Alessandro Dantas

Estivesse ainda entre nós, o historiador inglês Eric Hobsbawm, autor de best-sellers como Era das Revoluções e Era do Capital, provavelmente descreveria os tempos atuais como a Era da Insensatez.
No plano global a nova era ganhou fôlego com as evidências do declínio relativo do “império”. Na tentativa inútil de reverter esse processo, a atual liderança do império vem minando a paz e desestabilizando a ordem mundial.
O presidente Trump substituiu a disputa política civilizada nos termos da boa diplomacia, e as regras multilaterais, por ações unilaterais prepotentes que propagam o conflito, a desordem, o ataque à soberania das Nações, a guerra e o sofrimento mundo afora. Por propósitos higienistas, mantém perseguição cruel a imigrantes latinos. Tentou subjugar quase todos os países com um tarifaço finalmente contido pela Corte Suprema dos EUA. Impôs bloqueio naval, capturou o presidente e se apropriou do petróleo da Venezuela. Ameaçou tomar o Canadá, a Groelândia e impõe tragédia social em Cuba. Em associação com o governo de Israel e com o forte lobby sionista que atua nas instituições dos EUA, despejou milhares de bombas sobre o Irã. Prometeu exterminar a civilização persa; ambição tão insensata que fez Netanyahu ‘corar’.
Mais recente, o presidente Trump criticou e ameaçou o próprio Papa por condenar a guerra e os tiranos. Ou seja, Trump queria que o PAPA apoiasse a guerra e o ódio. Em resposta, o Sumo Pontífice sacou o cajado e partiu pro ataque: “não tenho medo de ti”. Na tréplica, para “demonstrar” que está acima do Papa, Trump posou encarnando Jesus Cristo operando milagre.
Em meio à insensatez global, por estas bandas do Sul global, já refletindo os efeitos das guerras de Trump/Netanyahu, a FGV divulgou o IGP-10 de abril que atingiu taxa de 2.94%; um salto de 835% em relação a março. Definitivamente, não é um resultado que nos tranquilize.
Porém, indiferente à necessidade de unidade das lideranças políticas do país para proteger nossa população dos piores efeitos da guerra, as forças bolsonaristas retomaram o seu talento golpista para desestabilizar e confrontar as instituições da República como tática mobilizadora da sua campanha eleitoral.
Nessa direção, e adicionalmente, para o constrangimento do Congresso Nacional e para desacreditar, de vez, o instrumento da CPI, após a pataquada na CPMI do INSS, assistimos, mais recente, ao final melancólico da CPI do Crime Organizado. O seu relator, talvez considerando-a como oportunidade para resgatar suas intenções com a CPI da Lava Toga por ele proposta em 2019, escandalizou a opinião pública com as conclusões do seu Relatório. Em atropelo à CF e à Lei, ignorou o “fato determinado” da CPI, restrito à investigação do crime organizado e o desviou para pedir o indiciamento dos ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes e do procurador-geral da República, por suas condutas supostamente irregulares na relação com o Banco Master. Inclusive o Ministro Gilmar Mendes foi alvo do pedido de indiciamento por conceder habeas Corpus; ora veja!
Em contraste com a insensatez das conclusões do Relatório, certamente de forma não deliberada, mas para demonstrar alinhamento com a obsessão bolsonarista de amordaçamento do Supremo, o Relator gerou conforto e gratidão às lideranças dos 88 grupos criminosos que atuam no Brasil. Fiz questão de ser incluído como membro titular da CPI para me posicionar firmemente contra um relatório que retirou do Congresso a chance de contribuir com o vigoroso enfrentamento ao crime organizado ora levado a cabo por alguns estados e, principalmente, pela Polícia Federal. Sem dúvidas, o crime organizado constitui o fenômeno mais ameaçador das famílias brasileiras e da ordem pública no país. Enfim, uma insensatez de tal monta para sugerir membros respeitáveis do Supremo e do PGR como chefes de organizações criminosas.



