Encontro de Mulheres

Para o PT, o feminismo é no plural

"O papel da mulher no Brasil não é só o voto, é um processo de conscientização, temos que mostrar a elas o quão importante é a emancipação feminina e a ocupação dos espaços de política", disse Lula no encontro
:: Alessandra Gondim8 de outubro de 2017 14:32

Para o PT, o feminismo é no plural

:: Alessandra Gondim8 de outubro de 2017

O “Feminismo é no Plural” foi a tese vencedora do Encontro Nacional de Mulheres do PT, que acontece neste fim de semana em Brasília. Marcado por fortes debates e muitas críticas ao sistema patriarcal-capitalista, o evento contou com a presença do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, que reconheceu o poder das mulheres”. “O golpe foi (também) para barrar o avanço das mulheres”, disse ele, iniciando sua exposição – vejam abaixo.

“Nós fazemos parte do maior partido de esquerda do mundo, é fundamental que possamos assumir esse enfrentamento. Precisamos estar profundamente unidas, de forma que nossas divergências não sejam um impedimento para o protagonismo das mulheres”. A frase é de Fátima Bandeira, representante da tese vencedora e dá a tônica do que foi o segundo painel  do Encontro das Mulheres.

Para a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), também defensora da tese “Feminismo é no Plural”, a tese vencedora é uma espécie de guinada à esquerda no Setorial de Mulheres, pois é um momento de buscar mais paridade não só dentro do partido, mas também, fora do PT, levando para a sociedade a narrativa de que elas tem capacidade para estar na política.

“O presidente Lula vê isso e deixa claro que confia nas mulheres mas, como ele disse, é uma questão de conscientização  e de empoderamento, e esse é o nosso grande desafio, fazer com que as mulheres reconheçam seu papel na sociedade’, disse Benedita.

Tese vencedora já na prática

Além da escolha da tese que vai ditar os rumos do Setorial de Mulheres para o próximo período, o segundo painel do Encontro Nacional das Mulheres do PT, teve intensos debates. Nalu Farias, representante do Cefemea-SP e da Articulação Feminista do PT, agitou o auditório.

Em sua opinião, é preciso que as mulheres enfrentem o modelo patriarcal que, na justificativa de proteger as famílias, destroem os direitos das mulheres. “É chegada a hora de discutirmos com profundidade as formas pelas quais o feminismo pode mudar o funcionamento do mundo”.

Para Nalu, o golpe contra o governo da ex-presidenta Dilma denota uma contra-ofensiva neoliberal contra as mulheres, pois esses setores da sociedade nunca aceitaram nunca aceitaram uma mulher no poder. “Todo esse processo do conservadorismo que guiou o golpe no Brasil tem o sentido de legitimar e sustentar essas políticas de destruição do Estado de Direito e, com ele, o enfraquecimento da emancipação das mulheres”, criticou.

Já Selma Rocha, da Escola Nacional de Formação do PT, advertiu que a luta pela emancipação das mulheres está no centro da emancipação política do mundo, pois os setores da direita dizem que, se a mulher for livre para pensar e trabalhar, as famílias serão destruídas.

“Eles querem as mulheres enfraquecidas e, por isso, o retorno da velha discussão sobre quem é o responsável pela educação dos filhos: a família ou o Estado”. Para ela, “se for a família, como os fundamentalistas querem, nossos direitos devem ser suprimidos pois, para eles, as mulheres  são apenas uma via para conservar as estruturas familiares. Sendo assim, que valor teremos nós, mulheres, como indivíduos?”.

Erika Kokay, deputada federal do Partido dos Trabalhadores pelo DF, ressaltou que o país vive uma ruptura democrática, com a destruição de direitos adquiridos e que as mulheres estão no centro da lógica fascista e neoliberal em curso. “A luta de equidade de gênero é estruturante, não é paliativa. Nós não queremos rosas, nem lacinhos de fitas, nós queremos direitos, nós queremos poder dizer não, e que isso signifique, de fato, o exercício do direito que temos sobre nosso próprio corpo e nossas vidas”.

Lula emocionado e ovacionado

O ex-presidente chegou ao evento, ovacionado: todas  as 700 delegadas presentes querem tirar fotos e abraçá-lo, ao mesmo tempo. Em sua fala, ele lembra do empoderamento das mulheres, ao afirmar que, se elas ocuparem os espaços que são devidos na política, vão mudar o mundo. Mas, também, fez um desafio: “daqui há um ano, vocês vão se reunir de novo, e  qual vai ser o discurso, o que vocês vão falar aqui, nesse mesmo lugar, daqui  há um ano?”.

Lula disse que as mulheres podem gerir uma cidade, um estado ou um país muito melhor do que os homens, pela capacidade do cuidado, que é muito superior nelas do que nos homens. Ele lembrou dos programas Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, criados em sua gestão que davam total autonomia para as mulheres.

“Entregar o cartão e a casa nas mãos das mulheres foi uma política social para dar autonomia às mulheres, para que elas parassem de depender dos homens. É muito diferente quando  a mulher tem a independência dela para fazer o que ela precisa, sem necessidade de pedir ao homem”.

O ex-presidente também cobrou das delegadas maior empenho para atrair mais mulheres para as atividades políticas: “o papel da mulher no Brasil não é só o voto, é um processo de conscientização, temos que mostrar a elas o quão importante é a emancipação feminina e a ocupação dos espaços de política”.

“É preciso construirmos uma narrativa para conscientizar a mulher de que ela está mais preparada para cuidar de uma cidade, de um estado e de um país, do que os homens. Eu governo sempre imaginando o coração de uma mãe. Porque eu não gosto da palavra governar, eu prefiro a palavra cuidar. E as mulheres sabem cuidar”.

Para ele, é necessário trazer mais mulheres para a vida política: “A desigualdade é tão grande que, em 500  anos só tivemos uma mulher presidente, que foi a Dilma. Infelizmente, não há uma lógica na política pois, se houvesse, todo trabalhador votaria em trabalhador, toda mulher votaria em mulheres, e todo negro votaria em negros, mas não é assim”.

E ele faz desafio para as delegadas do partido: “Então, o que vamos dizer para essas mulheres que estão em casa assistindo TV? Não podemos apenas dizer a elas que demos o Bolsa Família, que demos o Minha Casa Minha Vida nas mãos delas, temos que dizer algo mais. E esse algo mais são vocês que tem que dizer. Os homens já nasceram no poder e para eles não é preciso dizer nada”.

“Daqui há um ano, vocês vão voltar aqui nesse mesmo lugar e qual vai ser o discurso? Do que eu vejo, nós temos que construir uma narrativa que convença a mulher de que, se ela entrar na política, ela vai mudar o mundo’, finalizou Lula, ovacionado pelas mulheres, de novo.

Dilma, presente

A senadora Gleisi leu carta da presidenta Dilma Roussef, que está na Rússia e não pode comparecer ao Encontro, e fez dela as palavras da presidenta. Na carta, Dilma diz que, após um período de intoxicação midiática, a sociedade está começando a ver o que significou o golpe para as conquistas dos brasileiros e, especialmente, para as mulheres: “o golpe, foi misógino, machista e contra o protagonismo das mulheres brasileiras”.

Eleição

O Encontro Nacional de Mulheres do PT continua neste domingo (8), quando haverá a eleição  da nova secretária Nacional e do novo coletivo da Secretaria Nacional de Mulheres do PT. Têm direito a voto as delegadas eleitas nos encontros estaduais realizados  em 23 estados.

As candidatas à Secretaria Nacional são Patrícia Amália Castro Araújo (PI), Wilma dos Reis Rodrigues (DF), Liliane Oliveira (BA), Anne Karolyne (AM) e Kátia Guimarães (MS).

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