Marcos Nobre:O tempo das narrativas acabou e não há lastro pró-impeachment

:: Da redação8 de agosto de 2016 17:43

Marcos Nobre:O tempo das narrativas acabou e não há lastro pró-impeachment

:: Da redação8 de agosto de 2016

Para articulista, não há sentido no discurso de moralidade do governo interinoNão existe mais lastro para a narrativa pró-impeachment. E não existe mais espaço para narrativas nesse sentido. A conclusão é do professor de filosofia política da Universidade de Campinas (Unicamp), Marcos Nobre. Em artigo publicado pelo Valor Econômico desta segunda-feira (8), o pesquisador analisa o futuro da política no Brasil. Ele entende que o cenário político precisa mudar, seja qual for o cenário depois de encerrado o processo de impeachment. 

Veja abaixo, os pontos mais relevantes do artigo: 

Exércitos inimigos

Desde o momento em que o impeachment se tornou uma possibilidade real, o País se dividiu em dois grandes exércitos. Discursos diferentes e até conflitantes se uniram em busca de um objetivo comum: de um lado, tirar a presidenta eleita do poder; de outro, manter o governo.

“Durante o governo Lula, fixou-se a versão de que tinha sido inaugurada a nova etapa na história do país de classe média. A franja oposicionista concentrava seus esforços em denunciar esse projeto como pensado apenas para perpetuar um partido no poder”. 

País de classe média

Segundo Marcos Nobre, os governos petistas construíram a narrativa do país de classe média e depois, contribuíram para a destruição do conceito por conta do ajuste fiscal de Joaquim Levy. 

Defesa da democracia

Consolidada a ideia do impeachment, construiu-se outra narrativa; a do golpe e da defesa da democracia.” Foi quando começou o curto reino da ideia de narrativa, chave-mestra para a guerra do impeachment”, diz Nobre. 

Corrupção exclusiva

Beneficiados pela descoberta do esquema que a imprensa apelidou de “mensalão” os pró-impeachment começaram a defender, ainda lá atrás, quando os primeiros casos começaram a aparecer na mídia, uma narrativa de que o PT era o único responsável pela corrupção política no Brasil. Essa narrativa cresceu em 2012, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) retomou os julgamentos. 

Inimigo insidioso

“A ideia de narrativa diz que política não é sobre convencer, mas sobre a exigência de estar sempre alerta contra um inimigo insidioso, que procura se infiltrar nas menores brechas do embate de versões para conquistar pessoas desavisadas. Ninguém pode se dar o direito de ignorar esse estado de guerra, as lâminas têm de ser permanentemente afiadas contra um inimigo que não descansa. As palavras são patrulhadas com minúcia detetivesca. Qualquer discurso é suspeito até que pronuncie as senhas que permitem entrar na trincheira: golpe, petralha, coxinha, mortadela”, explica. 

Desenlace

Agora, chegado o tempo de encerrar o processo de impeachment, acaba também o tempo de narrativas, sintetiza Marcos Nobre. “Sobrevive apenas no ritual de cartas marcadas do Senado Federal. E a razão é simples: as narrativas que serviram para mobilizar tropas durante o impeachment não têm serventia no mundo pós-impeachment. No campo contra o impeachment, o eficaz slogan do golpe não dá nenhuma pista para o futuro, não indica possíveis linhas de ação. Na situação atual, aferrar-se à narrativa do golpe como tática política limita a ação à denúncia, sem qualquer outra proposta positiva. Pode até ser uma tática de reconstrução. Mas é uma tática meramente defensiva, pressupõe o diagnóstico de que esse campo será capaz de se recompor em termos eleitorais apenas depois de 2018.” 

Sem lastro

“A narrativa pró-impeachment também perdeu seu lastro. O discurso contra a corrupção se enreda na teia universal de desvios escancarada pela Lava-Jato. A realidade do governo Michel Temer é um pesadelo para quem quer que tenha vendido a ideia de passar o país a limpo. A única sustentação efetiva do governo Temer até agora é a ausência de alternativa, somada ao cansaço com o trauma institucional de um impeachment que já fez aniversário de um ano, contado a partir da declaração de Temer de que o país precisava de “alguém” com “capacidade de reunificar a todos”, conclui.