciso elaborar medidas para setores em que o autoemprego, trabalhos temporários ou contratos por projetos são comuns, como na indústria criativa (moda, cinema e turismo).

Uma queda nas expectativas de inflação mostra que a contração na demanda é ainda mais drástica do que a interrupção na oferta. Estímulos macroeconômicos vigorosos são justificados. Os bancos centrais estão se mostrando à altura do desafio. O manual de resposta política do Banco da Inglaterra combina estímulos gerais, apoio direcionado à liquidez e um afrouxamento das exigências regulatórias.

O Federal Reserve (Fed) injetou centenas de bilhões de dólares num mercado estressado. [Ontem, numa ação extraordinária, o Fed cortou sua taxa de juros de referência para próximo de zero, numa ação coordenada com os bancos centrais do Japão, Reino Unido, Canadá, zona do euro e Suíça.]

O Banco Central Europeu (BCE) não chegou a decidir por um corte nos juros, mas elaborou um pacote sólido de compras de bônus e incentivos para os bancos sustentarem seus empréstimos corporativos.

Mas o pacote foi bastante comprometido quando a presidente do BCE, Christine Lagarde, pareceu descartar a necessidade de conter a disparidade nos custos de financiamento dos governos, do tipo que quase derrubou o euro em 2011-12. Posteriormente, ela prestou esclarecimentos, mas o dano já estava feito: os rendimentos dos títulos italianos dispararam. O BCE precisa agora declarar que receberia bem um programa de resgate da zona do euro para a Itália com poucas contrapartidas, assim como ativar o programa emergencial de compra de bônus estabelecido na última crise – e se preparar para comprar bônus italianos unilateralmente se os mercados decidirem punir os gastos de Roma para conter o coronavírus.

Enquanto o BCE não mostrar que a Itália está de volta, esse papel recai sobre os parceiros da União Europeia. Os sinais são positivos. Ursula vonder Leyen, a presidente da Comissão Europeia, colocou dinheiro do orçamento da UE na mesa e manifestou em alto e bom som que a Itália e outros países devem gastar o quanto for necessário com a crise de saúde. Até mesmo Berlim demonstrou pontos de vista parecidos. A comissão prometeu não deixar que as regras fiscais e de concorrência sejam um obstáculo, e agora deve pedir aos Estados-membros que ativem uma cláusula de geral de escape.

Mas nem todos os governos têm demonstrado a determinação exigida. Os Estados Unidos ainda não implementaram uma resposta adequada de saúde pública, quanto menos um programa fiscal suficiente. Não há nada parecido com a coordenação econômica mundial conseguida em 2008-09, embora a necessidade de um estímulo coordenado seja tão grande hoje quanto foi na época. Quando os ministros das finanças da UE se reunirem nesta semana, eles não deverão perder sua chance de oferecer isso.

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