Imprensa internacional

Vexame internacional aprofunda desgaste de Bolsonaro

Imprensa de vários países do mundo noticiam fatos negativos envolvendo Bolsonaro e seu clã ocorridos nos últimos dias
:: Cyntia Campos12 de março de 2019 18:10

Vexame internacional aprofunda desgaste de Bolsonaro

:: Cyntia Campos12 de março de 2019

A prisão de dois acusados dos assassinatos da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, na madrugada desta terça-feira (12), colocou o Brasil novamente no foco da imprensa internacional — e, mais uma vez, desde a posse de Bolsonaro, o ângulo não favorece a imagem do País.

Além de lembrarem que a prisão ocorreu um ano após o assassinato, jornais e sites noticiosos da Europa e Américas destacam a confirmação do envolvimento de policiais e ex-policiais na morte de Marielle e a coincidência de um dos matadores ser vizinho do presidente da República, Jair Bolsonaro.

“A polícia não explicou se há uma conexão” [entre a relação de vizinhança e o crime], aponta o site da rede Mediaset TGcom24, canal televisvo de notícias da Itália.

Livre arbítrio desastrado
A coincidência de endereço do presidente da República com o assassino de Marielle não é o maior constrangimento protagonizado pelo mandatário com destaque na imprensa internacional. Como diz aquele meme de internet, “todo dia é um 7×1”.

Se vizinho não se escolhe, é no exercício de um desastrado livre arbítrio que Bolsonaro tem criado os maiores embaraços para a imagem do País, como demonstra a repercussão negativa da divulgação de uma gravação fraudulenta para indispor seus apoiadores com a repórter Constança Rezende, do Estadão, ou a disseminação de um vídeo pornográfico nas redes sócias.

O assassino mora ao lado
“O vizinho do presidente. Um suposto miliciano que mora no mesmo prédio (sic) onde vivia Jair Bolsonaro”, espantou-se o jornal argentino Página 12 citando a prisão do ex-policial Ronnie Lessa, acusado de disparar os tiros que mataram Marielle e Anderson em 14 de março do ano passado.

“A vizinhança, por si só, não diz nada, mas pode dar pistas. O que liga Bolsonaro às milicias é sua amizade de três décadas com Fabrício Queiroz, policial aposentado com laços estreitos com o mundo do crime organizado”, afirma o jornal argentino.

Indícios 
Na edição desta quarta-feira (13), o jornal britânico The Guardian cita indícios de relação entre Bolsonaro e os acusados da morte de Marielle: “Logo após as prisões, uma fotografia compartilhada nas redes sociais supostamente mostrava o presidente Jair Bolsonaro com Queiroz” (um dos acusados de assassinar Marielle), relatou The Guardian, ressaltando que Bolsonaro minimizou o fato afirmando que tem fotografias “com milhares de policiais”.

O jornal britânico também destacou que um dos filhos de Bolsonaro já namorou a filha de um dos acusados, informação confirmada pelo delegado Giniton Lages, que chefia as investigações. “O gabinete do presidente não respondeu às solicitações de comentários [sobre o fato]”, informou The Guardian.

“Sob escrutínio”
Também na edição desta quarta-feira, o norte-americano The New York Times  chamou a atenção para a responsabilidade das milícias no crime .

“A prisão fornece o sinal mais concreto até agora de que Marielle e Anderson foram alvos de integrantes de um submundo do crime comandado por ex e atuais membros de foças policiais”, avalia o jornal.  “Bolsonaro e sua família estão sob escrutínio por suas ligações pessoais e profissionais com suspeitos de integrar milícias”, completa o Times.

“Pistas” e “ligações”
Página 12 lembra que Queiroz foi assessor de Flavio Bolsonaro, por cujo gabinete na Assembleia do Rio de Janeiro “passaram ou trabalharam milicianos e familiares de milicianos”.

A rede britânica BBC enfatizou o que poderia ter colocado Marielle Franco na mira da milícia, seu papel no acompanhamento das ações policiais e militares desenvolvidas durante a intervenção federal no estado do Rio de Janeiro, vigente entre fevereiro e dezembro de 2018.

“A Senhora Franco, que cresceu em uma comunidade pobre do Rio, era uma voz crítica na comissão que supervisionava o uso de forças federais de segurança nas favelas da cidade”, registrou a BBC.

Áudio fraudulento
Menos de 24 horas antes da prisão dos assassínios de Marielle, Bolsonaro já havia protagonizado relatos espantados de duas das quatro maiores agências de notícias do planeta, a Reuters e a Associated Press (AP) — que junto com a UPI e a France Press formam o quarteto responsável por distribuir 90% do conteúdo jornalístico de agências a veículos de todo o mundo.

Os despachos da AP e da Reuters ecoaram em páginas prestigiadas como o New York Times e o Miami Herald. O tema: a divulgação de um áudio fraudulento que tentava sugerir que a repórter Constança Rezende estaria envolvida em um “complô para derrubar o presidente”.

Relação tumultuada
O jornal norte-americano Miami Herald descreve a relação de Bolsonaro com a imprensa brasileira como “tumultuada” — e teria esquentado ainda mais após o “líder de extrema-direita criticar uma jornalista que escreveu reportagens prejudiciais a sua família”.

O Herald, maior jornal do estado da Florida, com circulação em diversos países da América Latina e do Caribe, descreve como o presidente do Brasil “postou um tuíte falso dizendo que a repórter teria sido gravada afirmando que pretendia destruir a vida de seu filho Flávio Bolsonaro e promover o impeachment do chefe do Executivo”.

O Herald esclarece, ainda, que as reportagens que desagradaram o mandatário tratam de um “escândalo de corrupção que tem obscurecido os primeiros meses do mandato presidencial”.

“Bolsonaro repreendido”
O jornal New York Times, o segundo veículo mais lido dos EUA, também deu destaque para as falsas acusações à repórter divulgadas pelo presidente; “Bolsonaro repreendido por falsa acusação contra repórter”, estampou no título da matéria sobre o tema, ressaltando a condenação da Ordem dos Advogados, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e outras entidades à atitude do chefe do Executivo.

“Bolsonaro usa o Twitter com frequência para atacar a cobertura que a imprensa faz de seu mandato e, assim como Trump, diz que está ‘em guerra contra as fake news”, registra o New York Times.

#BolsonaroÉFakeNews
O jornal britânico The Guardian também deu amplo destaque à investida de Bolsonaro contra a repórter do Estadão, ressaltando que a hashtag #BolsonaroÉFakeNews esteve foi para o topo do ranking de temas comentados na internet no Brasil, na última segunda-feira (11), “após o presidente compartilhar ‘informação falsa’ para atacar repórter”.

“O presidente do Brasil provocou uma tempestade de protestos ao compartilhar fake news para atacar a jornalista que cobre o escândalo envolvendo o ex-assessor de seu filho Flávio, um senador que está sob investigação por lavagem de dinheiro”, narrou o Guardian.

Vídeo pornô
O Guardian já havia noticiado com destaque a “raiva e a perplexidade” provocada por Bolsonaro ao divulgar um vídeo pornográfico, na matéria “Bolsonaro ridicularizado ao tuitar vídeo explícito do Carnaval”, publicada na Quarta-Feira de Cinzas (6).

A postagem pornô de Bolsonaro fez o sisudo jornal Washington Post recorrer à análise da antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado para explicar a seus leitores o que está se passando com o presidente do Brasil.

Tuítes lúbricos
No artigo intitulado “Os tuítes lúbricos de Bolsonaro são parte de uma cruzada maior e mais perigosa”, publicado pelo Post, a antropóloga da Universidade Federal de Santa Maria (RS) explica que ao tentar “sugerir que o Carnaval é uma festa pervertida” o mandatário queria deslegitimar a festa de 2019, onde a tônica foram os cânticos de protesto contra ele.

Ela alerta, porém, que “em um nível mais profundo, a atitude de Bolsonaro é parte de uma cruzada moral, cultural e educacional muito maior”.

Retórica perigosa
Ainda que possa ser uma cortina de fumaça para abafar denúncias ou camuflar medidas lesivas ao País, essa campanha moralista precisa ser enfrentada com decisão.

“Essa retórica perigosa tem consequências letais para os grupos mais vulneráveis na sociedade brasileira”, como as mulheres e a comunidade LGBT, alerta o artigo do Washington Post.

Leia mais:
Imprensa internacional crítica mais uma fake news de Bolsonaro

Página 12 – Detienen al sospechoso de asesinar a Marielle Franco
Miami Herald – Brazil’s Bolsonaro under fire for misleading tweet on media
New York Times – Brazil’s Bolsonaro Rebuked for False Accusation Against Reporter
The Guardian – Bolsonaro under fire for smearing reporter who covered scandal involving his son
Associated Press – Brazil’s Bolsonaro under fire for misleading tweet on media
Reuters – Brazil’s Bolsonaro rebuked for false accusation against reporter
BBC – Marielle Franco murder: Two Rio ex-police officers held
Mediaset TGCom 24 – Brasile, presi i killer della consigliera comunale Marielle Franco
The Guardian – Brazil’s Bolsonaro ridiculed after tweeting explicit carnival video
The Guardian – ‘It smells dirty’: scandals loom over Bolsonaro after first month in office

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