Dilma e Bachelet : combate à ditadura fortaleceu democracia na A. Latina

:: Da redação11 de março de 2014 20:22

Dilma e Bachelet : combate à ditadura fortaleceu democracia na A. Latina

:: Da redação11 de março de 2014

Em almoço oferecido pela nova presidenta do Chile, presidenta do Brasil elogiou “paz e civilidade com que conduziu o processo eleitoral”

Dilma para Bachelet: ex-combatentes nas
ditaduras, agora comandam países

A posse da presidenta Michelle Bachelet, em seu segundo mandato à frente do governo do Chile, demonstra que a América do Sul avança “não apenas em termos de crescimento econômico e desenvolvimento social e humano, mas também e, sobretudo, na igualdade de gênero”, afirmou a presidenta Dilma Rousseff nesta terça-feira (11), durante o almoço oferecido pela nova chefe do executivo chileno aos chefes de Estado presentes à sua posse.

Dilma destacou o papel desempenhado por Bachelet como diretora da ONU-Mulheres, cargo que ela ocupou após concluir o primeiro mandato como presidente do Chile — o país não tem reeleição para o Executivo —, trabalho que “tanto ajudou a promover a igualdade de gênero”. A presidenta recordou uma frase de Michelle Bachelet que, para ela, resume essa nova realidade sulamericana: “Quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram na política, muda a política”.

Com a posse da socialista Bachelet, a América do Sul passa a ter a maior parte de sua população (67%) governada por mulheres. Dilma Rouseff, do Brasil, Cristina Kirchner , da Argentina, e Michelle Bachelet, do Chile, estão à frente dos três países que, juntos, representam 70% do território do continente e respondem por 70% do Produto Interno Bruto da região.

No almoço desta terça-feira, Dilma foi responsável por fazer o brinde à recém empossada chefe de estado, em nome de todos os seus colegas presentes ao almoço oferecido por Bachelet no Palácio Presidencial de Cerro Castillo, em Viña del Mar. A presidenta do Brasil lembrou o significado especial que tem o Chile para todos latino-americanos que lá  encontraram refúgio e proteção em diversos períodos da história do continente. “Aqui, muitos defensores da liberdade em nossos países encontraram o ‘asilo contra la opresión’ de que fala o hino nacional chileno”, destacou. 

Para Dilma, foi no enfrentamento a essa opressão que começou a se forjar a nova face da América do Sul, hoje majoritariamente governada por correntes progressistas. “As ricas – e por vezes trágicas – experiências políticas que vivemos nos ajudaram a transformar a complexa realidade de nosso continente e de nossas nações”, afirmou. Foram essas lutas que “fortaleceram nossas convicções democráticas e nossa decisão de realizar reformas econômicas e sociais capazes de tirar nossos povos da situação de exclusão em que, historicamente, se encontravam”.

Michelle Bachelet, assim como Dilma, teve ativa militância política no combate à ditadura que se instalou em seu país em 1973. O pai da presidente chilena, Alberto Bachelet, brigadeiro-general da Força Aérea do Chile, foi preso e assassinado pelo regime militar liderado pelo general Augusto Pinochet. Michelle viveu na clandestinidade, foi presa e acabou exilando-se. “Tenho presente o significado deste momento [a posse de Bachelet] para muitas outras mulheres e homens que, assim como nós, tiveram um passado de ativa militância política e um presente de construção da democracia e do desenvolvimento em nossas nações”, destacou Dilma.

A presidenta saudou a sociedade chilena pelo “exemplo de maturidade política, paz e civilidade com que conduziu o processo eleitoral” e lembrou que a vitalidade democrática vivida pelo Chile e pelo continente foi conquistada com muita luta. “Hoje, nossa região é uma área de paz e de desenvolvimento e que está provando ser possível crescer e, ao mesmo tempo, incluir as pessoas mais pobres de nossas sociedades”.

Dilma também destacou o papel da integração sulamericana nesse processo de construção da prosperidade e demonstrou confiança de que o Chile, sob a presidência de Bachelet, renovará seu compromisso com essa integração regional.

Citando o maior poeta chileno, Pablo Neruda, Dilma concluiu sua saudação á nova chefe de Estado, resumindo sua felicidade em tê-la, agora, como companheira na condução dos destinos do continente: “Pense que tenho a alma toda cheia de risos e não te enganarás, irmã, eu te juro.” 

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Íntegra do discurso da presidenta Dilma Rousseff no Chile:

DISCURSO DE BRINDE DA PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF POR OCASIÃO DA CERIMÔNIA DE POSSE DE MICHELLE BACHELET

Santiago, 11 de março de 2014

Sinto-me muito honrada em poder saudar, em nome dos convidados, a Presidenta e amiga Michelle Bachelet, que assume hoje, pela segunda vez, a Presidência do Chile.

Querida Michele, o seu país tem um significado especial para todos latino-americanos que aqui encontraram refúgio e proteção. Aqui, muitos defensores da liberdade em nossos países encontraram o “asilo contra la opresión” de que fala o hino nacional chileno. 

As ricas – e por vezes trágicas – experiências políticas vivemos nos ajudaram a transformar a complexa realidade de nosso continente e de nossas nações.

Fortaleceram nossas convicções democráticas e nossa decisão de realizar reformas econômicas e sociais capazes de tirar nossos povos da situação de exclusão em que, historicamente, se encontravam.

É uma grande satisfação homenagear a Presidenta Michelle Bachelet, pois tenho presente o significado deste momento para muitas outras mulheres e homens que, assim como nós, tiveram um passado de ativa militância política e um presente de construção da democracia e do desenvolvimento em nossas nações.

No último sábado, comemoramos o dia internacional da mulher, e é emblemático que somos hoje, com a nossa querida Presidenta Cristina Kirchner, três mulheres a presidir países na América do Sul.

Nossa região avança, não apenas em termos de crescimento econômico e desenvolvimento social e humano, mas também e, sobretudo, na igualdade de gênero. Igualdade de gênero que você, Michelle, tanto ajudou a promover, quando ocupou o cargo de Diretora Executiva da ONU-Mulheres.

Recordo sempre uma frase sua que seguramente serve de inspiração para as mulheres em todo o mundo: “Quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram na política, muda a política”.

Desejo, ainda, saudar a sociedade chilena, como um todo, pelo exemplo de maturidade política, paz e civilidade com que conduziu o processo eleitoral.

Somos testemunhas, todas as autoridades estrangeiras aqui presentes, da vitalidade da democracia chilena, que hoje celebramos.

Vitalidade democrática essa que conquistamos, na América do Sul, com muita luta. Hoje, nossa região é uma área de paz e de desenvolvimento e que está provando ser possível crescer e, ao mesmo tempo, incluir as pessoas mais pobres de nossas sociedades.

A integração tem sido um elemento fundamental para o desenvolvimento econômico e social em nossa região, fortalecendo a democracia em cada um dos nossos países. ?

Temos plena certeza de que o Chile, sob sua presidência, renovará seu compromisso com essa integração regional, como você o fez em seu mandato anterior, ao ocupar a Presidência da UNASUL,  em 2008. ?

É este espírito de união que tem permitido a todos os países da nossa Latino-América, viver em um ambiente de paz, desenvolvimento e democracia. O sentimento que desejo expressar neste momento, em nome de todos, é a enorme alegria de podermos vê-la, uma vez mais, presidindo este país irmão.

Essa alegria pode ser traduzida nas palavras do grande Pablo Neruda: “Pense que tenho a alma toda cheia de risos e não te enganarás, irmã, eu te juro.” 

Neste espírito, convido a todos aqui presentes a erguer um brinde à saúde e o sucesso da Presidenta Michelle Bachelet e do povo chileno.

 ?Muito obrigada

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