ARTIGO

Segurança: o voto que nasce do medo

Segurança: o voto que nasce do medo

Na América Latina, poucas palavras mobilizam tanto quanto segurança. Em períodos eleitorais, ela retorna com força quase automática — não como política pública estruturada, mas como atalho narrativo. Onde o Estado falha, o medo ocupa o lugar da proposta, e a promessa de ordem passa a valer mais do que qualquer programa.

Exemplos não faltam. Chile, Colômbia, Equador, El Salvador — e, de forma cada vez mais explícita, o Brasil — revelam como o discurso da segurança pública deixou de ser resposta a problemas concretos para se tornar ferramenta central da disputa política.

No Chile, a segurança emerge como reação conservadora ao ciclo de protestos iniciado em 2019. Criminalidade urbana e imigração passam a ser tratadas como sintomas de um Estado “permissivo”, capturado por excessos de direitos. A narrativa da “perda de controle” empurrou inclusive setores progressistas a endurecer o tom. Não se trata de uma guerra aberta ao crime, mas de uma restauração simbólica da autoridade.

Durante décadas, as eleições na Colômbia foram organizadas em torno da guerra interna — guerrilha, narcotráfico, paramilitarismo. A segurança virou identidade política. A vitória de Gustavo Petro tentou romper esse eixo ao associar segurança a inclusão social e negociação. Ainda assim, o discurso da linha dura segue potente, sobretudo nas cidades, onde o medo cotidiano continua sendo capital eleitoral.

No Equador, o avanço do narcotráfico, a captura de presídios e a violência generalizada transformaram a segurança no único tema possível. A eleição de Daniel Noboa foi menos ideológica do que instintiva: a escolha por quem prometia agir rápido, com força, mesmo à custa de garantias. Aqui, o discurso se alimenta de um colapso real.

Sob a retórica de combate ao narcotráfico e à ameaça à segurança internacional, a política externa dos Estados Unidos, durante o governo Donald Trump, elevou o discurso securitário a um patamar de intervenção direta contra o regime de Nicolás Maduro, na Venezuela. Mais do que um episódio bilateral, o caso explicitou como a segurança pode ser usada como justificativa geopolítica para redefinir poder, soberania e controle territorial no continente.

Em El Salvador, o discurso é emblemático. Sob Nayib Bukele, a segurança deixou de ser política pública e passou a ser fundamento do regime. O combate às gangues produziu apoio popular massivo, ao custo da normalização do estado de exceção, das prisões em massa e do esvaziamento das garantias judiciais. A eleição já não escolhe entre projetos — apenas ratifica quem controla a ordem.

Esse modelo exerce fascínio regional, sobretudo no Brasil. O bolsonarismo transformou a segurança em marcador identitário. “Bandido bom é bandido morto”, armamentismo, desprezo por mediações institucionais e ataques recorrentes a direitos humanos não produziram resultados estruturais duradouros, mas consolidaram uma base eleitoral mobilizada pelo medo e pela promessa de força. A segurança operou menos como solução e mais como linguagem política.

À medida que 2026 se aproxima, essa gramática tende a se intensificar. A disputa eleitoral brasileira já sinaliza a retomada do discurso de ordem como eixo central, sobretudo no Senado e nos executivos estaduais. A CPI do Crime Organizado é prova disso. O colegiado deve avançar no mapeamento da atuação das facções criminosas no país e na crise do sistema prisional brasileiro. Já a PEC da Segurança Pública, listada entre as prioridades do governo Lula para este ano, com propostas como planejamento integrado nacional das ações de segurança, autonomia da Polícia Federal para enfrentar facções nos estados e a constitucionalização do Fundo Nacional de Segurança Pública, ainda enfrenta entraves na Câmara dos Deputados.

Segurança pública, crime organizado, “descontrole institucional” e ameaças externas passam a funcionar como moldura para reorganizar alianças, deslegitimar adversários e simplificar o debate público.

Quando o medo se impõe como eixo dominante da disputa política, a democracia deixa de ser espaço de escolha entre projetos e passa a funcionar como mecanismo de legitimação da força. Sai a pergunta “o que funciona?” e entra “quem manda?”. Direitos passam a ser tratados como entraves, instituições como obstáculos — e o voto deixa de ser escolha de futuro para se converter em instrumento de controle.

To top