Wellington: “Não podemos esquecer a nossa tarefa nas ruas”

:: Da redação25 de junho de 2013 21:52

Wellington: “Não podemos esquecer a nossa tarefa nas ruas”

:: Da redação25 de junho de 2013

“Temos que participar desse momento
da história do Brasil”

Em entrevista ao site da Liderança do PT no Senado, Wellington Dias (PT-PI), analisou as últimas manifestações e afirmou que o Partido dos Trabalhadores não deve se afastar dos movimentos sociais. “O PT é um partido que começou ganhando nas ruas e perdendo nas urnas. Não podemos, agora que estamos ganhando nas urnas, esquecer a nossa tarefa nas ruas”, afirmou.

“Não é chegar lá querendo coordenar ou liderar, mas tendo a humildade de reconhecer que essas novas gerações têm inclusive o direito de nos liderar. É hora de apoiar, de nos somar a essa pauta, que também é nossa”, explicou o líder do PT.

Veja a íntegra da entrevista:

PT no Senado Senador, qual a contribuição que o PT e suas bancadas parlamentares podem dar no encaminhamento das demandas expressas pela população nas manifestações de rua?

Wellington – O PT sempre foi um partido de massas, presente em todos os segmentos — sindical, estudantil, movimento pela moradia, nas lutas pela terra e das minorias. Nosso partido tem, portanto, a obrigação de apoiar as reivindicações legítimas da sociedade, reconhecer as novas lideranças que despontam. Essas bandeiras vêm do povo e precisamos acolhê-las. Essa é a prática que tivemos nos últimos 33 anos, desde nossa fundação.

Nossa história é uma história vitoriosa: as bandeiras que defendemos, lá atrás, deixaram de ser apenas sonhos. Nós contribuímos para reduzir a fome e a miséria, para a melhoria da vida dos mais pobres, para a ampliação do nível de emprego. Tivemos um papel importante na reconquista das liberdades democráticas. Creio que mais de 80% da pauta que tínhamos, desde nossa fundação, hoje já é realidade.

Agora, quando temos a grata surpresa de ver pessoas na rua, principalmente os jovens, nós nos lembramos da nossa história, da nossa experiência. Eu, pessoalmente, tinha uma preocupação muito grande — e dialogava muito com meus filhos sobre isso — de ver uma geração que talvez estivesse muito presa ao mundo virtual. O que percebo de toda essa mobilização é que, mesmo que não seja nesta primeira experiência, esse movimento pode amadurecer, pode crescer. Como aconteceu com as gerações anteriores. Quantos de nós não despertamos para a militância questionando o diretor da escola, o reitor da universidade, por exemplo?

PT no Senado – O senhor acredita, portanto, que esse movimento pode evoluir para um grau maior de organicidade?

Wellington – Claro, todos nós começamos assim. A história é parecida. E eu me animo é ver que as reivindicações de agora já não trazem a pauta que moveu a nossa geração. A fome já não está na pauta, o desemprego não está na pauta. Claro que ainda há muitas coisas a resolver, mas essa mudança nas demandas demonstra que nossa geração foi vitoriosa. Que nós conquistamos avanços. Longe de mim pensar que o Brasil está com tudo resolvido, que acabaram-se os problemas. Nem eu nem o PT pensamos assim.

Esta geração, agora, não está proibida de se manifestar, não vive em um país de joelhos frente ao Fundo Monetário Internacional, temos não só liberdade de imprensa, como temos instrumentos que nos permitem transmitir e assistir ao vivo — sem cortes e sem censura — essas manifestações.

PT no Senado – E como as gerações anteriores podem se somar a esses novos tempos?

Wellington – Nosso partido recomenda primeiro que, cada dirigente, cada detentor de cargo público, de mandato eletivo, reflita sobre o que está acontecendo. Como disse nosso presidente nacional, Rui Falcão, “o PT é um partido que começou ganhando nas ruas e perdendo nas urnas. Não podemos, agora que estamos ganhando nas urnas, esquecer a nossa tarefa nas ruas”. Temos que nos aproximar, ouvir os movimentos sociais. É preciso valorizar os movimentos organizados. Temos que participar desse momento da história do Brasil, de modo muito firme, ativo, de cabeça erguida. Não é chegar lá querendo coordenar ou liderar, mas tendo a humildade de reconhecer que essas novas gerações têm inclusive o direito de nos liderar. É hora de apoiar, de nos somar a essa pauta, que também é nossa.

Por exemplo, o combate à corrupção. Se hoje temos essa visibilidade, esse clamor pelo combate à corrupção, tem muito a ver com o trabalho de nossos governos para tirar o tema de debaixo do tapete. Na saúde, na educação, na segurança, claro que tivemos melhorias, mas o que o povo está dizendo é que não quer só melhorias, quer solução. Se queremos ser um país desenvolvido, temos que ter qualidade nessas áreas.

O tema grave da mobilidade urbana, que de certa forma desencadeou toda a atual mobilização, não se restringe ao custo da passagem de ônibus, ou a qualidade do ônibus e do metrô. Aí também estão incluídos os direitos do pedestre, do ciclista, a segurança no trânsito, a prevenção de acidentes. É preciso que se tenha uma política mais clara, mais forte e prioritária para tudo isso.

O Ministério das Cidades, criados nos nossos governos, precisa ser um dos principais ministérios do País, tem que ter força para implementar essas políticas.

PT no Senado – Embora a reivindicação da reforma política não tenha sido explicitada nas ruas, as críticas ao sistema representativo era bem evidente, e não se resumia apenas aos desvios, como a corrupção. Como será o debate sobre a reforma política com esses contingentes que foram às ruas?

Wellington – A reforma política é essencial. Muito antes de eclodirem essas manifestações, a sociedade já vinha sinalizando muito claramente suas insatisfações. As pesquisas já atestavam como estava a imagem dos políticos para a população. E não é uma imagem boa. É péssima. Há a necessidade de uma profunda mudança, e não pode ser uma reforma de faz de conta, ou fatiada. Tem que ser uma reforma pra valer.

Como já defendeu a presidenta Dilma, precisamos fazer a reforma política a partir desse sentimento do povo.

E o Parlamento, de um modo geral, como pode atender a demanda das ruas?

Wellington – Nós temos que ouvir as vozes das ruas. E ouvir só não basta. Precisamos reter o que estamos aprendendo e temos que ter a humildade de perceber que o povo tem razão. E temos que dar respostas. No Colégio de Líderes, acordamos que devemos abraçar a pauta que vem das ruas, como já fez a presidenta Dilma.

Também decidimos sugerir à presidenta que incorpore aos cinco pontos que ela já anunciou [na última segunda-feira (24)] mais dois eixos. Um deles é o Pacto Federativo, o entendimento entre as três esferas de governo sobre a partilha de recursos para a execução das políticas públicas—até porque isso é essencial para incentivar o crescimento econômico. Outro eixo é o da segurança. Ainda que a repressão ao assalto, ao roubo, à violência, ao assassinato seja atribuição das polícias e, portanto, dos governos estaduais, é preciso integrar esforços. Temos que tratar a segurança como prioridade. Por exemplo, temos um Fundo Nacional de Segurança Pública, que não pode sofrer contingenciamentos, como vem ocorrendo, já há algum tempo.

Também precisamos avançar e fortalecer a Política Nacional sobre Drogas, implantada já no mandato do presidente Lula.

Na área de Educação, precisamos, ao elaborar o Orçamento, destinar recursos crescentes, que possam ser complementados pelos recursos que virão dos royalties, por exemplo. Na área da saúde, temos que assegurar os recursos orçamentários para equipar hospitais, garantir a estrutura, ao mesmo tempo que temos que garantir a presença de profissionais, como os médicos, em todo o País.

PT no Senado – Há uma série de projetos tramitando nas Casas Legislativas, muitos deles parados, que poderiam responder a boa parte das reivindicações atuais.

Wellington- Um desses projetos é o de minha autoria, que inscreve o crime de corrupção no rol dos crimes hediondos. Essa proposta (PLS 660) foi apresentada em outubro de 2011 e está parada. Na proposta, estão previstas punições para corruptos e corruptores, nas três esferas de governo, e em todos os níveis hierárquicos.

Cyntia Campos

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