Soberania nacional

Comandante do Exército nega “fantasma” da intervenção

"Nós estamos num momento em que o capital financeiro quer substituir o Estado, as nações, a democracia e a soberania popular também", contextualizou o senador Lindbergh durante a audiência
:: Fernando Rosa22 de junho de 2017 18:44

Comandante do Exército nega “fantasma” da intervenção

:: Fernando Rosa22 de junho de 2017

O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, participou de audiência pública na Comissão de Relações Exteriores, atendendo solicitação da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) e do senador Roberto Requião (PMDB-PR), para falar sobre sobre soberania e projetos estratégicos do Exército. Na audiência, o general Villas Bôas expôs o conjunto de atividades desenvolvidas e também respondeu perguntas dos senadores e internautas. Os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e Jorge Viana (PT-AC) indagaram sobre o papel das Forças Armadas neste momento de crise e também sobre a venda de terras a estrangeiros e a exploração indiscriminada de minérios.

Preocupação com venda de terras
Em resposta ao líder da Bancada do PT, senador Lindbergh Farias, Villas Bôas afirmou estar preocupado com a venda de terras para estrangeiros. “A venda de terras para o estrangeiro me preocupa sim, na faixa de fronteira”. Ele disse também ter preocupação com a liberação indiscriminada para a exploração de minérios na região amazônica. O general Villas Bôas ainda esclareceu a informação sobre ações conjuntas dos exércitos brasileiro e norte-americano na Amazônia. “Não vai haver tropas americanas, mas sim observadores”, afirmou o comandante do Exército. Segundo ele, a operação “não traz ameaças; nós somos muito vigilantes”.

Lindbergh Farias

Foto: Geraldo Magela

Em resposta a hipótese de “intervenção militar”, Villas Bôas afirmou tratar-se de algo “absolutamente anacrônico”. Segundo ele, os comandantes das três Forças – Exército, Marinha e Aeronáutica – estão alinhados em um “mantra” sustentados por três princípios. “Estabilidade, legalidade e legitimidade, com base na Constituição” para preservar a democracia e garantir que as instituições busquem as soluções necessárias, defendeu ele. “Esse fantasma existe, que os militares, intervenção, enfim; fico até chateado, pois reflete desconhecimento da natureza da nossa essência”, comentou o general. “Ficam gastando energia com coisas que não são pertinentes”.

Saudando a presença do general Villas Bôas, o senador Lindbergh destacou ser “muito pedagógica sua fala aqui em relação à não intervenção militar, porque há muita gente que admira o Exército, como jovens. E eu acho que essa postura e essa fala aqui são muito importantes no momento em que a gente vive hoje”. O senador Jorge Viana também destacou que “estamos vivendo a maior crise econômica, política e institucional, e o general fala com naturalidade sobre a impossibilidade de uma intervenção militar”, disse o senador. “É pedagógica a sua vinda”, concluiu.

Orçamento só até setembro
Entre outros temas, o general Villas Bôas disse ainda estar preocupado com as dificuldades orçamentárias, situação agravada pelo congelamento de investimentos públicos. “Nós temos orçamento até agosto, setembro”, disse ele.  Lindbergh lembrou que “hoje investimos algo de 1,4% do PIB na Defesa. Cairá, em 2026, para 1,09% do PIB; em 2036, para 0,85% do PIB”. Villas Boas também reafirmou a posição contrária ao uso do Exército para ações civis, como ocorreu no Rio de Janeiro. Para ele, concordando com afirmação anterior do senador Lindbergh, essas ações não correspondem ao papel das Forças Armadas, que são preparadas para a defesa nacional.

 

Jorge Viana

Foto: Geraldo Magela

Projeto Nacional de Desenvolvimento
“O Brasil é um superdotado num corpo de adolescente”, reafirmando sua preocupação com a necessidade de o Brasil ter um projeto de nacional. Novamente, ele lembrou da confrontação ideológica na Guerra Fria, que dividiu a sociedade, levou ao abandono de um projeto nacional e evolui hoje para a “perda da identidade e o estiolamento da auto-estima”. “Não temos outra alternativa a não ser sermos uma potência. Não uso esse termo na conotação negativa, relacionada a imperialismo, mas no sentido de que necessitamos de uma densidade muito grande”, definiu.

Citando a experiência dos governos petistas no Acre, Villas Bôas afirmou que “a Amazônia, assim como o País, carece de um projeto, de uma política” que, segundo ele, combine desenvolvimentismo e preservacionismo. Segundo estimativas do Exército, os recursos naturais da Amazônica são avaliados em US$ 23 trilhões, em minérios e biodiversidade. “O que vai salvar a Amazônia é o desenvolvimento”, sintetizou ele. Antes de encerrar a exposição, Villas Bôas disse que “vivemos num mundo de absoluta incerteza, o que reforça a ideia de aumentar nosso poder de dissuasão”, conclui.

Assista a audiência na íntegra:

 

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