ARTIGO

Lula no NYT: “Não seremos subservientes a empreendimentos hegemônicos”

Em artigo publicado no jornal The New York Times, Lula afirma que "o futuro da Venezuela, assim como o de qualquer outro país, deve permanecer nas mãos de seu povo"

Ricardo Stuckert/PR

Lula no NYT: “Não seremos subservientes a empreendimentos hegemônicos”

Para o presidente Lula, ataque à Venezuela é mais um capítulo lamentável na erosão contínua do direito internacional

Os bombardeios dos Estados Unidos em território venezuelano e a captura de seu presidente em 3 de janeiro são mais um capítulo lamentável na erosão contínua do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.

Ano após ano, as grandes potências intensificaram ataques à autoridade das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança. Quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser exceção e passa a ser regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas. Se as normas são seguidas apenas de forma seletiva, instala-se a anomia, enfraquecendo não apenas os Estados individualmente, mas o sistema internacional como um todo. Sem regras coletivamente acordadas, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas.

Chefes de Estado ou de governo — de qualquer país — podem ser responsabilizados por ações que atentem contra a democracia e os direitos fundamentais. Nenhum líder detém monopólio sobre o sofrimento de seu povo. Mas não é legítimo que outro Estado arrogue para si o direito de fazer justiça. Ações unilaterais ameaçam a estabilidade em todo o mundo, desorganizam o comércio e os investimentos, aumentam os fluxos de refugiados e enfraquecem ainda mais a capacidade dos Estados de enfrentar o crime organizado e outros desafios transnacionais.

É particularmente preocupante que tais práticas estejam sendo aplicadas à América Latina e ao Caribe. Elas trazem violência e instabilidade a uma parte do mundo que busca a paz por meio da igualdade soberana entre as nações, da rejeição ao uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos. Em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos, embora forças americanas já tenham intervindo anteriormente na região.

A América Latina e o Caribe abrigam mais de 660 milhões de pessoas. Temos nossos próprios interesses e sonhos a defender. Em um mundo multipolar, nenhum país deveria ter suas relações exteriores questionadas por buscar a universalidade. Não seremos subservientes a empreendimentos hegemônicos. Construir uma região próspera, pacífica e plural é a única doutrina que nos serve.

Nossos países devem se empenhar em uma agenda regional positiva, capaz de superar diferenças ideológicas em favor de resultados pragmáticos. Queremos atrair investimentos em infraestrutura física e digital, promover empregos de qualidade, gerar renda e expandir o comércio dentro da região e com países de fora dela. A cooperação é fundamental para mobilizar os recursos de que tanto precisamos para combater a fome, a pobreza, o tráfico de drogas e a mudança do clima.

A história mostrou que o uso da força jamais nos aproximará desses objetivos. A divisão do mundo em zonas de influência e as incursões neocoloniais em busca de recursos estratégicos são práticas ultrapassadas e nocivas.

É crucial que os líderes das grandes potências compreendam que um mundo de hostilidade permanente não é viável. Por mais fortes que sejam, essas potências não podem se apoiar apenas no medo e na coerção.

O futuro da Venezuela, assim como o de qualquer outro país, deve permanecer nas mãos de seu povo. Somente um processo político inclusivo, conduzido pelos venezuelanos, levará a um futuro democrático e sustentável. Essa é uma condição essencial para que os milhões de cidadãos venezuelanos — muitos dos quais estão temporariamente acolhidos no Brasil — possam retornar com segurança ao seu país. O Brasil continuará trabalhando com o governo e o povo venezuelanos para proteger os mais de 2.100 quilômetros de fronteira que compartilhamos e para aprofundar nossa cooperação.

É nesse espírito que meu governo tem se engajado em um diálogo construtivo com os Estados Unidos. Somos as duas democracias mais populosas do continente americano. No Brasil, estamos convencidos de que unir esforços em torno de planos concretos de investimento, comércio e combate ao crime organizado é o caminho a seguir. Somente juntos poderemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.

Artigo originalmente publicado no jornal The New York Times no dia 18 de janeiro de 2026

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