ARTIGO

O Caso Venezuela, por Beto Faro

Alessandro Dantas

O Caso Venezuela, por Beto Faro

Beto Faro: "Processo eleitoral ocorrerá num contexto de continuidade e intensificação dos ataques sistemáticos às instituições democráticas"

Mal concluiu as comemorações pela chegada do ano novo, a população da América Latina, em especial, assistiu, perplexa e apreensiva, ao ato do governo americano que sequestrou o presidente da Venezuela. Antecipo minhas ressalvas a Maduro e seu governo pelos déficits democráticos. Mas é o presidente de uma Nação soberana. Se houve fraude na sua eleição, ou se Maduro estava sendo processado na justiça americana, obviamente sequer a Constituição e as leis dos EUA, incluindo a “Lei de Guerra”, chancelam atos arbitrários do seu governo na esfera internacional.  

A operação do governo Trump foi denominada “Resolução Absoluta”, talvez em referência à precisão dos seus propósitos em termos de subjugação da soberania da nação venezuelana mediante o atropelo pleno do direito internacional.

Com o ego inflado pelo “êxito” da operação, o presidente Trump não poupou discursos ameaçadores ao mundo, mas, em particular, ao continente americano. É o perigo de um ‘império’, para muitos estudiosos, em processo de regressão, e óbvia perda da hegemonia absoluta, reagindo de forma desregrada para tentar reverter esses processos pela via coercitiva ao invés de ações diplomáticas, monetárias, econômicas e geopolíticas adequadas e amigáveis.

Essa conduta do atual governo americano está consistente com o recente anúncio da sua prioridade estratégica voltada para as américas, e expressa na versão distorcida da doutrina Monroe. Pelas dualidades entre a realidade e o que é tornado público essa nova versão da doutrina Monroe parece ter mais a ver com “Marilyn” do que com o presidente James.

Com efeito, distante da pretensão de proteger o hemisfério ocidental do colonialismo europeu conforme a inspiração original da doutrina, busca-se, agora, o c0ntrole político efetivo das riquezas naturais dos territórios do hemisfério ocidental para afugentar as “ameaças chinesas”. Estamos tratando de uma região extremamente rica em diversos minerais, na atualidade, muito mais estratégicos que o petróleo da Venezuela. A propósito, a apropriação do petróleo venezuelano não justificaria o empreendimento do governo dos EUA, à medida que o mundo caminha de forma irreversível para a descarbonização. O que importa mesmo é a relevância estratégica das gigantescas ocorrências, na região, principalmente de ouro, prata, cobre, lítio, nióbio, terras raras.

Sob tais métodos, além de alimentar, na américa Latina e no mundo, sentimento de aversão a uma nação amiga, o governo dos EUA irá conseguir acelerar os novos arranjos na geopolítica global a exemplo da antecipação das ambições do BRICS. Em particular, essa estratégia não impedirá o aprofundamento das relações da China na região que, não obstante os seus interesses, têm sido pautadas por parcerias respeitosas, de complementariedade econômica, investimentos bilionários em infraestrutura, transferência de tecnologia, enfim, facilitadoras do desenvolvimento dos países parceiros.

Pela escassez de informações plenamente confiáveis, seria pouco responsável comentar especificamente sobre a operação ‘Resolução Absoluta’. Há quem suspeite que a “perfeição” da ação das forças especiais só tenha sido possível pela perfeição da cooperação interna, de tal monta e eficiência que impediu qualquer reação ao ataque.

Mais recente, o governo dos EUA comunicou o comando absoluto sobre a economia venezuelana com o controle monopólico sobre a produção e o comércio do seu petróleo. Nessa toada, a história nos dirá sobre os significados da legitimação plena, pelo governo dos EUA, ao governo Delcy Rodriguez, em teoria, comprometido com os ideários de Simon Bolivar.

Em resumo: devemos enfrentar os maus presságios para o mundo, torcendo e agindo para que a tolerância, o diálogo, a diplomacia e o direito internacional voltem a prevalecer nas relações entre as nações. A população americana, da américa latina e do resto do mundo merecem!

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