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Réu confesso, crime 22: Comunicação enganosa e transparência zero

A única estratégia de comunicação de Jair Bolsonaro na pandemia foi a de confundir a população e lançar os brasileiros na direção do vírus
:: Agência PT de Notícias31 de maio de 2021 16:12

Réu confesso, crime 22: Comunicação enganosa e transparência zero

:: Agência PT de Notícias31 de maio de 2021

É difícil imaginar uma situação em que a transparência e a comunicação sejam mais importantes do que em uma pandemia. Só muito bem informada uma população se sentirá segura para seguir as orientações das autoridades sanitárias e saberá como agir. Porém, desde o princípio do surto de Covid-19 no Brasil, Jair Bolsonaro atuou para confundir, não esclarecer.

Como já abordado nesta série Réu confesso, o negacionismo foi a principal arma do atual presidente para estimular a imunidade de rebanho sem vacina. Por meio do mau exemplo (recusando-se a usar máscaras e provocando aglomerações) e de declarações mentirosas (“só uma gripezinha”, “a cloroquina funciona”, “60, 70% vão pegar”) ele assumiu o papel de disseminador do novo coronavírus.

E como, para o infortúnio do país, ele é o presidente, impediu que os órgãos governamentais elaborassem uma estratégia de comunicação realmente comprometida e eficaz. Como bem anotou a Casa Civil no documento em que listou 23 crimes do Executivo: “O Governo não foi transparente nem elaborou um Plano de Comunicação de enfrentamento à Covid”.

Foi à Justiça para não comunicar
Tanto é verdade a afirmação acima que, em abril passado, mais de um ano depois de pandemia, o Ministério Público Federal (MPF) recorreu à Justiça para obrigar o governo federal a colocar em prática tal plano. A juíza federal Paula Beck Bohn, da 2ª Vara de Porto Alegre, concordou com o pedido e deu o prazo de 10 dias para o Executivo agir.

As ações que o governo Bolsonaro deveria realizar não eram nada absurdas. Na verdade, beiravam o óbvio: atualizar e informar diariamente a situação da pandemia; promover coletivas de imprensa; ressaltar a importância do isolamento social, do uso de máscara, da proibição de aglomerações e da necessidade de quarentena em casos suspeitos; orientar sobre a ventilação em locais fechados e a forma correta de lavar as mãos, entre outras.

“A questão da necessidade de adoção de estratégias de comunicação emanadas de um órgão central, vinculado à União, vem sendo apontada por inúmeros especialistas como fundamental para a contenção da pandemia de Covid-19 e para minimizar e conter seu avanço. Estudos e documentos científicos juntados no ev. 3 evidenciam tal constatação”, escreveu a magistrada na decisão.

O leitor, a leitora não devem se culpar caso não tenham visto, 10 dias depois, a implementação do plano, pois ele nunca foi adiante. A União recorreu da decisão e as ordens da juíza Bohn acabaram suspensas pela desembargadora federal Vivian Josete Pantaleão Caminha.

Bolsonaro tentou ainda difundir informações falsas, como no plano de mudar a bula da cloroquina ou receitar a droga por meio de um aplicativo voltado a profissionais de saúde. E também questionou os números oficiais, atiçando seus apoiadores a invadir hospitais para comprovar se estava mesmo faltando leitos.

Por que um presidente agiria de forma tão absurda em um momento tão grave quanto uma pandemia capaz de matar centenas de milhares de pessoas? À princípio, de fato, parece não fazer sentido. Mas quando se observa todo o comportamento do governo — as declarações e atos do presidente, a insistência em dizer que 60%, 70% devem ser infectados (justamente o índice que se calculou para que se chegasse à imunidade de rebanho) —, fica evidente que Bolsonaro quis e atuou para que a maioria da população se infectasse.

Como ele não podia assumir seu plano, pois significava admitir que nada fazia para reduzir o número de mortos, Bolsonaro não podia colocar um plano de comunicação em prática. O plano de comunicação foi ele próprio. Um plano de morte.

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