Discurso de Humberto na comissão do impeachment já é documento histórico

:: Da redação6 de maio de 2016 17:17

Discurso de Humberto na comissão do impeachment já é documento histórico

:: Da redação6 de maio de 2016

Humberto Costa: “Por isso, encaminho que votemos ‘não’ ao golpe. Golpe, G – O – L – P – E, golpe.”Vários senadores tentaram fazer o discurso de suas vidas durante as reuniões do processo de impeachment. Pouquíssimos conseguiram seu lugar na história que será contada no futuro a partir dos documentos e notas taquigráficas do que foi dito pelos que se opuseram ao golpe, e principalmente ao que não foi dito pelos patrocinadores do processo que veio da Câmara dos Deputados com a assinatura de Eduardo Cunha.

 

Um desses documentos que seguramente será consultado e reproduzido no futuro é o discurso feito pelo líder do governo no Senado, Humberto Costa (PT-PE), ao justificar porque diria “não” às conclusões de um processo que chegou contaminado no Senado, e manteve o mesmo vício quando a autoria do relatório sobre a admissibilidade da presidenta de República, Dilma Rousseff, foi entregue para um senador do PSDB (Antônio Anastasia), principal sócio de Cunha na formulação do golpe. 

Um dos últimos a falar na reunião da votação do relatório nesta sexta-feira (06), Humberto lembrou do afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara no dia anterior, frisando que se essa decisão fosse anunciada antes, decerto o processo contra Dilma sequer chegaria ao Senado. 

Leia, na íntegra, a transcrição da fala do senador Humberto Costa: 

“Estamos hoje em um momento muito difícil, votando aqui em torno de um processo viciado, absolutamente viciado; viciado pelo desvio de poder praticado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Viciado pelo seu desejo de vingança contra nosso partido, que não aceitou blindá-lo contra a sua cassação e ontem o próprio Supremo Tribunal Federal constatou e definiu isso”. 

“Aliás, me espanta que nenhum partido de oposição tenha se manifestado em apoio à decisão do Supremo Tribunal Federal. Aí me pergunto, será que nós estaríamos aqui, agora, se Eduardo Cunha tivesse sido defenestrado antes? Não. Esse processo está viciado porque ele tem a impressão digital, a malícia, tudo o que caracterizou o comportamento do senhor Eduardo Cunha”. 

“E hoje estamos aqui, nós estamos fazendo outra coisa, senão banalizar o processo de impedimento. A partir de agora, prefeitos e governadores impopulares poderão sofrer o impeachment se não tiverem uma maioria para garanti-los. Porque aqui é um processo unicamente político. Não há crime cometido pela presidenta da República”. 

“O relator teve que se armar de uma lupa; fazer um contorcionismo jurídico para poder identificar seis decretos dos quais ele disse que três não trazem nenhum problema em termos de meta fiscal e três trazem. Dentro de um orçamento 1,4 trilhão que foram executados sem os juros incluídos, 980 milhões vão ser o motivo da cassação da presidenta da República”. 

“Vejam senhores a responsabilidade que nós temos aqui. O que está em jogo aqui é a discussão de uma concepção de visão de política econômica. Não é à toa que ele (o relator) cita, faz uma paráfrase no relatório dele, lembrando a velha UDN golpista quando ele diz que o preço da estabilidade é, em resumo, a eterna vigilância”. 

“Aquilo que a UDN dizia com a democracia e golpeou a democracia. O que eles querem é que a visão deles sobre política econômica e sobre gestão fiscal seja a visão de todos, e quem não fizer isso é um criminoso”. 

“É isso que está se caracterizando aqui. Se essa rigidez fosse aplicada a governadores e prefeitos, a grande maioria deles no Brasil não chegaria a concluir seus mandatos”. 

“É por isso que eles querem um pretexto: escolheram a criminosa e precisam encontrar o crime. É esse é o trabalho que vem sendo feito desde a Câmara dos Deputados”. 

“Veja no caso das pedaladas. Ora, nas pedaladas, onde há uma prestação de serviço eles querem dizer que é um empréstimo. A lógica do relator é muito engraçada, quando se trata da questão da meta, aí, como é que é, a lei tem que ser rígida, a forma é mais importante do que o conteúdo. Não pode. Agora, na pedalada fiscal é o contrário. O que vale é o espirito da lei do que ele falou”.

“Portanto, por entender que apesar desse contorcionismo nós não identificamos qualquer crime. Por isso nós vamos votar contra esse relatório”. 

“E eu quero aqui, pedir o testemunho, não vou pedir a Gleisi porque ela é suspeita [senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-chefe da Casa Civil], mas, fora ela, temos aqui três ex-ministros da presidenta Dilma. O ministro Fernando Bezerra Coelho, da Integração Nacional. O homem que tocou à frente o projeto mais caro e mais importante desse governo. Na sua campanha isso foi a maior vitrine. Eu perguntar a vossa excelência e a todos os ex-ministros aqui: Alguma vez essa senhora [Dilma] pediu a vossas excelências que cometesse algum crime, que praticasse alguma irregularidade; que cometesse improbidade, que roubasse dinheiro público?” 

“Não”. 

“E todos eles terão que responder assim. E como, agora, nós aqui, vamos nos arvorar a julgar uma mulher decente, honesta e proba, por um aspecto formal para tirá-la da presidência, e na verdade fazer o que desejam os que patrocinam esse processo: tomarem o poder. Tomarem o poder pelo atalho, subirem a rampa traseira do Palácio do Planalto; entrarem pela porta dos fundos. É isso que está em jogo”. 

“Por isso, encaminho que votemos ‘não’ ao golpe. Golpe, G – O – L – P – E, golpe.” 

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