The Economist mostra crescimento da mulher no mercado

A mais influente revista do mundo aponta “pouca resistência” à disputa das mulheres por postos de trabalho antes exclusivos aos homens.

:: Da redação29 de junho de 2012 20:12

The Economist mostra crescimento da mulher no mercado

:: Da redação29 de junho de 2012

Não é só o desempenho do governo Dilma nem a resistência do Brasil à crise financeira global que vem chamando a atenção da prestigiada revista inglesa The Economist. A edição desta semana destaca o crescimento da participação feminina no mercado de trabalho no País.

A reportagem “Amazonas trabalhando” chama o crescimento do emprego para o público feminino de revolução e atribui aos recordes de geração de postos de trabalho a retração da resistência machista ao fenômeno: com empregos para todos, os homens se sentiriam menos ameaçados, avalia a revista.

Somados ao bom momento econômico, a revista cita a queda da fecundidade feminina, o aumento da escolarização e até mesmo a eleição da presidenta Dilma Rousseff  – e sua decisão de colocar cada vez mais mulheres em postos chaves em seu governo — como elementos que contribuem para a transformação.

Nesse cenário de conquistas, The Economist sugere que o grande obstáculo para o crescimento da presença feminina nos empregos formais seria, paradoxalmente, a abertura do mercado de trabalho para as mulheres. Com cada vez mais oferta de trabalho, deduz a reportagem, cai também o interesse pelo emprego doméstico, dificultando a vida das mulheres profissionais.

Leia a seguir uma tradução livre da reportagem de The Economist

Texto integral, em inglês

Amazonas trabalhando

Uma revolução no trabalho encontra pouca resistência

Para Adriana Graciano, deixar o marido violento significou perder a guarda dos filhos, já que ela não tinha emprego nem moradia. Agora, ela treina para se tornar pedreira com o “Mão na Massa”, um projeto sem fins lucrativos que desde 2007 vem ensinando mulheres de comunidades pobres ofícios como encanadoras, pintoras e construtoras. Das 94 mulheres que concluíram o curso nos primeiros dois anos, dois terços já estão empregadas. Sua renda mensal média subiu de apenas R$ 44, antes do treinamento, para R$ 631.

Adriana, que espera em breve conseguir um emprego, um lar e ter os filhos de volta, é uma das muitas brasileiras cujas vidas vêm passando por uma transformação. Em 1960, apenas 17% das mulheres do País trabalhavam fora de casa, uma das menores taxas da América Latina. Hoje, dois terços das brasileiras têm empregos – um dos percentuais mais altos da região. Um dos fatores que contribui para a mudança é que as brasileiras têm cada vez menos filhos. Em 1960, a taxa de fecundidade no país era de seis filhos por mulher. Hoje é de 1,9 –  a segunda menor da América Latina, depois da de Cuba.

O grande crescimento do salário mínimo, o aumento do emprego formal e a entrada em domínios profissionais eminentemente masculino fazem com que o abismo entre os salários de mulheres com pouca qualificação e os seus colegas do sexo masculino comece a encolher. Ao mesmo tempo, há cada vez mais brasileiras com qualificação profissional. As meninas ficam mais tempo na escola do que os meninos, e três quintos das últimas levas de alunos formados em universidades são compostos por mulheres.

Uma pesquisa do instituto novaiorquino Centre for Talent Innovation concluiu que 59% das brasileiras com diploma universitário se descreviam como “muito ambiciosas”. Entre os homens na mesma condição, o percentual é de 36%.

A velocidade na mudança de atitude pegou de surpresa o mercado de trabalho. “Muitas empresas estrangeiras ainda imaginam as mulheres dos mercados emergentes descalças e grávidas. Ao mesmo tempo, muitas das empresas brasileiras são dirigidas por homens mais velhos e com mentalidade mais tradicional”, afirma Sylvia Ann Hewlett, presidente do Centre for Talent Innovation. 

A escassez de mão-de-obra está obrigando os empregadores a superarem seus preconceitos. O fato de o País — onde a presença feminina na política foi historicamente marginalizada—ser governado por uma mulher também contribui para a transformação. Embora Dilma Rousseff deva sua eleição a um homem, seu predecessor e mentor Luiz Inácio Lula da Silva, no exercício do cargo ela tem demonstrado grande autonomia. O combate à corrupção—previsivelmente apelidado pela mídia de “faxina”—a levou a sacar do governo muitos dos homens medíocres que herdou e a aumentar a presença das mulheres no ministério para mais de um quarto do total. Aos poucos, ela vai substituindo os políticos em cargos estratégicos por gente bem qualificada—geralmente mulheres no lugar de homens. Graça Foster, que assumiu como presidente da Petrobras no início deste ano, tem formação em engenharia química e nuclear, um MBA e três décadas na indústria do petróleo.

Se Dilma concorrer e conseguir um segundo mandato, o mérito será todo dela. Para as brasileiras bem preparadas e dedicadas, o sistema brasileiro de concursos públicos para ingresso aos postos do funcionalismo oferece um ponto de partida. No passado, porém, muitas dessas mulheres preferiram ficar de fora desta oportunidade. Nos anos 90, quando era a única mulher no ministério, Cláudia Costin estudou a presença feminina nas carreiras do serviço público e descobriu que muitas candidatas desistiam de tentar as vagas quando o cargo significasse  mudança de cidade.

Costin, hoje secretária municipal de educação do Rio de Janeiro, diz que, uma vez empregadas, as mulheres descobrem que as barreiras a serem enfrentadas são menores do que elas imaginam—embora pondere que ainda é difícil para uma mulher brasileira com alguma visibilidade conciliar isso com uma vida privada.

Surpreendentemente, porém, o machismo brasileiro é cada vez menos perceptível. Um motivo para isso pode ser a abundante oferta de emprego também para os homens. Embora a economia tenha desacelerado, ainda não há qualquer sinal de enfraquecimento do mercado de trabalho. Há anos, os salários vêm experimentando um forte crescimento, em termos reais, e os índices de  desemprego nunca foram tão baixos.

Norma Sá, do projeto Mão na Massa conta que suas alunas encontram pouco preconceito nos locais de trabalho. “Os homens não se preocupam com a competição por seus postos, porque há empregos de sobra para todos”. Se a situação se alterar, as atitudes podem mudar, também.

Para as mulheres trabalhadoras, o maior obstáculo imediato pode ser a alta no custo da mão-de-obra doméstica. Poucos brasileiros costumam se envolver nas tarefas do lar. Mas dos 7,2 milhões de pessoas trabalhando na atividade, quase todas são mulheres—mulheres que têm, mais do que nunca, muito mais opções.