Paraíso fiscal

Escândalo com Paulo Guedes e Campos Neto revolta senadores

Denúncia da revista Piauí, baseada do projeto Pandora Papers, tem forte reação da bancada, que defende apuração do caso pelo Senado
:: Flávio Faria4 de outubro de 2021 16:13

Escândalo com Paulo Guedes e Campos Neto revolta senadores

:: Flávio Faria4 de outubro de 2021

A revelação de que as duas principais autoridades econômicas do Brasil – Paulo Guedes (ministro da Economia) e Roberto Campos Neto (presidente do Banco Central) – possuem milhões de dólares depositados em offshores (empresas) sediadas em paraísos fiscais revoltou os senadores do PT, que defendem a investigação do caso pelo Senado.

Segundo reportagem da revista Piauí, baseada no projeto Pandora Papers, Guedes e Campos Neto preferem guardar dinheiro fora do país para fugir da tributação e evitar turbulências políticas, apesar de serem os responsáveis pela política econômica brasileira, com influência direta na taxa de juros e no câmbio, por exemplo. Além do óbvio conflito de interesses, eles podem ser enquadrados no Código de Conduta de autoridades do governo federal.

Pelas redes sociais, o líder do PT no Senado, Paulo Rocha (PA), demonstrou sua indignação com a denúncia e demonstrou a hipocrisia do ministro da Economia. “O que é isso companheirada? Paulo Guedes ficando cada vez mais rico com as empresas de fachada em paraíso fiscal, enquanto reclama que uma empregada doméstica leva a filha à Disney?”, indagou.

O senador destacou as altas cifras envolvidas no escândalo: “A offshore que ele mantém nas Ilhas Virgens Britânicas teve lucros de R$ 14,5 milhões com a valorização do dólar apenas durante o seu mandato à frente da pasta”.

Paulo Rocha se refere à valorização do dólar desde que Guedes assumiu o Ministério. Segundo a Piauí, o câmbio subiu 39% no período, e o ministro possui US$ 9,55 milhões (o equivalente a R$ 51 milhões hoje). Já a offshore de Campos Neto registrava US$ 1,09 milhão de dólares (ou R$ 5,8 milhões de reais).

O líder da Minoria, senador Jean Paul Prates (PT-RN), considera o caso um “conflito de interesses em essência”, já que ambos entraram no governo para ganhar salários muito menores do que os da iniciativa privada, mas podem se beneficiar de outras maneiras.

“Guedes e Campos Neto têm em mãos artifícios legais que interferem no preço do dólar e, consequentemente, em seus lucros. E, com offshores, livram-se de impostos e se protegem da catástrofe que eles mesmos arquitetam para a população e o setor produtivo, que recolhem tributos”, resumiu Jean Paul.

Ele defendeu que Senado investigue o que aconteceu e convoque as duas autoridades para se explicarem. “Temos que evoluir nos controles legais sobre quem se beneficia da ‘porta giratória’ que separa o governo e o mercado. A frouxidão legal permite que dirigentes do mercado se revezem em cargos públicos para gerir e advogar em causa própria em detrimento dos interesses do país”, afirmou.

Assim como Jean Paul, o senador Humberto Costa (PT-PE) lembrou que os dois acusados agem em desacordo com o que determina a lei. “O artigo 5º do Código de Conduta da Alta Administração Federal, instituído em 2000, proíbe funcionários do alto escalão de manter aplicações financeiras, no Brasil ou no exterior, passíveis de ser afetadas por políticas governamentais”, afirmou.

A reportagem da revista Piauí é baseada no projeto Pandora Papers, do Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo, que reúne 600 profissionais de 150 países. Leia aqui a íntegra.1

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