Três versões para a compra da casa que já foi do governador Perillo

Walter Paulo disse que comprou e pagou em dinheiro; Garcez diz que pediu emprestado para se tornar dono e Perillo garante que recebeu três cheques.

:: Da redação5 de junho de 2012 18:21

Três versões para a compra da casa que já foi do governador Perillo

:: Da redação5 de junho de 2012

Uma empresa com capital de R$ 20 mil, sem funcionários e com um administrador que sequer sabe o nome completo do contador consegue um empréstimo de R$ 1,4 milhão para comprar uma casa. A transação é feita em dinheiro vivo e a escritura registrada num cartório localizado em um município 24 km distante da localidade onde o imóvel se localiza. A história parece ficção? Parece, mas é o teor do depoimento do empresário goiano Walter Paulo de Oliveira Santiago, nesta terça-feira (05/06), à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga as relações do contraventor Carlos Augusto Ramos – o Carlinhos Cachoeira.

Walter Paulo, que se apresentou como gestor da Mestra, empresa que pagou a compra do imóvel, colocou mais dúvidas sobre o episódio ao apresentar versão diferente da relatada pelo governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB, antigo dono da propriedade. Em entrevista à imprensa o tucano afirmou ter recebido três cheques, que totalizavam R$ 1,4 milhão, pelo negócio. O mistério aumenta quando se sabe que estes cheques pertenciam a um parente de Cachoeira, e que a casa já abrigou a mulher do contraventor, Andressa, e foi justamente onde ele foi preso em fevereiro deste ano.

O empresário jurou à CPMI que adquiriu a casa do governador tucano como um negócio para a empresa Mestra. Pagou em dinheiro vivo, com empréstimos feitos por alguém que ele não se recorda quem foi, e ainda conseguiu um documento que lhe garante opção de compra caso deseje presentear um dos onze filhos. O imóvel, no entanto, nunca foi entregue à Mestra e foi cedido à Cachoeira. Ele juntou o dinheiro em notas de R$ 50 e R$ 100 – quantia que ele considera uma “coisica” – e colocou numa caixa, que foi entregue aos supostos representantes do governador: o ex-vereador Wladimir Garcez e Lúcio Fiúza, assessor de Perillo.

Garcez havia contado uma outra história à CPMI. Em seu depoimento, disse ele mesmo adquiriu a casa, por R$ 1,4 milhão, com dinheiro que pediu emprestado ao ex-diretor da Delta Centro-Oeste, Cláudio Abreu, e a Carlinhos Cachoeira. Já na versão de Perillo, ele vendeu o imóvel para o empresário Walter Paulo, um dos homens mais ricos de Goiás, e Garcez serviu apenas de intermediário no negócio.

O delegado da Operação Monte Carlo, Matheus Mella Rodrigues, por sua vez, contou que a casa foi paga com três cheques nominais a Perillo, assinados pelo sobrinho de Carlinhos Cachoeira, Leonardo de Almeida Ramos, entre os meses de março e junho de 2011. “Se (Marconi) recebeu em cheque, não foi de mim” disse o depoente, assegurando que não costuma fazer transações que não sejam em dinheiro vivo.  Ele disse que comprou a casa como administrador da empresa Mestra porque achou o preço bom. “Estava bom, barato”, disse o empresário, que afirmou ter repassado R$ 100 mil a Garcez, também em dinheiro, a título de comissão.

Ato falho

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Proprietário de faculdades e escolas de renome na capital goiana, Walter Paulo acumula ainda o cargo – não remunerado – de administrador da Mestra – uma empresa formada por dois antigos colaboradores das Faculdades Padrão – a Mestra fez dois únicos negócios em sua vida comercial, segundo seu administrador: a compra de um lote e a aquisição da casa que tornou-se famosa e, segundo Walter Paulo, vale hoje R$ 1,8 milhão.

Simplório e contraditório, o depoente tentou demonstrar que era uma pessoa honesta. Mas, no início de sua fala, um ato falho provocou risos em parlamentares: Trocou a expressão “honrado” por “enrolado”. “Me entristece ver meu nome, enrolado por toda uma vida”, escorregou.

Ele negou parceria ou relação comercial com Cachoeira, mas foi desmentido por parlamentares. O senador Randolfe Rodrigues (PSol-AP) revelou que até o IPTU da residência foi pago pelo contraventor e o deputado Rubens Bueno (PPS-RS) mostrou, com documentos, que os dois integravam um consórcio de quatro pessoas que tinham direito a explorar, em regime de comodato, uma área ociosa do Jockey Clube de Goiânia.

Giselle Chassot

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