Imprensa amordaçada

Censura volta a rondar imprensa após ameaças de Bolsonaro

Ações do militar envolvem ameaça de cortes de verba publicitária, ataque a jornalistas e impedimento de livre acesso da imprensa em coletivas
:: Carlos Mota6 de novembro de 2018 09:53

Censura volta a rondar imprensa após ameaças de Bolsonaro

:: Carlos Mota6 de novembro de 2018

Em 2014, Jair Bolsonaro chamou de “idiota” a jornalista Manuela Borges, até então funcionária da RedeTV!, após receber uma pergunta sobre ditadura militar. Mal sabia a imprensa que, anos depois, atitudes como essa gerariam medo generalizado entre os profissionais da área.

De acordo com reportagem da Reuters, no domingo (4), muitos repórteres estão em alerta com a perspectiva de um presidente reprimir as coberturas jornalísticas negativas.

“Vários jornalistas experientes que trabalham para as maiores organizações de notícias do Brasil disseram à Reuters nas últimas semanas que começaram a reprimir suas críticas, temendo a reação de um governo de Bolsonaro – e a violência de seus partidários”, diz um trecho da matéria.

O texto diz ainda que a maioria dos ataques contra jornalistas foi feita por partidários de Bolsonaro. O levantamento foi feito pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que registrou mais de 150 casos de repórteres de campanha ameaçados – metade envolvia violência física.

Ameaças à Folha

Um dos veículos de comunicação mais afetados é a Folha de S.Paulo. O jornal tem sido alvo de Bolsonaro e apoiadores, principalmente, após publicar informações sobre a ação ilegal de empresas privadas que financiaram o disparo massivo de mensagens contra o PT via WhatsApp. A disseminação das informações falsas favoreceu o candidato do PSL.

A matéria gerou reações agressivas direcionadas à jornalista que assina o texto, Patrícia Campos Mello e o diretor do Datafolha, Mauro Paulino. A Folha chegou a pedir à Polícia Federal a instauração de inquérito para apurar as ameaças.

O próprio militar chegou a afirmar que a Folha, após a publicação da reportagem, não receberá mais verbas publicitárias do governo federal. A fala soou como ameaça aos veículos de imprensa que divulgarem matérias contra Bolsonaro.

Outra ação contra a empresa foi barrá-la, junto com outros veículos, da primeira entrevista coletiva que Bolsonaro concedeu após o dia 28 de outubro. Nas redes sociais, o líder da Oposição no Senado, Humberto Costa (PT-PE), criticou o ato. “Como é que a gente chama quando a imprensa é censurada? #Ditadura”.

Repúdio à perseguição

Na semana passada, a Associação de Correspondentes Estrangeiros (ACE) publicou um manifesto condenando a hostilidade contra jornalistas e exige que Jair Bolsonaro se manifeste e não incite a perseguição.

“Vários colegas estrangeiros foram hostilizados, vítimas inclusive de xenofobia, por parte de manifestantes, enquanto tentavam fazer entrevistas, pelo fato de usar câmeras, gravadores ou blocos de notas que os identificavam como jornalistas”, diz o Manifesto dos Correspondentes Estrangeiros em Defesa da Liberdade de Imprensa.

A presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, também criticou o militar. “Ele tem perfil autoritário, que não aceita qualquer questionamento, ignorando o papel dos jornalistas, que é exatamente o de buscar e divulgar informações de interesse público. Bolsonaro, mais uma vez, ameaça quem lhe desagrada. A Fenaj repudia a declaração do presidente eleito e solidariza-se com os jornalistas que trabalham na Folha”.

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