Alessandro Dantas

Exceto nos países desenvolvidos mais homogêneos no plano distributivo da renda, o dia a dia das famílias economicamente mais pobres inclui a desafiadora administração do acesso aos itens básicos para uma vida digna.
Por razões óbvias, em países não desenvolvidos, com enormes desigualdades a exemplo do Brasil e, mais ainda, das suas unidades subnacionais como o Pará, esses desafios são muito maiores. Os significativos ganhos econômicos e de proteção social conquistados pela nossa população desde 2023, mitigaram de forma destacada esses desafios, mas que ainda estão presentes na rotina de parcela importante da população brasileira.
Tomando-se apenas o caso do poder de compra, observem que no período do governo Bolsonaro a inflação da comida (dentro de casa) foi de 56.1%. No governo Lula3 (até o mês de maio) caiu para 15.4%; e convenhamos, sem a menor chance de aproximação à taxa Bolsonaro até o final do ano.
No Pará, nos quatro anos Bolsonaro o índice acumulado do IPCA geral foi de 21.4% e o da inflação da alimentação no domicílio, de 45%. Em igual período, a variação do salário mínimo foi de apenas 21.4%, o que demonstra o extraordinário arrocho ocorrido no poder de compra de alimentos pela população paraense.
No atual governo do presidente Lula (2003 a maio/26) a inflação no estado foi de 18.2%; a inflação da comida em casa, de 18.7%, e a variação do salário mínimo (neste caso, considerando todo o ano de 2026) foi de 24.5%.
Portanto, durante o governo Lula3, sem considerar o extenso leque de outras políticas e programas com impactos incontestáveis na elevação dos padrões de vida dos brasileiros, os dados postos denunciam a má fé ou desinformação de quem prega o contrário.
No entanto, em que pese os resultados do governo Lula na estabilização do custo da comida, a volatilidade nos preços e na oferta dos alimentos passou a ser um desafio crescente. Isto, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, por conta da intensificação dos extremos climáticos, afora outros fatores.
Vejamos o caso recente no Pará para exemplificar a tendência de pressões dos preços dos alimentos mesmo com o fortalecimento das políticas para a agricultura familiar promovido pelo governo Lula3 que minimizaram o quadro de carestia no governo Bolsonaro. Na realidade, a amostragem do Pará é dada pela aferição do IPCA, pelo IBGE, na região metropolitana de Belém.
De janeiro a maio do presente ano, a taxa acumulada da inflação da alimentação no domicílio (8.7%) no estado, foi mais de duas vezes superior ao índice geral do IPCA (3.9%).
Entre os vinte itens pesquisados pelo IBGE com as maiores taxas do IPCA, 18 foram alimentos, na maior parte, com grande peso na dieta básica da nossa população. Exceto produtos sob efeitos mais intensos de fatores sazonais, vale destacar a expressiva inflação do feijão carioca, o mais consumido em todo o país, que chegou a 63.8% nesses cinco meses de 2026 – quase 17 vezes mais que a variação acumulada do IPCA no estado.
O açaí, verdadeiro condão identitário da cultura alimentar da população paraense teve inflação de 53% no período, o que significou uma taxa 14 vezes maior que a taxa geral de inflação. Para sintetizar, entre outros alimentos com taxas de inflação muito acima da taxa geral, sublinhamos a maior parte dos cortes da carne bovina incluindo os mais básicos. Portanto, essas tensões permanentes nos preços de alimentos essenciais impactam o estado emocional em particular, das pulações mais pobres e assim gerando má vontade para as percepções populares sobre o virtuosismo dos avanços socioeconômicos em geral conduzidos pelo governo.
Enfrentar essa nova realidade dos alimentos requer mudanças estruturais nas políticas agrícolas, desde a pesquisa até os estoques estratégicos. Para contribuir nesses esforços o Senado passará a discutir projeto de Lei de nossa autoria, já aprovado na Câmara, que trata especificamente da formação de estoques. Inflação da alimentação é mais grave em ano de eleição.



