Suplicy ressalta que crise global exige mudança de paradigma

:: Da redação20 de outubro de 2011 18:07

Suplicy ressalta que crise global exige mudança de paradigma

:: Da redação20 de outubro de 2011

O discurso da Presidenta Dilma, na última reunião do IBAS – Fórum Índia, Brasil e África do Sul, realizada em Tshwane, na África do Sul, no dia 18 deste mês, estabelece um novo padrão nas relações até hoje vigentes. A Presidenta Dilma capta a grande mudança de paradigma que está em curso no mundo. É uma inflexão forte, pois em 2011 começou uma rebelião mundial ainda sem fins definidos, a não ser a rejeição aos padrões que regeram a relação entre os povos nos últimos séculos, qual seja o governo por meio de violência, guerras, corrupção, apropriação do trabalho dos mais pobres e socialização das perdas causadas pela fantástica dominação que o sistema financeiro exerce sobre a vida dos povos.
Hoje, devido à aceleração das crises econômico-financeiras, os 1% mais ricos nos EUA estão agora recebendo quase um quarto da renda nacional e controlando 40% da riqueza. Conforme ressalta Joseph Stiglitz (“Vanity Fair”, Maio 2011), o seu quinhão aumentou consideravelmente. Há 25 anos, os dados eram respectivamente 12 e 33 por cento. Fenômeno semelhante está acontecendo na Europa pelo mesmo motivo: o empobrecimento das grandes maiorias e a riqueza crescente dos que dispõe do poder, isto é, as grandes corporações multinacionais e o sistema bancário globalmente interligado estão afetando violentamente a vida dos mais pobres.

Por exemplo, a Grécia. Neste último ano em que o país atravessa grave crise financeira, empresas são fechadas, o setor público encolhe e a taxa de desemprego supera os 16%, com graves consequências sociais para toda a população. Tudo isto desde o inicio de 2011. Hoje mais de 20 mil pessoas estão diante do parlamento em protesto contra as medidas a serem votadas.
Por outro lado, algo extremamente impressionante aconteceu, Israel e a Palestina voltaram a conversar e acertaram a troca de prisioneiros. Foi uma decisão de grande importância, um sinal alvissareiro com vistas a novos passos para a paz no Oriente Médio. Pela primeira vez, o primeiro-ministro Netaniahu libertou, por meios diplomáticos, 1.027 prisioneiros palestinos por um soldado israelense também preso, durante mais de cinco anos na faixa de Gaza. A propósito, Jânio de Freitas, hoje no jornal Folha de S.Paulo escreve algo muito relevante:

“Enquanto os ‘especialistas’ se ocupam em considerar quem mais ganhou na troca de prisioneiros feita por Israel e Hamas, acima deles paira a atitude do jovem Gilad Shalit. Soldado israelense preso por cinco anos nas mãos do Hamas palestino,reencontrou a liberdade com atitude alheia às circunstâncias políticas e geográficas.
Em vez de ódio racial e ressentimento, revestidos de pose vitoriosa e heróica (como muitos estariam esperando), uma figura simples e com palavras por um acordo de paz e libertação de todos os prisioneiros palestinos. Um esplêndido momento de beleza humana.”
Os poderosos começam a ter medo e a seguinte frase da presidenta Dilma em seu discurso resume isso: “Entre nós deve prevalecer a determinação de romper paradigmas para aperfeiçoar um diálogo financeiro entre Estados, sociedades e continentes que desejam construir um mundo de desenvolvimento, justiça social, democracia e paz”.

Em seu discurso, a Presidenta também afirma: “Na Síria, defendemos o fim imediato da repressão e encorajamos diálogo nacional para lograr uma saída não violenta. Na Líbia, atuamos orientados pela certeza de que intervenções armadas, especialmente as realizadas à margem do Direito Internacional, não trazem a paz nem protegem os direitos humanos. Agravam conflitos ao invés de resolvê-los.”
E o pronunciamento segue todo neste tom, sublinhando o papel fundamental que tanto o IBAS como o BRICS têm de mediar diplomaticamente esses conflitos, que nascem dos desejos dos poderosos de massacrar seus oponentes. O mundo está passando por uma transformação radical, pois está hiperconectado por tecnologias que caminham à velocidade da luz.
Até a segunda metade do Séc. XX, esta conectividade era desconhecida e imprevisível, mas podemos dizer que só agora os ideais da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – como também já dissemos em outra oportunidade, estão se enraizando em todos os povos, porque as novas tecnologias estão mudando a cabeça das grandes maiorias dominadas, fazendo-as chegar a maturidade histórica, como aparece em todo o discurso da presidenta.

Imprevisíveis são também as consequências desta mudança de consciência, que está exigindo itens como a democracia em que o dinheiro seja redistribuído por todo o povo e não fique apenas na mão dos que possuem o poder econômico e financeiro, atitudes como da Ficha Limpa que podem mudar a estrutura da democracia brasileira, e todos esses levantes que vão da Austrália ao Canadá.
Em prazo mais longo, para que isto aconteça deve mudar a própria natureza do dinheiro e dos Estados, que de verticais e autoritários, se tornem horizontais e efetivamente, participativos.
Um parêntese rápido. Existem hoje no Brasil 200 bancos comunitários usando moedas sociais, que fazem crescer o poder do real a custo zero em muitas vezes porque estas moedas são apenas escriturais e só são válidas nos bolsões de miséria.

No mundo inteiro, já há mais de cinco mil moedas semelhantes, principalmente nos países mais pobres. Elas são literalmente, uma medida do escambo, isto é, os desempregados e miseráveis terão trabalho, mas não emprego, e podem acelerar o processo de saída da miséria como estamos fazendo aqui no Brasil, principalmente pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS). Tudo se resume em dar poder de expressão e trabalho às comunidades pobres e locais e estas sim, poderão, a prazo maior, escolher um Estado que realmente as represente.
Todo discurso da presidenta aponta para essa direção. O fato de ela ter sido escolhida para presidir nosso país é um fator de orgulho, devido à luta incansável e dolorosa que ela viveu na defesa dos mais fracos.
Esses compromissos da presidenta Dilma foram reafirmados no discurso que proferiu, hoje, em Luanda, Angola. Na oportunidade destacou as semelhanças existentes entre o Brasil e Angola na promoção do desenvolvimento econômico com equidade social, mesmo diante a crise internacional que assola os países nos últimos anos.

“Neste momento, em que o mundo se debate numa das maiores crises econômicas da história, vosso país segue crescendo. Crescimento que é fruto da tenacidade de seu povo e da responsabilidade de seu governo, que vem adotando políticas equilibradas, enquanto partes do mundo desenvolvido continuam a trilhar o caminho da insensatez.
Angola, como o Brasil, apostou no crescimento, em políticas contracíclicas, em privilegiar ações sociais do combate à pobreza, no desenvolvimento e na criação de empresas. Nossos países fugiram do receituário conservador que tão bem conhecemos na América Latina por mais de 20 anos.

Seguimos outro caminho, tanto em Angola como no Brasil. Não renunciamos as nossas responsabilidades internacionais. Este momento exige políticas macroeconômicas sadias e socialmente inclusivas para proteger nossas nações do contágio, da recessão e do desemprego.”
Concluindo: os pronunciamentos de nossa presidenta refletem os desejos mais profundos dos povos. Também nós devemos lutar nessa direção que por conta da aceleração histórica está se desenhando. Se não conseguirmos chegar a uma comunidade mundial solidária e livre todos perderemos. Nosso caminho é ouvir e respeitar as vozes dos diferentes povos e seguir na luta por uma sociedade mais igualitária, esta sim é a segurança para a manutenção do Estado.

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