Lula recomenda reação: PT e governo têm que partir para cima

Em entrevista a blogueiros, em São Paulo, ex-presidente defende fala firme para resposta a ataques da oposição

:: Da redação9 de abril de 2014 11:55

Lula recomenda reação: PT e governo têm que partir para cima

:: Da redação9 de abril de 2014

Ex-presidente recomenda que o governo e o PT façam
política agressiva de comunicação
(Ricardo Stucket/Instituto Lula)

Levantar a cabeça e reagir aos ataques. A recomendação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos militantes e dirigentes petistas dá o tom da entrevista de quatro horas a um grupo de blogueiros, no Instituto Lula, em São Paulo. Lula repetiu várias vezes que o governo e o partido precisam falar com firmeza e responder a ataques, especialmente com relação às denúncias que envolvem a Petrobras e às denúncias que envolvem deputado licenciado André Vargas.

“Acho que o PT tem que ir para cima, aproveitando a lição aprendida com a CPI do mensalão. Na época, se não tivéssemos esperado, talvez a história fosse outra”, disse. Lula afirmou que até hoje não consegue entender como uma investigação que começou por causa de R$ 3 mil numa empresa pública (Correios) presidida pelo PMDB, com um funcionário vinculado ao PTB sendo investigado, terminou no PT.

Não houve, por parte do PT, avaliou o ex-presidente, a sabedoria de fazer o enfrentamento político por causa das divergências internas. “O PT sabe que essa marca vai ser carregada por muito tempo nas nossas costas”, acrescentou.

O governo, no entender de Lula, tem de ir para a ofensiva e debater esse assunto com muita força. “A gente não pode ficar permitindo que, por omissão nossa, as mentiras continuem prevalecendo. Temos de defender com unhas e dentes aquilo que achamos que é verdadeiro, os fatos concretos”, declarou.

Sobre a Petrobras, o ex-presidente disse que não há o que esconder e muito menos do que se envergonhar. “Essa mesma investigação sobre Pasadena já foi feita, o Tribunal de Contas está lá na Petrobras, investigando. O que não pode acontecer é, a cada eleição, voltarmos a esse assunto por meio de uma CPI”, disse.

Lula considera que o momento é de o PT mostrar que aprendeu com o passado. O ex-presidente deu essa opinião ao comparar o atual momento ao da maior crise de seu governo, quando o Congresso apurou as denúncias que resultaram naquilo que seria o mensalão.

Para Lula, a oposição trabalha para enfraquecer a Petrobras de olho nas eleições de outubro. “A elite nunca foi condescendente com a esquerda, e a esquerda sempre foi condescendente com a elite. Sempre que ela pode, ela foi pra cima. É assim no mundo inteiro. Precisamos aprender a fazer disputa política. Às vezes, somos ingênuos,” reconheceu.

Sem reservas, de bom humor e à vontade, Lula falou tranquilamente, numa sala do Instituto Lula, aos blogueiros Rodrigo Viana, Eduardo Guimarães, Altamiro Borges, Renato Rovai, Miguel Rosário, entre outros. E não fugiu de temas polêmicos. Veja abaixo:

André Vargas

O ex-presidente disse esperar que o deputado licenciado André Vargas dê explicações convincentes para que o PT não saia desgastado no episódio da carona no avião do doleiro Alberto Yousseff. “Espero que ele consiga convencer e provar que não tem nada além de uma viagem de avião, porque no final quem paga o pato é o PT”, disse. E prosseguiu: “Acho que ele (Vargas) tem que explicar. Não tem sentido. Ele é vice-presidente de uma instituição importante”.

Ex-aliados

Lula também lamentou o fato de o PSB de Eduardo Campos ter abandonado a base de sustentação do governo. “A Marina eu compreendo, porque ela e a Dilma foram minhas ministras e eu acompanhava a divergência das duas, mas o Eduardo eu não entendo”, avaliou.

Economia

Lula lembrou que o avanço social e econômico alcançado pelo Brasil nos últimos 11 anos indica a correção das políticas públicas. Mas é absolutamente compreensível que a população exija mais, porque a qualidade de vida mudou de patamar.

A quem ataca a atual condução da política econômica, Lula pergunta quantas economias estão crescendo no mundo mais que o Brasil. Sobre o crescimento anual de 2,9% ao ano da economia em 2013, Lula comentou: “OK, está aquém do que eu, a Dilma e vocês (blogueiros) gostaríamos, mas temos que olhar o resto do mundo”, recomendou. E enfatizou: “O que fizemos em onze anos, várias revoluções não conseguiram fazer em 20”.

Educação

Criação de escolas técnicas, investimento em educação infantil e acesso garantido dos mais carentes às universidades. Esses foram alguns dos projetos bem-sucedidos na área de educação. Para Lula, ainda há problemas, gerados por anos de abandono e “Dilma vai ter que dizer claramente na campanha o que fará sobre isso”, destacou.

Saúde

Para Lula, o Sistema Único de Saúde (SUS) é motivo de orgulho. “Nenhum país tem um sistema como o nosso”, disse ao reconhecer que há dificuldades, especialmente para resolver o problema de subfinanciamento. “Não é possível garantir saúde de qualidade se não houver dinheiro”, disse.

O ex-presidente defende a criação de uma tarifa, nos moldes da antiga Contribuição sobre Movimentações Financeiras (CPMF), para assegurar uma fonte de financiamento para o setor. E lembrou que nem todos os governadores brasileiros conseguem cumprir as determinações da Emenda Constitucional nº 29, que exige a destinação de parte da receita da União, dos estados e dos municípios para o setor. “A saúde custa caro, bons médicos custam caro e o povo tem que ter acesso a isso”, disse.

Iniciativas como o Programa Mais Médicos, que tem garantido o acesso da população a atendimento básico, foram firmemente defendidas pelo ex-presidente. ”Mas isso também é problema, porque gera demanda por especialistas e serviços de ponta”, disse. Para Lula, a saúde será um dos mais importantes temas da campanha. “E os três candidatos sabem disso”, enfatizou.

Comunicação

Lula da Silva defendeu que o governo faça uma política agressiva de comunicação. Segundo disse, a presidente Dilma e sua equipe têm que “disputar espaço” nos meios de comunicação para divulgar ações da administração.

O ex-presidente criticou a imprensa tradicional e afirmou que é preciso ter neutralidade. “Se eu não falar quem vai falar? Meus opositores? Dilma tem que falar, os ministros têm que falar. Temos que disputar espaço. A tentativa de vender coisas negativas é fantástica”, disse Lula. “Meu governo deu certo porque tinha obstinação de provar para elite que sei mais do que eles. Eu tenho um lado e sei de que lado eu estou”, afirmou.

Reforma política

“Sou favorável a uma Constituinte exclusiva para fazer a reforma política”, declarou .Para o ex-presidente, mexer em pontos como o financiamento público de campanha, o fim das coligações em eleições proporcionais e a cláusula de barreira são essenciais. “É a principal forma de moralizar a política”, enfatizou.

Giselle Chassot

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