contra o negacionismo

Saúde em risco: como o discurso antivacina pode reabrir as portas para o sarampo no Brasil

Senador Humberto Costa vê relação direta entre surto e discurso negacionista antivacinas. A volta da ameaça epidemiológica expõe o impacto duradouro do desmonte da cultura de imunização promovido pela extrema direita
Saúde em risco: como o discurso antivacina pode reabrir as portas para o sarampo no Brasil

Negacionismo científico e discurso antivacina ainda ameaçam a saúde brasileira

O avanço do sarampo no estado de São Paulo acendeu o sinal vermelho nas autoridades de saúde pública do país. O salto no número de infecções confirmadas, na maioria entre pessoas não vacinadas ou com o esquema vacinal incompleto, trouxe de volta o fantasma de uma doença altamente contagiosa que o Brasil havia conseguido controlar. O cenário atual demonstra que, embora o país tenha recuperado recentemente o certificado de eliminação da transmissão endêmica da doença concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a imunidade coletiva permanece fragilizada pela herança do discurso antivacina patrocinado pela extrema direita.

Segundo dados oficiais, o estado de São Paulo acumula 23 casos confirmados da doença, dos quais 12 foram registrados na capital, além de ocorrências em municípios da Região Metropolitana como Guarulhos e São Bernardo do Campo. Para dar uma ideia da aceleração do contágio, ao longo de todo o ano passado foram registrados apenas dois casos na capital. O dado mais alarmante da vigilância sanitária revela a raiz do problema: cerca de 70% dos infectados não tinham histórico de vacinação registrado ou apresentavam doses pendentes.

A reação do governo Lula foi imediata. O Ministério da Saúde, em conjunto com secretarias locais, determinou a aplicação indiscriminada da vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) para a população de seis meses a 59 anos nas áreas com circulação do vírus, reativando a estratégia da “dose zero” para bebês e organizando mutirões em locais de grande circulação, como estações de metrô.

Apesar das ações de contenção, especialistas e gestores públicos alertam que o vírus importado do exterior só encontra terreno fértil para se espalhar quando encontra bolsões de desproteção imunológica — consequência direta de anos de contaminação do debate público por teorias conspiratórias e descrédito científico.

Referência em saúde pública no Congresso nacional, o senador Humberto Costa (PT-PE) avalia que a crise atual não é um acidente de percurso, mas o desdobramento natural de um projeto de desinformação institucionalizado durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Um dos grandes males do bolsonarismo foi o ataque às vacinas. Em razão do negacionismo nefasto e criminoso, chegamos aos mais baixos índices de cobertura vacinal da história, uma terrível tentativa de desmonte do PNI [Programa Nacional de Imunização], que teve cinco décadas de sólida construção. Hoje, mesmo que nosso governo tenha retomado a luta em favor da imunização e esteja retomando excelentes marcas, ainda estamos sentindo o reflexo da necropolítica. Essa ameaça do sarampo é uma delas”, avaliou o parlamentar, ex-ministro da Saúde.

O Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973 e historicamente reconhecido como referência global, viu suas taxas de cobertura para doenças do calendário infantil despencarem a partir de 2018, atingindo os menores patamares da história recente durante o pico da pandemia de Covid-19.

A retórica empregada pelo ex-presidente Bolsonaro, que questionou publicamente a eficácia de imunizantes associando-os a falsos efeitos colaterais e desestimulando a vacinação de crianças, acabou transbordando para todo o ecossistema de saúde. A hesitação, inicialmente insuflada contra a vacina da Covid-19, espalhou-se como um efeito de arrastão para imunizantes tradicionais, como a Tríplice Viral e a vacina contra a poliomielite.

O cenário brasileiro reflete uma emergência epidemiológica internacional. A OPAS e a Organização Mundial da Saúde (OMS) têm emitido alertas sucessivos sobre a explosão de casos de sarampo nas Américas. Países como Estados Unidos, Canadá e México registram dezenas de milhares de infecções, com retorno de óbitos da doença. A análise dos órgãos internacionais é categórica: mais de 90% dos doentes registrados na região norte-americana não estavam vacinados. Vale lembrar que o governo de extrema direita dos Estados Unidos tem adotado discurso e ações contra a vacinação da população.

No Brasil, o vírus encontra o que infectologistas chamam de “pólvora seca”: se o vírus importado encontrar um contingente populacional desprotegido, terá condições de se alastrar para um território bastante amplo. Embora o governo federal tenha retomado campanhas de alto impacto e elevado os índices gerais de vacinação, a confiança pública quebrada nos anos bolsonaristas exige tempo e esforço pedagógico contínuo para ser restaurada na totalidade das famílias.

Multivacinação

O Ministério da Saúde iniciou no dia 7 de agosto a Campanha de Multivacinação 2026 para atualizar a caderneta de crianças e adolescentes menores de 15 anos e elevar a cobertura vacinal. A mobilização segue até 1º de setembro, com Dia D nacional em 22 de agosto. São oferecidos 20 imunizantes do Calendário Nacional de Vacinação, para reforçar a proteção não apenas contra o sarampo, mas também para doenças graves, como pneumonias e meningites.  

“Estamos recuperando a cobertura vacinal, mas sempre temos que manter isso atualizado. Também estamos chamando a atenção para o reforço da vacina do sarampo. Outros países do mundo pararam de vacinar, tiveram explosão de casos de sarampo. Os Estados Unidos estão vivendo o maior surto de sarampo nos últimos 35 anos da história deles. E esses casos vêm para o Brasil, de forma importada”, destacou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, na página do Ministério.

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