Gabrielli: Matéria da Veja sobre Pasadena está lastreada na desinformação

:: Da redação6 de agosto de 2013 19:22

Gabrielli: Matéria da Veja sobre Pasadena está lastreada na desinformação

:: Da redação6 de agosto de 2013

O que a revista não contou é que a compra de uma refinaria nos Estados Unidos, em 2006, seguia a estratégia do plano de negócios da empresa para o período de 1999 a 2005, feito ainda na gestão tucana

“Não tem embasamento
técnico e jurídico e o que
existe é uma denúncia”

O ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, explicou nesta terça-feira (6), com riqueza de detalhes, durante audiência pública na Comissão de Meio Ambiente, Fiscalização e Controle (CMA) do Senado, como se deu a aquisição da refinaria de Pasadena, no Texas, nos Estados Unidos, em meados de 2006, e que em dezembro de 2012 tornou-se foco das atenções por causa de uma matéria da revista Veja denunciando a operação. A revista considerou o negócio como o mais temerário e malsucedido da história da empresa, numa tentativa de responsabilizar Gabrielli e produzir um mal-estar entre ele e a atual presidenta da empresa, Graça Foster, e até mesmo com a própria presidenta Dilma. “A matéria da revista está lastreada na desinformação. Não tem embasamento técnico e jurídico e o que existe é uma denúncia”, afirmou Gabrielli.

O que a revista não contou, na ocasião e até agora, e que foi dito por Gabrielli hoje, é que o negócio da compra de uma refinaria nos Estados Unidos, em 2006, seguia a estratégia do plano de negócios da empresa para o período de 1999 a 2005, feito ainda na gestão tucana que por várias vezes tentou privatizar a Petrobras. E adquirir uma refinaria pode ter sido um dos poucos acertos da gestão tucana.

Lá em 1999, disse Gabrielli, adquirir uma refinaria fazia sentido pelo momento pelo qual passava o mercado petrolífero mundial e também refletia a realidade brasileira, já que praticamente não havia investimentos em novas refinarias desde 1980 e o próprio mercado interno para derivados (gasolina, óleo diesel e querosene de aviação) estava estagnado, ou seja, não crescia. “Além disso, os Estados Unidos viviam os anos dourados do refino e se preparavam para aumentar as importações de petróleo pesado”, explicou, acrescentando que a Petrobras vislumbrou a perspectiva de aumentar as exportações de petróleo cru para os Estados Unidos ou processá-lo numa refinaria de sua propriedade. “Essa estratégia foi feita em 1999, volto a repetir”.

De 2000 a 2006, por exemplo, as margens de ganho no refino, na costa oeste dos Estados Unidos, passaram de US$ 6,00 por barril para US$ 14,00, e uma refinaria (coking), que transforma petróleo pesado em derivados de alto valor, apresentava uma margem de ganho que era de US$ 4,70 por barril para R$ 14,40 em 2005. A vantagem competitiva de se adquirir uma refinaria nos Estados Unidos estava aí. “O negócio de refino acontece dessa maneira, ganha mais de acordo com a capacidade de comprar petróleo pesado mais barato do que o leve (Brent) e produzir um derivado mais caro. Notem que no mercado americano de 2000 a 2007 o aumento do consumo de petróleo sobe de 19,7 milhões de barris para 20,7 milhões de barris por dia. A estratégia de 1999 se consolida com a compra da refinaria de Pasadena”, contou.

Bom negócio

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A compra da refinaria seguia a estratégia
do plano de negócios da empresa para o
período de 1999 a 2005, feito ainda na
gestão tucana

Segundo Gabrielli, a primeira confusão feita e contida na matéria da revista Veja é sobre a capacidade de refino. A refinaria de Pasadena estava apta a processar petróleo pesado, sendo 50 mil barris/dia, e dispunha de estoques que se transformaram em produtos. O valor de aquisição foi inferior à média das transações de 2006, ou seja, a Petrobras pagou US$ 3.800 por barril. Antes de adquirir, a Pasadena havia sido comprada pela Astra Oil, uma empresa belga, por US$ 42 milhões. Essa empresa fez investimentos de US$ 84 milhões e seu custo de aquisição foi de US$ 126 milhões, antes de vender 50% para a Petrobras por US$ 190 milhões.

Vale notar, de acordo com Gabrielli, que a Connacher Oil &Gas, em março de 2006, por exemplo, adquiriu a Montana Refining da Holly Corporation pagando US$ 6.470,00 por barril; a Encana Corporation comprou 49% da Wood River Refining, da Conoco Philips, com capacidade de refinar 306 mil barris/dia por US$ 1,8 bilhão, ao custo de US$ 13.081,00 por barril. O fundo de investidores do Canadá Harvest Energy comprou a Come by Chance Refinery da Vitol, com capacidade de refinar 115 mil barris/dia por US$ 1,6 bilhão, ao custo de US$ 13.913,00 o barril. “Fizemos a aquisição de dois negócios na verdade. De refinaria e de comercializadora de seus estoques. Outro equivoco é dizer que a Astra pagou 42 milhões de dólares, investiu 84 milhões e vendeu 50% por 190 milhões. O negócio se deu em linha com a realidade do mercado entre 2005 e 2006, conforme do plano de 1999”, enfatizou.

Reversão

A grande mudança de rota da Petrobras aconteceu em 2006, com a descoberta de gigantescas reservas de petróleo na camada do pré-sal. Já com um novo plano de negócios, a decisão foi por construir novas refinarias em solo brasileiro – Abreu e Lima (PE), no Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte e no Rio de Janeiro -, até porque a melhoria da renda das pessoas, o acesso a veículos e maior movimentação do agronegócio e da aviação contribuíram para o mercado de derivados de petróleo (gasolina, óleo diesel, lubrificantes, querosene de aviação) crescer em média 40% a partir de 2007.

“Nas projeções de 2003 não tínhamos a perspectiva de produzir óleo leve, possibilidade que se confirma com a descoberta do pré-sal”, disse Gabrielli.  E nesse período entre compra de Pasadena e a decisão de construir refinarias no Brasil, o comportamento dos preços do petróleo foi instável, chegando a US$ 130 o barril até recurar para menos de US$ 40. E como o negócio do refino é de longo prazo, a sócia belga acabou não concordando em colocar recursos na forma de investimento para requalificar a refinaria, para que possa, também, processar óleo leve que agora o país já produz.

A Astra Oil não tem um perfil característico de uma petrolífera, porque é comercializadora e seu interesse é imediato. Como não quis entrar no investimento, que poderia chegar a US$ 1 bilhão, em 3 de julho de 2008 a Petrobras anunciou um processo arbitral contra a empresa, que também ingressa na justiça americana para vender os 50% restantes do capital. Em março de 2010, a corte de Houston confirma a decisão arbitral que fixa o direito de venda de 100% da operação, porque tinha a refinaria e o estoque da comercializadora.  “A confusão que a imprensa fez misturava capital de giro com ativos. A compra do controle pela Petrobras não teve anormalidade alguma e correspondeu a US$ 4.860,00 por barril”, afirmou.

Gabrielli fez um cálculo genérico sobre Pasadena. Supondo que utilize 70% de sua capacidade de refino, dos 100 mil barris/dia atualmente, e que o ganho seja zero sobre a matéria prima, o preço do petróleo Brent variando de US$ 74 a US$ 111 indica um faturamento de US$ 16,1 bilhões. Portanto, Pasadena não se caracteriza como o negócio malsucedido da história da Petrobras, como tenta dizer a Veja.

Intervenções

Seguindo a reportagem da Veja, o autor do convite a Gabrielli, senador Ivo Cassol (PP-RO), insistiu em dizer que não compreendia o negócio. “O senhor como ex-presidente da Petrobras, para fazer essas compra (sic), precisa de recurso, como o dinheiro foi mandado para o exterior. Como é feita a prestação de contas. A Astra comprou por US$ 42 milhões, e a Petrobras pagou US$ 832 milhões, questionou”.

Tranquilo, o ex-presidente da Petrobras lembrou que Rogério Manso, executivo que veio da gestão anterior e ajudou a montar o plano de negócios que recomendou a compra de Pasadena, em 1999, continua na empresa. Quanto às operações cambiais da Petrobras, todas são acompanhadas pelo Banco Central. Em relação ao valor, disse que o casamento em petroleiras e refinadores foi generalizada entre 2000 e 2005. “Qual foi o investimento da Astra? Comprou em janeiro de 2005 por US$ 42 milhões, investiu US$ 84 milhões e custou US$ 126 milhões. No ano seguinte, a margem (ganho sobre o refino) explodiu. Não realizamos investimentos na conversão (refinaria de óleo pesado para óleo leve) porque a sócia não concordou. Os 6,9% de rentabilidade seriam pagos à Astra se os investimentos fossem efetuados, mas eles não ocorreram”, explicou.

O senador Ivo Cassol, não satisfeito, disse que a Petrobras passa por um descrédito mundial, mas a senadora Vanessa Graziottin (PCdoB-AM) discordou, lembrando que se a companhia não tivesse confiança jamais conseguiria fazer a maior captação de recursos (US$ 11 bilhões) de uma empresa no mercado internacional como aconteceu neste ano e em menos de quinze minutos.

O senador Aníbal Diniz (PT-AC) afirmou que a exposição de Gabrielli tinha o mesmo efeito de tirar uma cruz de chumbo das costas, porque, didático, fez uma explicação convincente sobre a aquisição da refinaria de Pasadena. Diniz criticou Ivo Cassol que durante toda a audiência não se esforçou para entender como funciona o mercado de refino de petróleo. “Este segmento de refino teria sido entendido pelo senador porque é de risco, como é o mercado de boi, comprou por dez reais a arroba e vendeu por 15. A Petrobras pegou a refinaria que passou a valer muito mais”, disse.

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“O que tínhamos no Senado era desinformação
e afirmo que a desinformação está presente na
sociedade. Hoje tivemos informação
sem soberba e com transparência”

Ivo Cassol tentou consertar sua crítica de que a Petrobras perdeu a credibilidade: “não tô  (sic) falando da crise da empresa e nem desprezei, não diminui a Petrobras, me refiro ao preço que pagamos no litro da gasolina, mais caro do mundo”, argumentou. Gabrielli, outra vez, deu uma resposta didática: “o senhor já foi governador e sabem que o ICMS é um elemento muito importante no preço da gasolina. Na refinaria o litro custa R$ 1,10 e na bomba dos postos está a R$ 2,80. Só que têm estados que cobram 32% de ICMS sobre os preços da gasolina em termos de tarifa efetiva”, afirmou.

Antes do término da reunião, o senador Jorge Viana (PT-AC) elogiou Gabrielli. “O que tínhamos no Senado era desinformação e afirmo que a desinformação está presente na sociedade. Hoje tivemos informação sem soberba e com transparência. Tínhamos três eixos, como comprou, porque comprou e que resultado deu. Faço um apelo para que a imprensa tenha acesso e possa dar uso as informações que são de direito público. O que tivemos até aqui era desinformação”, enfatizou.

Viana lembrou que o ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan, presidia o conselho de administração da Petrobras quando o plano de negócios recomendou a compra de Pasadena, mas nem por isso pode afirmar que houve má-fé. “A gente tem dificuldade de ter acesso a algumas informações para fazer a defesa, mas o cumprimento pelo trabalho que fez na Petrobras”, disse Viana. Os senadores Eduardo Suplicy (PT-SP), Ana Rita (PT-ES) e Humberto Costa (PT-PE) manifestaram satisfação com as explicações dadas por Gabrielli.

Marcello Antunes

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