Economist diz que EUA demoraram para reconhecer importância do Brasil

Na mesma semana em que o jornal britânico The Guardian trouxe reportagem chamando a atenção para o fato de todos os países quererem falar com a presidenta Dilma Rousseff, menos os EUA, a revista The Economist, também do Reino Unido, considerada a de maior prestígio no mundo, traz que os EUA custam a reconhecer a importância do País.

A reportagem da revista tem outro significado. Na verdade, um marco: pela sétima semana seguida, a seção “Américas” trata de temas brasileiros – um recorde que espelha a importância internacional que o País conquistou nos últimos anos. Apesar da oposição interna ao trabalho do Itamaraty desde o primeiro governo do presidente Lula.

Leia, a seguir, a tradução livre da reportagem da Economist desta semana.

“Um passo de cada vez

Os dois gigantes americanos vão aos poucos aprendendo a se conhecer

 

Brindar à sua presidenta com caipirinha, seu drinque nacional, logo sera muito mais barato para brasileiros nos Estados Unidos. Durante a visita de Dilma Rousseff a Washington, no dia 9 de Abril, Barack Obama confirmou que seu governo vai reconhecer a cachaça, bebida de cana-de-açúcar usada no preparo da bebida, como um produto distinto — não será mais chamada de “Rum Brasileiro” e passará a ser submetida a tarifas que devem protegê-la das congêneres caribenhas.

Os dois líderes também encontraram convergências em questões mais relevantes. A cooperação na área de segurança deve crescer: os ministros da Defesa dos dois países terão encontros regulares, perspectiva inimaginável há apenas alguns anos. E os brasileiros—que gastam tanto em suas visitas aos Estados Unidos que a US Travel Association, um grupo de lobby group, os descreve como “pacotes de incentivos ambulantes”— podem contar com mais facilidades nos seus planos de viagem. O Departamento de Estado americano planeja ampliar seu staff consular, acelerar a renovação de vistos de turistas e criar dois novos consulados no Brasil, até 2014. Fala-se até em eliminar a exigência do visto de uma vez, embora não haja um prazo fixado para isso.

A visita de Dilma Rousseff deixou claro que as relações formais entre os dois países finalmente estão se aproximando dos laços que já existem entre as duas Nações. Entretanto, ainda há um longo caminho a ser percorrido. O Brasil é o único país com PIB superior a US$ 1 trilhão com o qual os EUA ainda não firmaram um tratado contra a dupla taxação. O governo brasileiro não aderiu aos acordos de livre comércio que 11 países latino-americanos assinaram com a maior economia do mundo. Obama reconheceu a aspiração brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas não apoiou o pleito, como fez em relação à Índia, em 2010.

Uma razão para isso é que os esforços do Brasil para reforçar sua influência geopolítica são bastante recentes. “O Brasil acostumou-se a ser ignorado por todo mundo”, diz Matias Spektor, do instituto de pesquisas Fundação Getulio Vargas. Muitos de seus diplomatas em ascensão, destaca ele, seguem uma cartilha chamada “500 Anos de Periferia”. Depois de tanto tempo, subir à ribalta não é um movimento natural. A Embaixada do Brasil em Washington é pequena, poucas empresas do país têm representações na capital americana e a diplomacia não recruta expatriados para fazer lobby em torno de seus interesses, como faz a Índia. A conseqüência, provavelmente, é que autoridades americanas parecem saber menos sobre o Brasil do que sobre qualquer outra grande economia, afirma Rubens Barbosa, ex-embaixador do País em Washington.

Uma causa mais profunda para a distância é que os dirigentes americanos ainda não confiam plenamente no Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva, predecessor de Dilma Rousseff, os constrangia na sua recusa em criticar a postura de Cuba frente aos direitos humanos e em sabotar seus esforços  para impor sanções ao Irã em função de seu programa nuclear. Durante a Guerra Fria, o Brasil insistiu no multilateralismo e, assim, conseguiu evitar escolhas difíceis. “Agora, o Brasil quer defender seus próprios interesses”, afirma Ricardo Sennes, da consultoria Prospectiva. “Isso exige primeiro que o País resolva quem realmente é”.

Barbosa diz que o Brasil leva a sério a acusação de que apenas critica, sem apresentar propostas. O governo tem dado pequenos passos em direção a uma postura mais construtiva. Após se abster, no Conselho de Segurança da ONU, no ano passado, na votação da resolução sobre a intervenção militar na Líbia, o Brasil tenta agora delinear novas salvaguardas para futuras intervenções humanitárias, chamadas de “proteção com responsabilidade”. Mesmo assim, os Estados Unidos devem continuar mantendo a guarda alta, até que o Brasil deixe mais clara qual será sua postura em política externa. “

Leia o original da reportagem, em inglês


To top