Gleisi: Brasil não tem direito de interferir na política interna da Venezuela

:: Da redação8 de agosto de 2016 17:01

Gleisi: Brasil não tem direito de interferir na política interna da Venezuela

:: Da redação8 de agosto de 2016

Gleisi: Brasil não tem o direito de interferir na política interna de outros países, da mesma forma que seria inadmissível a intromissão de outros países na crise política pela qual passa nosso PaísEm artigo publicado no site Brasil 247, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) afirma que o golpe que vem sendo arquitetado contra a Venezuela pelos usurpadores da vontade popular no Brasil é mais uma vergonha que os golpistas submetem nosso País. 

Os golpistas, não bastassem fazer o Brasil voltar a falar fino com os países poderosos, agora não querem admitir a legitimidade da Venezuela como líder do Mercosul. 

“A altivez da diplomacia brasileira, que, no governo do presidente Lula, pela primeira vez na nossa história, passou a exercer influência e tornar-se um ator importante nas grandes questões globais, ensaia a volta à submissão, ao papel de servo de interesses dos poderosos, que não são os interesses do povo brasileiro”, disse a senadora. 

Leia o artigo na íntegra: 

Brasil não tem o direito de interferir na política interna da VenezuelaGleisi Hoffmann 

O grupo parlamentar que está colocando o Brasil entre países que desrespeitam a vontade soberana das urnas e conspiram para a promoção de golpes de estado conta com a simpatia e a cumplicidade do oligopólio de mídia que opera sem regulação no Brasil, mas não consegue calar os principais jornais do mundo, dos Estados Unidos e da Europa, todos com opinião convergente para uma única conclusão: tentar afastar uma presidenta da República que não cometeu crime, em ação deliberada de um “sindicato de ladrões”, como chegou a se referir um dos jornais mais influentes do mundo, o The New York Times, não merece outro nome, senão o de que se trata de golpe contra a democracia e a Constituição. 

Os usurpadores da vontade popular, que foi claramente expressa nos 54 milhões de votos recebidos pela presidenta Dilma Rousseff nas eleições de 2014, hoje, fazem exatamente o que Chico Buarque declarou inúmeras vezes. Com os golpistas, o Brasil voltou a falar fino com os Estados Unidos e grosso como os países pequenos, como o faz agora contra a Venezuela. Para os parlamentares que hoje se incomodam em serem chamados de golpistas, mas não escaparão amanhã de assim serem classificados e carimbados nos livros de história, não basta a mudança na modulação da voz. Para eles, é preciso também ser submisso, obediente, exercer o papel que for preciso para atender aos interesses dos poderosos, inclusive os interesses antinacionais, como se está vendo na venda de lotes do pré-sal. Assim foi com a privatização selvagem do patrimônio público brasileiro nos anos 90, que hoje conhecemos como privataria, assim será com as reservas brasileiras de petróleo do pré-sal. 

O golpe que vem sendo arquitetado contra a Venezuela pelos usurpadores da vontade popular no Brasil é mais uma vergonha a que os golpistas submetem nosso País. A altivez da diplomacia brasileira, que, no governo do presidente Lula, pela primeira vez na nossa história, passou a exercer influência e tornar-se um ator importante nas grandes questões globais, ensaia a volta à submissão, ao papel de servo de interesses dos poderosos, que não são os interesses do povo brasileiro. 

Cínicos, os condutores da política externa interina repetem para a imprensa amiga que precisam afastar o fator ideológico das relações do Brasil com o mundo. Entretanto, seus movimentos indicam que o que determina suas ações é exatamente a ideologia do neoliberalismo que traz, sempre, como principal resultado a concentração da riqueza nas mãos de poucos e a miséria da maioria da população. 

Os usurpadores, sem qualquer legitimidade, como ficou patente na sonora vaia que o interino Michel Temer recebeu na festa de abertura das Olimpíadas, preparam-se agora para exportar o golpe para a Venezuela. E o fazem de maneira acovardada, rasteira, sem qualquer interesse na estabilidade geopolítica na América do Sul, tarefa que é essencialmente do Brasil pela extensão do seu território e pela sua importância econômica para toda a região. Aliás o fazem sem considerar os interesses comerciais brasileiros. 

Em dez anos de relação com a Venezuela nossa balança ficou positiva em U$ 29 bilhões. Exportamos para lá alimentos, mas também produtos manufaturados sofisticados. A Venezuela também é vital para o desenvolvimento da nossa fronteira Amazônia e desempenha papel fundamental para suprimento de energia elétrica da Região Norte. Essa ação do governo brasileiro é um tiro no pé. 

O Brasil não tem o direito de interferir na política interna de outros países, da mesma forma que seria inadmissível a intromissão de outros países na crise política pela qual passa nosso País, cujos responsáveis e beneficiários diretos aliaram-se a Eduardo Cunha para ocupar o lugar que as três últimas eleições presidenciais lhes negou. 

Como os demais países-membro do bloco, a Venezuela está em condições de liderar o Mercosul. Não há nenhuma sanção que a impeça para isso. A alegação de que ainda não conseguiu cumprir com toda normativa do Mercosul, prevista no protocolo de adesão, é improcedente. Nenhum Estado Parte do Mercosul, inclusive o Brasil, cumpre integralmente com a normativa do bloco. 

 

As consequências dessa exportação do golpe parlamentar para o Mercosul são previsíveis. A volta do mesmo desprezo com que os diplomatas da ditadura eram recebidos nos fóruns internacionais é apenas uma questão de tempo pois não há argumento plausível, seja ele político, social ou econômico, que justifique a intromissão e a geração de instabilidade na região. Aliás, a grande ausência de autoridades internacionais na abertura das Olimpíadas já dá bem a dimensão da rejeição que o mundo tem a intervenções golpistas.

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