Lute como uma mulher

Essenciais na trajetória petista, mulheres cobram compromisso do PT com sua luta específica

Mulheres petistas querem visibilidade, formação política, paridade nas direções e apoio concreto às candidaturas femininas
:: Cyntia Campos2 de junho de 2017 00:42

Essenciais na trajetória petista, mulheres cobram compromisso do PT com sua luta específica

:: Cyntia Campos2 de junho de 2017

Desde sua fundação, em 1980, o Partido dos Trabalhadores vem dando uma contribuição importante para a luta das mulheres, tanto na construção do feminismo nos setores populares quanto na formulação de políticas públicas voltadas para a emancipação de mais da metade da população brasileira.

“Foi das vozes das mulheres do PT que surgiu a palavra de ordem que hoje todas nós falamos: não há socialismo sem feminismo, assim como não há feminismo sem socialismo”, lembra Nalu Farias, militante do partido e integrante da Marcha Mundial de Mulheres.

Do mesmo modo que o PT foi fundamental na luta das mulheres, as mulheres foram e continuam sendo essenciais à construção e fortalecimento do partido. Com essa convicção, elas cobram mais espaço real, e não meramente burocrático, nas instâncias partidárias, mais apoio às candidaturas femininas e mais compromisso do conjunto dos petistas com sua luta específica.

Da teoria à prática
“Nossa atuação continua tolhida, invisível”, aponta Maísa Bernabet, presidente do Diretório Municipal do PT em Cachoeira de Macacu (RJ) e integrante do Diretório Estadual do PT-RJ. Ela ressalta que, para contar com todo o potencial das mulheres nessa quadra de tantos desafios, o partido terá que sacudir a poeira de alguns hábitos arraigados em toda a sociedade brasileira. “O PT precisa colocar em prática seu discurso sobre igualdade de gênero”.

Olhar para a diversidade é uma tarefa muito mais sofisticada do que apenas reconhecer a legitimidade das bandeiras específicas de mulheres, negros, LGBTs e indígenas, alerta Maria de Jesus, tesoureira do Diretório Estadual do PT do Pará. “É preciso conhecer a diversidade dentro da diversidade. Entender que há diferenças nas demandas entre mulheres brancas e negras. Entre as mulheres negras do Sul e as mulheres negras do Norte, entre as ribeirinhas, as sem terras e as mulheres urbanas”.

PT Pioneiro
O PT foi o primeiro partido político do Brasil a definir um regime de cotas para assegurar a presença de mulheres em sua  direção. No 1º Congresso da organização, em 1991—e após um debate histórico, que mobilizou o partido de alto abaixo ao longo de meses — foi aprovada o percentual mínimo de 30% de mulheres em todas as instâncias, dos diretórios é executivas zonais ao Diretório e Executiva Nacional.

Em 2011, no 4º Congresso, foi aprovada a paridade, que exige que todos os organismos dirigentes do PT tenham em sua composição 50% de mulheres.

Paridade de verdade
Mas isso não é suficiente e corre o risco de se tornar uma resolução meramente cartorial se a dinâmica interna continuar a favorecer os militantes e as lideranças masculinas, sem assegurar paridade também na visibilidade, na formação política e no apoio às centenas de milhares de companheiras que constroem o partido no dia a dia.

Se não tiver mulher no parlamento — seja ele municipal, estadual ou federal — quem vai fazer política para a gente? O homem não faz política para a mulher.

Maria Imaculada, PT de Belo Horizonte

Na última quarta-feira (31), por exemplo, um dos temas recorrentes nos debates travados no seminário promovido pela Secretaria Nacional de Mulheres do PT foi a falta de apoio às candidaturas femininas ao parlamento, que ameaça tornar letra morta uma conquista de todas as mulheres brasileiras, que é a exigência de 30% de mulheres em todas as chapas de partidos ou coligações que disputem eleições proporcionais.

Baixa representatividade
Sem o apoio efetivo — que se traduz, inclusive, numa repartição mais equânime dos recursos do Fundo Partidário para o financiamento das candidaturas das mulheres — a regra dos 30% não tem contribuído para ampliar a presença feminina das câmaras de vereadores, assembleias legislativas e nas duas Casas do Congresso Nacional, mantendo o Brasil na constrangedora 154ª posição, entre 193 países, no que diz respeito à representação das mulheres no Parlamento.

 “Nós precisamos de mulheres na política. Se não tiver mulher no parlamento — seja ele municipal, estadual ou federal — quem vai fazer política para a gente? O homem não faz política para a mulher. O homem não entende as necessidades básicas da mulher”, cobra Maria Imaculada, do PT de Belo Horizonte e que trabalha na Sub-Secretaria de Igualdade Racial do governo de Minas.

Além da democracia incompleta e assimétrica, que desconhece ou apenas contorna temas essenciais a 52% da população, as barreiras à militância e os papéis secundários desestimulam as mulheres a participarem da política, aponta Imaculada.

E esta, seguramente, não é a hora de abrir mão da combatividade da mulherada. Com um golpe para reverter, reformas devastadoras para derrotar, nem o PT nem a luta social podem de dar ao luxo de desestimular presença das mulheres na linha de frente.

“É tempo de resistência e de resistência a gente entende. A gente resiste todos os dias ao machismo, ao preconceito, à violência de gênero. A luta geral não pode prescindir de nós”, avisa Alana Manchieri, secretária de Juventude do PT do Acre.

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