Soberania nacional

Lava Jato comprometeu engenharia nacional

"A Lava Jato matou o CNPJ, matou as empresas brasileiras", afirma o senador Jaques Wagner (PT-BA)
:: Da redação7 de outubro de 2019 16:06

Lava Jato comprometeu engenharia nacional

:: Da redação7 de outubro de 2019

Orientada pelo governo Bolsonaro, a Caixa Econômica Federal pediu a falência da construtora Odebrecht. Ao mesmo tempo, o Banco do Brasil solicitou à Justiça a anulação do plano de recuperação judicial apresentado pela empresa em junho. Para o presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, a medida é resultado da Operação Lava Jato. Segundo ele, em entrevista à TV 247, a empresa e todo o setor tiveram seu desmonte planejado pela operação comandada por Sérgio Moro. “Essa questão da liquidação da engenharia nacional está no âmago da operação Lava Jato, sob a capa do combate à corrupção”, afirmou.

“A Lava Jato matou o CNPJ, matou as empresas brasileiras, quando deveria atacar os corruptos pessoa física”, afirmou o senador Jaques Wagner, em entrevista ao programa Diálogos com Mário Sérgio Conti, na GloboNews. Para Wagner, “o crime maior da Lava Jato, além de ter perseguido, demolido pessoas sem provas, foi o fato ter acabado com o emprego”. Wagner também questiona o prejuízo com a perda da inteligência acumulada pelas empresas, “jogada para o espaço”.

Antes do ataque sofrido pela operação Lava Jato, as empreiteiras brasileiras ocupavam 2,5% do mercado mundial do setor, com a Odebrecht vencendo concorrências internacionais, inclusive nos EUA – entre elas, para reformar o porto de Miami. Maior construtora nacional, a Odebrecht tinha, em 2014, um faturamento bruto de R$ 107 bilhões, com 168 mil funcionários e operações em 27 países, segundo o professor Luiz Fernando de Paula, do IE/UFRJ e Coordenador do Geep/Iesp/UERJ, e Rafael Moura, doutorando de Ciências Políticas do Iesp/UERJ, em artigo publicado no jornal Valor Econômico. Em 2017, segundo os economistas, o faturamento caiu para R$ 82 bilhões, com 58 mil funcionários e atividades apenas em 14 países.

As empreiteiras nacionais respondem, historicamente, por metade da formação bruta de capital fixo do país – indicador que mede a capacidade produtiva nacional. Além disso, o Brasil perde investimento acumulado por décadas em inteligência, tecnologia e mão de obra qualificada. As consequências da corrosão econômica do setor também se mostraram dramáticas para os trabalhadores. De acordo com o jornal especializado “O Empreiteiro”, entre 2014 e 2017, o setor registrou saldo negativo entre contratações e demissões de 991.734 vagas formais (com preponderância na região Sudeste).

Em mensagens trocadas entre os integrantes da Lava Jato, divulgadas pelo The Intercept, procuradores alertaram para o risco a que estavam submetendo as empresas. Em uma das mensagens, o procurador Marcelo Miller comenta que “a Odebrecht não deve quebrar. Se quebrar, vamos nos deslegitimar”. Segundo Miller nas mensagens, “o acordo – é assim no mundo – deve salvar empregos”. lembrou ele. “Temos de ter muito cuidado com isso”, advertiu ele, afirmando que a operação Lava Jato nunca se livraria da pecha de ter quebrado a maior construtora do País. Ao que outro procurador respondeu, debochando: “Tá com peninha do MO (Marcelo Odebrecht), leva para casa”.

Citando escândalo de corrupção envolvendo a Wolkswagen, Celestino compara o tratamento dado pela justiça alemã com a operação Lava Jato. Segundo ele, “a Volkswagen foi pilhada fraudando 8 milhões de consumidores no mundo inteiro, com índices de poluição muito acima dos permitidos pelas autoridades, foi multada bilhões de dólares nos Estados Unidos e Europa, seus dirigentes foram demitidos, processados e, no entanto, a Volkswagen não deixou de produzir nenhum veículo”. “Aqui nós jogamos fora a criança, a água e a bacia”, afirma o presidente do Clube de Engenharia. “Esse processo levou à liquidação um patrimônio que se constituiu ao longo das últimas seis décadas”, concluiu.

Em seu livro “Nada menos que tudo”, o ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot, acusa a “esquerda” de promover “teorias da conspiração”, para negar que a colaboração com o Departamento de Justiça dos EUA tenha favorecido estrangeiras. No entanto, é fato o memorando assinado em 1º de agosto deste ano, entre o governo Jair Bolsonaro e o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, abrindo o mercado nacional do setor para as empresas norte-americanas.

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