Agência Senado

A audiência pública realizada nesta terça-feira (28/4) na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado para discutir o PL 2.745/2021, de autoria do senador Jorge Kajuru (PSB-GO), que prevê a criminalização da divulgação de fake news sobre vacinas, foi dominada por discursos negacionistas e pela reprodução de informações já desacreditadas pela ciência sobre imunização.
Presidido pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE), o debate deu espaço a falas que reforçaram teorias sem respaldo científico, incluindo associações entre vacinas, autismo e problemas comportamentais em jovens — argumentos amplamente rejeitados por instituições médicas e estudos internacionais.
Em meio ao cenário de desinformação, a principal defesa técnica da vacinação partiu de Lauro Ferreira da Silva Pinto, membro do Comitê Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), que alertou para os riscos concretos da circulação de informações falsas nas redes sociais.
Ao lembrar os momentos mais críticos da pandemia de Covid-19, Lauro destacou que o país viveu uma realidade de colapso sanitário, com milhares de mortes diárias, e afirmou que o avanço da hesitação vacinal representa hoje uma ameaça não apenas contra a Covid, mas contra diversas outras doenças imunopreveníveis.
Segundo o especialista, o debate científico é legítimo e necessário, mas deve ocorrer em ambientes apropriados, como revistas científicas e fóruns acadêmicos, e não nas redes sociais, onde informações falsas se espalham sem controle.
“O verdadeiro debate científico se dá na imprensa científica”, ressaltou. “Estamos vivendo uma era diferente: a era das redes sociais. Numa revista científica você não pode dizer uma bobagem, senão o artigo não é aceito”, emendou.
Lauro também rebateu diretamente uma das principais narrativas antivacina reproduzidas durante a audiência: a falsa relação entre vacinação e autismo. Ele citou estudos internacionais de larga escala e o posicionamento de entidades médicas dos Estados Unidos para reforçar que essa hipótese já foi descartada pela ciência.
“Essa tese caiu há muito tempo. Essa tese não existe na ciência médica. Nenhuma revista médica coloca. Mas existe nas redes sociais e assusta muita gente”, declarou.
O infectologista relatou ainda consequências práticas da desinformação no cotidiano médico, mencionando perdas de pacientes idosos que recusaram vacinação contra Covid-19 após serem influenciados por conteúdos falsos online.
“Aqui em Vitória, perdi algumas idosas com Covid que não se vacinaram porque acreditaram no que estava nas redes sociais”, disse.
Para Lauro, a politização e demonização das vacinas contra Covid comprometeram campanhas de imunização mais amplas, inclusive contra a gripe, contribuindo para a queda da cobertura vacinal e o aumento de doenças antes controladas.
“Essa história da vacina de Covid comprometeu todas as vacinas. Nossa campanha de vacinação contra a gripe está no chão”, alertou.
Ao longo de sua fala, o representante da SBI também ressaltou o papel histórico da vacinação no aumento da expectativa de vida e na redução da mortalidade infantil, lembrando que doenças e mortes comuns no passado foram drasticamente reduzidas graças à imunização.
O PL 2.745/2021 busca enfrentar esse novo cenário de desinformação digital, estabelecendo punições para quem divulgar informações falsas sobre vacinas, em meio à preocupação crescente com a queda nas coberturas vacinais e o retorno de doenças evitáveis.



