La cucaracha ya puede caminar – Por Marcelo Zero

A criação da CELAC – Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos – é um claro sinal dos tempos?

:: Da redação8 de dezembro de 2011 19:53

La cucaracha ya puede caminar – Por Marcelo Zero

:: Da redação8 de dezembro de 2011

La cucaracha, la cucaracha, ya no puede caminar. Porque no tiene, porque le falta, la patita principal”.

Canção folclórica mexicana

Em 1992, o México assinou, com grande expectativa positiva, o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA-TLCAN), o qual, a partir de sua entrada em vigor, abriu incondicionalmente a economia mexicana à predatória concorrência dos produtos made in USA e tornou aquele país extremamente dependente, política e economicamente, da grande superpotência mundial.

Entretanto, 18 anos após essa decisão estratégica de privilegiar, em sua inserção internacional, a relação bilateral com os EUA, o México aderiu com grande entusiasmo à recém-criada Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC), que concretiza, mediante um processo de integração regional Sul-Sul, contraponto geopolítico às relações de subalternidade com os EUA.

O que aconteceu neste interregno?

O que se passou foi que, além dos fracassos das políticas neoliberais, a aposta estratégica do México e de outros países latino-americanos na relação privilegiada com os EUA, como forma de aceder à “modernidade” e ao desenvolvimento, revelou-se um completo desastre.

Com efeito, após um período inicial de euforia com os novos investimentos norte-americanos, principalmente com a criação de empresas “maquiladoras” na fronteira com os EUA, os inevitáveis efeitos negativos dessa integração tão assimétrica se tornaram cada vez mais evidentes.

No campo industrial, houve grande esfacelamento da estrutura produtiva nacional. Muitas empresas mexicanas não conseguiram sobreviver à concorrência da produção industrial dos EUA. E as que conseguiram foram, em boa parte, compradas a baixos preços por grupos econômicos norte-americanos. Isso aconteceu de modo especialmente intenso na outrora pujante indústria têxtil mexicana, que passou a orbitar a cadeia produtiva dos EUA.

Na área agrícola, houve a geração de grande insegurança alimentar. O México, que era exportador de grãos, no período pré-Nafta, passou a importá-los dos EUA em sua quase de totalidade. Tal processo de destruição das culturas agrícolas se deu inclusive no que tange ao milho, base da alimentação e culinária mexicanas. Hoje em dia, o milho utilizado no México é quase todo colhido nos EUA, que subsidia fortemente a sua produção.

Ademais, houve fragilização da proteção jurídica ao meio ambiente e precarização das relações trabalhistas, em virtude da proteção dos interesses dos investidores norte-americanos, assegurada no capítulo sobre investimentos do Nafta.

A consequência mais relevante foi, contudo, o aumento das desigualdades regionais e sociais no México. Houve poucos “ganhadores” mexicanos com a integração aos EUA, concentrados principalmente no norte do país. As demais regiões e a grande massa dos trabalhadores urbanos e rurais mexicanos não se beneficiaram. Na realidade, ocorreu significativo incremento das assimetrias regionais e sociais, impulsionado pelos efeitos econômicos desagregadores e destruidores da integração aos EUA. Estudo feito pelo Banco Mundial, em 2007, mostrou cabalmente que os efeitos da inserção internacional do México, ao longo do Nafta, foram substancialmente regressivos, ao passo que, no Brasil, a estratégia de inserção econômica no cenário mundial produziu resultados altamente progressivos. 

De fato, o Brasil adotou uma estratégia de inserção inversa à do México e a de outros países da região. A partir do governo Lula, o nosso país rejeitou claramente a proposta da ALCA ampla norte-americana, que continha cláusulas idênticas às do Nafta, e apostou na integração regional, via Mercosul e Unasul, na grande diversificação de suas parcerias estratégicas, especialmente com os demais BRICs, e na articulação geopolítica Sul-Sul, sem descuidar, porém, de suas boas relações com os países mais desenvolvidos.

O grande aumento das nossas exportações e os alentados superávits comerciais que tal estratégia proporcionou foram decisivos para reduzir substancialmente a nossa vulnerabilidade externa, zerar a dívida externa brasileira e criar um quadro econômico propício à redução das taxas de juros e à retomada do crescimento. Além disso, tal estratégia aumentou significativamente nosso protagonismo internacional e nossa autonomia político-diplomática.

Assim, ao contrário do México e de outros países da região, o Brasil é hoje ator mundial de primeira linha, que consegue articular exitosamente os interesses regionais e os anseios dos países em desenvolvimento em todos os foros internacionais relevantes. O nosso país fez a escolha estratégica acertada e soube aproveitar pragmaticamente as mudanças na ordem geoeconômica mundial, que deslocaram o centro dinâmico da economia internacional para os países emergentes. Já os países que apostaram na integração assimétrica aos EUA e às demais grandes economias internacionais não colheram os frutos apregoados pelo ideário neoliberal e o realismo periférico e, agora, estão fortemente ameaçados pela crise mundial, que vem afetando mais intensamente as economias da Tríade (EUA, União Europeia e Japão).

A adesão entusiasta à CELAC do México e de outros países, como a Colômbia, que privilegiaram suas relações bilaterais com os EUA, representa, assim, um reconhecimento, ainda que tardio, do fracasso da globalização assimétrica e da necessidade de corrigir rumos, especialmente no contexto da presente crise mundial, que tende a acelerar as mudanças geoeconômicas e geopolíticas na ordem internacional.

É um sinal dos tempos e dos ventos, que sopram a favor da integração regional, da articulação dos interesses dos países emergentes, do multilateralismo diplomático e da correção das assimetrias no cenário mundial.

É um sinal também de que a América Latina está atingindo a sua maturidade política e pretende definir seu destino endogenamente, sem as históricas interferências da grande superpotência mundial. Nesse quadro, a avassaladora emergência regional e internacional do Brasil é um sinal inequívoco e contundente da correção da nova política externa brasileira, tão criticada pelas viúvas da finada ALCA e pelos equivocados opositores daquilo a que José Serra se referia pejorativamente como a “integração cucaracha”.

Pois bem, a “integração cucaracha” agora tem patas fortes e, ao contrário de outras, caminha decididamente para frente.

Marecelo Zero é assessor técnico da Liderança do PT no Senado

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