RELIGIÃO

Lançado primeiro volume de estudo sobre os evangélicos no Brasil

Levantamento reúne dados do Censo e análises acadêmicas para compreender a expansão e a influência das igrejas evangélicas no país

Ilustração: Rafael Nascimento

Lançado primeiro volume de estudo sobre os evangélicos no Brasil

Capa do estudo da assessoria técnica da Liderança do PT no Senado

Um raio X dos evangélicos no Brasil está sendo traçado em estudo elaborado pela assessora técnica da Liderança do PT no Senado, Márcia Anita Sprandel, doutora em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB). A pesquisa busca entender a atuação política, a influência social e o poder econômico exercido pelos líderes religiosos, além de oferecer caminhos para um diálogo respeitoso de aproximação com as pautas do partido.

Idealizado em três volumes, o estudo traz no primeiro deles – Evangélicos no Brasil: de quem estamos falando – os números sobre religião do Censo de 2022 e análises sobre o crescimento da presença evangélica. Também são detalhadas as diferentes denominações religiosas que, nos anos 1980, eram conhecidas como “crentes” e que hoje se consolidam sob a designação de evangélicos.

O material aborda ainda a influência do protestantismo estadunidense no Brasil, a história da chegada dessa vertente cristã ao país e os principais trabalhos acadêmicos sobre o tema. Para Sprandel, que não tem vivência pessoal no campo religioso, a pesquisa traz um olhar inédito e necessário para compreender a diversidade e as concepções do universo evangélico.

O que você destacaria nesse volume inicial do estudo como foco de atenção para quem está apegado a preconceitos ou estereótipos relacionados aos evangélicos?

O levantamento dos achados das universidades brasileiras. São pesquisadores que desde os anos 1980 colocaram foco nesse grupo social: os evangélicos, especialmente os pentecostais e os neopentecostais. Então os achados são incríveis, de que a conversão a uma igreja vai significar pra uma família pobre melhoria na sua condição de vida, acesso a uma rede de apoio. Era algo que eu não sabia e que me chamou muita atenção e que, junto com os dados do Censo e com a linha do tempo que a gente fez do protestantismo no Brasil, é super informativo. Essas percepções das universidades servem para que a gente entenda o porquê das coisas do ponto de vista do crente. O objetivo desse trabalho foi esse: informar a bancada e as assessorias técnicas do que a gente tá falando quando se fala de evangélicos, que é um guarda-chuva que cabe muita gente.

Quais temas seu estudo aponta em comum na realidade dos evangélicos e nas aspirações do PT?

Se você estuda a história do protestantismo, você vai ver que é uma história de luta por justiça, por proximidade. Tem uma expressão muito bonita que diz “o evangélico é quem busca se reenamorar de Deus”, ou seja, ter uma relação mais direta, sem a estrutura da Igreja. O nosso partido, que tem uma origem nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica, partilha muito esse sentimento. E se você pensar: quem é o principal público evangélico pentecostal e neopentecostal hoje? É a população mais pobre do país, é a mulher negra que toma conta sozinha da sua casa, que mora numa periferia. São pessoas que tradicionalmente estiveram junto do partido e que são beneficiadas por nossas políticas públicas. Tem a ver também com as grandes migrações dos nordestinos, que chegam nas periferias do Rio e de São Paulo e não têm mais a rede familiar nem a vizinhança conhecida, mas existem as igrejas evangélicas que ajudam quem está chegando. Então há coisas muito próximas, que nós podemos conversar.

Você considera que a estagnação no crescimento dos evangélicos constatada no último Censo deve se manter já que o levantamento também trouxe aumento no número dos adeptos de religiões de matriz africana e dos sem religião?

Os pesquisadores apontam que sim, pois o crescimento dos evangélicos no Sudeste e a expansão por todo país se mostraram fatos relacionados à novidade das igrejas que estavam surgindo. Além disso, aumentou o número dos sem religião e dos desigrejados, que os especialistas consideram como o grande fenômeno a ser observado. O último Censo teve uma pergunta aberta: qual é a sua religião? Isso permitiu que muitas pessoas respondessem: eu sou evangélico, cristão, mas não estou ligado a nenhuma denominação, só frequento uma igreja ou outra se eu quiser. Isso é muito forte e já começa a incidir na disputa eleitoral, que foi o caso do Marçal, em São Paulo. O próprio Silas Malafaia começou a bater, questionando o surgimento de um evangélico fora de todas as igrejas. Há também com os evangélicos o que acontece com outras religiões: a mudança geracional. O pai é crente, o filho talvez não muito e o neto já não é. E com isso a religiosidade brasileira se aproximaria de como a religião tem sido vivida no mundo ocidental, que é como um quebra-cabeça: eu faço meu mapa astral, eu vou à missa às vezes, mas faço uma novena, me benzo antes de entrar em certos lugares. São exemplos de um quebra-cabeça religioso que tem se tornado uma constante no mundo. Quando a Igreja deixa de mandar no mundo, de ser a dona da economia e da política, com o Estado se tornando secular, havia uma primeira impressão de que a religião morreria. Não, ela se transforma, sai do domínio público e vem para o domínio privado. Isso parece estar acontecendo aqui no Brasil também. Sem esquecer ainda o crescimento das religiões de matriz africana, que avalio estar muito ligado às campanhas do movimento negro para que os cidadãos declarassem sua religião sem medo. A pergunta aberta do Censo também ajudou nisso, pois em levantamentos anteriores a tendência das pessoas que professam religiões de matriz africana era se declarar espírita diante da lista apresentada.

Evangélicos no Brasil: de quem estamos falando foi publicado no site da Fundação Perseu Abramo e pode ser acessado pelo link: https://teoriaedebate.org.br/2025/08/15/evangelicos-no-brasil-de-quem-estamos-falando/

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