Marcelo Zero sobre massacres: gente boa também mata

Marcelo Zero sobre massacres: gente boa também mata

Assessor da liderança do PT explica que secretário boquirroto do governo Temer só perdeu o emprego porque falou em público

Bruno Júlio só perdeu o cargo de Secretário da Juventude do governo Temer porque disse, em público, o que todo governo elitista e liberal defende em silêncio: mais chacinas e menos diretos para brasileiros da “Senzala”.  Não necessariamente chacinas no sentido literal, mas massacres de direitos, benefícios, conquistas. Para Marcelo Zero, sociólogo e assessor da liderança do PT no Senado, a elite brasileira – que o governo golpista representa –  direitos humanos são um privilégio para  os “homens de bem”. Aos mais pobres, restam o castigo e a punição.
Em artigo publicado pelo Portal 247, Zero diz que quando derrubaram o governo legitimamente eleito de Dilma Rousseff, os golpistas optaram por massacraram os direitos sociais, previdenciários e trabalhistas. “O golpe liberou e legitimou o fascismo que estava latente em nossa sociedade excludente e desigual. Nossas torturantes tradições foram retomadas plenamente. Transformamos-nos no país do ódio.”, lamenta.
Ele recorda vários momentos em que outros países optaram por esse tipo de política excludente e seus resultados trágicos. Em contraponto, lembra como o Bolsa Família dos governos petistas reduziu a mortalidade entre crianças, por exemplo. Lembra que, sendo o Brasil um país onde o estado de bem-estar era muito novo, as consequências do massacre que decorrerá dos vinte anos de investimentos públicos congelados serão imprevisíveis.
E conclui: “É possível que Temer e os demais “homens de bem” do governo golpista não tenham consciência disso. Pode ser que estejam bem-intencionados. Porém, como a própria propaganda do governo reconhece, “gente boa também mata”
Leia a íntegra do artigo:
 
Chacina como política
O Secretário da Juventude do Golpe, que defendeu mais chacinas, foi demitido porque falou em público o que os golpistas e seus apoiadores pensam em privado.
Afinal, este é um governo que, além de ter suprimido a democracia e a soberania popular, instituiu um Estado de Exceção dedicado à repressão feroz aos movimentos populares e estudantis que se opõem ao golpe. Conduzido pelo Ministro da Justiça, o mesmo que negou auxílio ao governo de Roraima, esse Estado de Exceção já propôs até mesmo a tortura como método para desalojar os estudantes que ocupavam as escolas.
Nesse contexto, os direitos humanos só existem realmente para os “homens de bem”, a minoria branca, afluente e bem-nascida da Casa Grande. Os habitantes da nossa “Bélgica”, que bateram panelas e foram às ruas com o apoio das polícias e da mídia.
Para os demais, afrodescendentes, índios, pobres em geral e pessoas que se opõem ao golpe, resta o braço duro da repressão, as bombas, os cassetetes, a tropa de choque e a cavalaria. Na Senzala, a nossa “Índia”, a questão social voltou a ser caso de polícia. Afinal, para a Casa Grande, não há “santos” na Senzala. Todos são culpados de alguma coisa. Quando menos, de serem pobres.
O golpe liberou e legitimou o fascismo que estava latente em nossa sociedade excludente e desigual. Nossas torturantes tradições foram retomadas plenamente. Transformamos-nos no país do ódio.
Nesse contexto, desejar morte de presos e clamar por mais chacinas é natural. Apenas deve-se ter o cuidado de não dizê-lo de forma aberta, pois quem não tem votos deve se apoiar na aparência de legalidade e civilidade. Como no caso do impeachment sem crime.
Mas a verdade é que o golpe e seus apoiadores desejam chacinas. Mais do que isso, o golpe veio para promover chacinas. Talvez não as chacinas literais de presos, mas as chacinas sutis e impessoais das políticas que matam.
O golpe, ao massacrar os direitos sociais, previdenciários e trabalhistas, promoverá a morte entre os mais pobres. O degola dos direitos implicará a degola de pessoas.
Não é exagero; não é especulação. É o que dizem pesquisas sérias feitas em países desenvolvidos.
Em 2013, foi lançado o livro The Body Economic: Why Austerity Kills. Escrita por David Stuckler, especialista em saúde pública com doutorado em Cambridge, e Sanjay Basu, médico com mestrado e doutorado em Yale, a obra mostra os efeitos desastrosos que as políticas neoliberais e de austeridade causam na saúde pública, aumentando sobremaneira as mortes na população mais vulnerável.
Nos EUA, a crise e o desemprego, combinados com a ausência de políticas compensatórias adequadas, fizeram com que mais de 5 milhões de pessoas perdessem seus seguros de saúde. Calcula-se que, hoje, cerca de 50.000 americanos morram precocemente a cada ano por causa da ausência de assistência médica.
Além disso, Stuckler e Basu demonstram que as políticas de austeridade aumentaram em 10.000 ao ano o número de suicídios nos EUA e na Europa. Os casos de depressão aumentaram em mais de 1 milhão ao ano. Na Grécia, as infecções por HIV subiram 200%, devidos aos cortes nas políticas de prevenção, e o número de suicídios aumentou em 60%.
Em alguns países, como a Rússia, essas políticas de austeridade e neoliberais tiveram efeitos muito mais desastrosos. Com efeito, nesse país, o colapso do comunismo e a implementação de um capitalismo selvagem provocou, além da ruína econômica, o que ficou conhecido como uma “crise de mortalidade pós-comunista”, de vastas proporções.
A expectativa de vida dos homens russos caiu de 64 anos, em 1991, para apenas 57, em 1994. Foi maior redução de expectativa de vida registrada em tempos de paz em todo o mundo. O mais desconcertante, contudo, foi que esse aumento de mortes se deu, em 90%, entre homens jovens, entre 20 e 39 anos. A causa? O aumento exponencial do desemprego, que passou de praticamente zero para 25%, fez subir, de forma proporcional, o alcoolismo mórbido, os suicídios, os homicídios e as mortes precoces por problemas cardíacos.
Stuckler afirma que as políticas de austeridade podem ser medidas pelo número de mortes que causam. No caso da Rússia, a “Terapia de Choque Econômico” proposta pelos economistas neoliberais, que desestruturou e privatizou vastos setores da economia soviética, provocou o “desaparecimento” precoce de 10 milhões de homes russos, segundo Stuckler e Basu. Uma grande chacina. Um genocídio.
Em contraste, Stuckler e Basu argumentam, com base em extensas estatísticas oficiais, que os programas de estímulo econômico salvam vidas. O exemplo mais importante e elucidativo se refere ao New Deal, que os EUA adotaram na Grande Depressão da década de 1930.
Para cada US$ 100 per capita investidos naqueles programas de estímulo econômico, a mortalidade infantil se reduziu em 18 por mil e o número de mortes por pneumonia se reduziu, em números absolutos, em 18 para cada grupos de 100 mil habitantes. Assim, para cada grupo de 1mil crianças nascidas, o New Deal salvou 18 da morte, e, para cada grupo de 100 mil habitantes, o New Deal salvou 18 da morte por pneumonia.
Além disso, o New Deal livrou muita gente do suicídio. Em 1927, a taxa de suicídios nos EUA era de 16 por 100 mil habitantes. Com a Grande Depressão, ela subiu rapidamente para 22 por 100 mil habitantes, em 1933. No entanto, logo após a introdução do New Deal, a taxa de suicídios começou a cair rapidamente e, em 1936, já havia se reduzido para 16 mortes por 100 mil habitantes.
Esses são apenas alguns números. Na verdade, o New Deal salvou a economia americana e, sobretudo, salvou milhões de vidas americanas da fome, da doença e do suicídio. É por isso que Stuckler e Basu afirmam que o New Deal, embora não tenha sido uma política de saúde, foi “o maior programa de saúde pública implantado nos EUA”.
Da mesma forma, o Bolsa Família, tão atacado pelos “homens de bem’, reduziu em 19,4% a mortalidade entre crianças de até 5 anos, nos municípios onde tinha alta cobertura, sendo que esta redução foi ainda maior, se consideradas as mortalidades especificas por algumas causas, como desnutrição (65%) e diarreia (53%).
É por isso também que Rudolph Virchow, fundador da medicina social, afirmava que “a “política nada mais é que medicina em grande escala””. Se correta, a política salva muitas vidas. Se equivocada, como a política de austeridade, ela pode matar milhares ou milhões.
Não há dúvida de que a redução dos investimentos em saúde que será invariavelmente ocasionada pela PEC 241/55, combinada com a extinção de direitos previdenciários e trabalhistas, o aumento do desemprego, a redução do salário mínimo, a redução de programas sociais e outras medidas socialmente perversas do golpe vão aumentar muito as taxas de morbidade no Brasil.
Num país como o nosso, ainda muito desigual e com um Estado de Bem Estar incipiente, apesar dos grandes avanços promovidos na era do PT, as consequências da austeridade irracional e contraproducente imposta pelo golpe por 20 anos serão terríveis. Muita gente morrerá. Perto disso, as chacinas de presos, embora chocantes, são somente pequenas amostras do que vem por aí. A política reacionária do golpe chacinará nossa população mais vulnerável.
É possível que Temer e os demais “homens de bem” do governo golpista não tenham consciência disso. Pode ser que estejam bem-intencionados. Porém, como a própria propaganda do governo reconhece, “gente boa também mata”.
E como!
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