ARTIGO

O idiota e a paz

A guerra promovida pelos EUA contra as forças comunistas que haviam combatido o domínio japonês na península devastou o país
:: Marcelo Zero - Assessor Legislativo5 de dezembro de 2017 12:24

O idiota e a paz

:: Marcelo Zero - Assessor Legislativo5 de dezembro de 2017

O bem-sucedido lançamento do míssil de longo alcance da Coreia do Norte, o Hwasong-15, voltou a elevar a já alta temperatura geopolítica no Leste da Ásia.

O novo míssil norte-coreano, bastante parecido com o míssil chinês WS51200, teria capacidade de percorrer 13.000 quilômetros, tornando-o perfeitamente capaz de atingir os EUA e a Europa. Ainda que esse alcance estimado seja referente ao míssil vazio, ele poderia levar uma carga nuclear a uma boa distância. Especialistas calculam que ele seria capaz de levar a bomba de fusão nuclear norte-coreana, que pesa aproximadamente 600 quilos, até a Costa Oeste dos EUA. Como ameaça, é o suficiente. Agora, a Coreia do Norte tem, em tese, o potencial técnico de atacar não apenas a Coreia do Sul e o Japão, mas também os EUA e seus aliados europeus.

De forma precisamente calculada, o míssil foi lançado dias antes de começarem as manobras militares conjuntas entre os EUA e a Coreia do Sul. Tratam-se de provocações anuais que os EUA promovem contra Coreia do Norte. Nesse caso, no entanto, as manobras envolveram, além de 12 mil homens, 230 aviões de combate, inclusive caças com tecnologia furtiva (F-22) e bombardeios estratégicos B-1, capazes de levar várias bombas nucleares e destruir um país inteiro. A tensão chega muito próximo do insuportável.

Essa tensão entre Coreia do Norte e os EUA sempre existiu, mas ele se agravou bastante com a ascensão de Trump ao poder.

De fato, a política agressiva de Trump na península coreana tem sido um desastre. No dia 19 de setembro, num discurso agressivo feito em plena Assembleia Geral da ONU, o presidente americano defendeu que “a única solução seria destruir totalmente a Coreia do Norte caso o regime em Pyongyang force os Estados Unidos e aliados a se defenderem”.

Trump tem se negado a procurar dialogar com Pyongyang e intencionalmente sobe a temperatura do conflito com a Coreia do Norte, talvez buscando usufruir dividendos políticos internos com essa atitude belicista. No dia 1 de outubro, em um twitter público, Trump recomendou que seu Secretário de Estado, Rex Tillerson, que estava na China procurando abrir um canal de diálogo com Kim Jong-un, “parasse de perder tempo com o “Little Rocket Man”. Não há registro, na história diplomática norte-americana, de um Secretário de Estado que tenha sido desautorizado dessa forma por seu presidente. Tillerson teria reagido chamando Trump de idiota (moron). Deixo aos leitores julgar se o epíteto cabe.

Bom, se Trump não é um moron, a política com relação à península coreana com certeza é. E não é de hoje.

A guerra promovida pelos EUA contra as forças comunistas que haviam combatido o domínio japonês na península devastou o país. O famoso general Douglas MacArthur, que comandou as tropas norte-americanas na Coreia, em depoimento ao Congresso norte-americano, em maio de 1951, afirmou que nunca havia visto tanta destruição e que, após contemplar os cadáveres de milhares de mulheres e crianças, havia “vomitado”. Das 22 maiores cidades da Coreia do Norte, 18 foram reduzidas a cinzas. MacArthur advertiu que, se a guerra se prolongasse, haveria “o maior massacre da história da humanidade”.

As estimativas mais conservadoras avaliam que teriam morrido cerca de um milhão e seiscentos mil civis e cerca de 900 mil soldados coreanos, fora os 600 mil soldados chineses que acudiram a Coreia do Norte ao final do conflito. Na época, as Coreias tinham uma população de cerca de 20 milhões. Assim, se não foi o maior, foi, proporcionalmente, um dos maiores massacres da história. MacArthur tinha razão.

Um massacre dessas dimensões deixa marcas. A Coreia do Norte suspeita que os EUA querem, de fato, destruí-la, como diz Trump. Como salientado, anualmente os EUA, em conjunto com o governo da Coreia do Sul, faz amplas manobras militares na fronteira com a Coreia do Norte. Essas manobras militares geralmente coincidem com o plantio (abril) ou colheita (agosto) do arroz. Isso cria um grande stress na Coreia de Norte, que tem apenas 17 % da sua área em terras agricultáveis e produz quantidade crítica de alimentos para atender às necessidades de sua população. O exército de cerca de 1,2 milhão de homens da Coreia do Norte tem de ser deslocado do plantio ou da colheita do arroz para ficar em prontidão máxima por causa das manobras. Tal fato e a necessidade de manter um grande exército causa um dano econômico considerável à Coreia do Norte. Obviamente, isso se agrava com os contínuos embargos comerciais impostos àquele país.

O investimento da Coreia do Norte em armas nucleares e mísseis tem de ser entendido dentro desse contexto de uma nação que busca assegurar a sua segurança. Os coreanos do norte entenderam que não dava mais para criar dissuasão estratégica com exército convencional. Além de insuficiente, era muito caro.

Por isso, foi criada a chamada política de byungjin, que consiste em gerar capacidade nuclear e, ao mesmo, tempo, melhorar o nível de vida população, transferindo recursos da defesa para a área civil da economia.

Tem funcionado. Cada vez que se sente ameaçada por manobras militares feitas pelos EUA com a Coreia do Sul ou o Japão, a Coreia do Norte testa um míssil ou detona um artefato nuclear, como fez agora com o novo míssil de longo alcance. Na imprensa ocidental, Kim Jong-un é apresentado como um maníaco. Na verdade, tudo isso segue uma lógica de custo-benefício bem calculada. Hoje, a Coreia do Norte não precisa mais mobilizar tantos soldados e recursos escassos, quando os EUA realizam suas manobras militares na região.

Entretanto, o equilíbrio de poder na península é muito delicado e instável, e a situação só poderia ser resolvida com uma negociação séria, envolvendo as duas Coreias, os EUA e a China. Esse último país propôs uma solução de mão dupla: os EUA parariam com as manobras e as hostilidades e a Coreia do Norte se comprometeria a colocar seu programa nuclear sob supervisão internacional. A proposta não foi aceita pelos EUA.

A bem da verdade, a tensão na península coreana poderia ser consideravelmente diminuída, caso os EUA aceitassem assinar um tratado de não agressão com a Coreia do Norte, reivindicação antiga desse país. Os EUA, contudo, sempre recusam.
Os EUA não parecem ter interesse maior numa paz duradoura e sedimentada na península coreana. E por um bom motivo: seu interesse estratégico maior não é neutralizar a Coreia do Norte e sim neutralizar a crescente influência chinesa no Leste da Ásia. Japão e Coreia do Sul, principais aliados dos EUA naquela região, também têm interesse em conter a influência chinesa. Hostilizar e manter a pressão sobre a Coreia do Norte, apoiada pela China, significa, na verdade, colocar obstáculo à projeção dos interesses chineses numa região sensível e de enorme potencial econômico.

Com isso, e com o fator Trump, que agrega imprevisibilidade a tudo, o conflito coreano tende a se agravar. Com efeito, Kim Jong-un segue a racionalidade geopolítica de criar dissuasão estratégica. A Coreia do Norte quer apenas sobreviver. Já Trump exibe um comportamento inteiramente inadequado par alguém que detém o maior arsenal nuclear do planeta. Psicólogos norte-americanos asseguram que ele perigoso e instável. Ressalte-se que um enfrentamento militar na península poderia envolver armas nucleares e as duas maiores potências do planeta, EUA e China.

Mesmo sozinha, a Coreia do Norte já teria capacidade, hoje, de enviar mísseis nucleares à Coreia do Sul e ao Japão. Não é uma boa receita para a estabilidade do planeta e a paz mundial.

Também não é uma boa receita para se realizar uma olimpíada.

Como se sabe, as próximas olimpíadas de inverno serão realizadas em PYEONGCHANG, Coreia do Sul, no início de 2018. O governo daquele país fez grandes investimentos econômicos e políticos, no evento de escala mundial. Porém, faltando menos de três meses para a cerimônia inaugural, apenas um terço dos ingressos foram vendidos. Em circunstâncias normais, já estariam praticamente esgotados.

A razão principal parece ser o medo à escalada do conflito coreano, que têm desestimulado turistas de todo o mundo. Com efeito, as bravatas de Trump, difundidas com espalhafato pelo planeta, seguidas de demonstração de força de ambos os lados causam grande preocupação. Mas não somente turistas estão sendo desestimulados. A França já manifestou oficialmente sua preocupação em mandar os seus atletas para uma zona de conflito potencial grave. E o Reino Unido afirmou que só mandará seus atletas, após conceber um plano de evacuação de emergência, caso for necessário.

Enfim, a tensão criada pela política agressiva de Trump na península coreana está conduzindo, no mínimo, a um esvaziamento dessa grande festa esportiva.

Parece que o mundo terá de acompanhar atentamente os explosivos twitters de Trump para saber se, na época das olimpíadas, haverá clima adequado para a prática de esportes de inverno. Além da neve, será necessária a paz. E mais racionalidade.

 

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