Golpe mira todo o Mercosul, por meio de José Serra, afirma Gleisi Hoffmann

:: Da redação23 de agosto de 2016 13:50

Golpe mira todo o Mercosul, por meio de José Serra, afirma Gleisi Hoffmann

:: Da redação23 de agosto de 2016

Gleisi: “A vontade de impedir a Venezuela de assumir e implodir o Mercosul com essa crise é tanta que Serra chegou a propor a troca do voto do Uruguai por favores em negociações que o Brasil está realizando com a China”Em artigo, a senadora Gleisi Hoffmann afirma que, ao tentar impedir que a Venezuela assuma o comando do Mercosul, que é sua por direito, os golpistas que tomaram o poder de assalto no Brasil tentam implodir o projeto estratégico do Mercosul. O ministro interino das Relações Exteriores, José Serra, nunca escondeu seu total desprezo pelo Mercosul e a integração regional, lembra a senadora.

Segundo ele, o Mercosul foi “uma farsa”, um “delírio megalomaníaco, que paralisou a política de comércio exterior brasileira”. “Agora [Serra] tem sido insistente, por palavras e atos, na desconstrução do bloco. Serra sonha, sempre sonhou, com uma área de livre comércio proporcionando concorrência (predatória) das nações mais industrializadas, na qual cada país fará o que bem entender, negociando sozinho sua pauta de comércio”, afirma Gleisi.

De acordo com a senadora, toda a discurseira e articulação contra Venezuela tem o objetivo de implodir o Mercosul, após o golpe que tentam dar na democracia brasileira. “A política externa brasileira está entregue a quem quer entregar o Brasil”, define.

Confira a integra do artigo:

Governo interino quer exportar o golpe para o Mercosul – Gleisi Hoffmann

O ministro interino das Relações Exteriores, José Serra, nunca escondeu seu total desprezo pelo Mercosul e a integração regional. Segundo ele, o Mercosul foi “uma farsa”, um “delírio megalomaníaco, que paralisou a política de comércio exterior brasileira”. Agora tem sido insistente, por palavras e atos, na desconstrução do bloco. Serra sonha, sempre sonhou, com uma área de livre comércio proporcionando concorrência (predatória) das nações mais industrializadas, na qual cada país fará o que bem entender, negociando sozinho sua pauta de comércio.

O bloco do Mercosul foi criado justamente para dar força aos países membros na hora de negociar com as grandes nações, ou alguém duvida de que sozinhos os sul-americanos são muito mais frágeis perante as grandes potências econômicas? Acabar com a união aduaneira, como propõe Serra, tirará do bloco o sentido estratégico de propiciar inserção soberana dos seus membros no cenário mundial.

O Mercosul é um projeto estratégico de longo prazo que envolve os interesses de países e suas populações. Do ponto de vista do Brasil a união aduaneira, ainda que incompleta, é vital para nossos interesses. Em 2002, exportávamos somente US$ 4,1 bilhões para o Mercosul. Já em 2013, incluindo a Venezuela no bloco, as nossas exportações saltaram para US$ 32,4 bilhões. Isso significa um fantástico crescimento de 690%, quase de oito vezes mais, em apenas 11 anos. E cerca de 90% do que exportamos para esse bloco são produtos industrializados. Assim, esse mercado é crucial para nossa indústria. Só questões ideológicas explicam porque o chanceler brasileiro quer jogar fora um grande mercado de consumo para o nosso país.

A estratégia para a implosão do Mercosul consiste em não deixar a Venezuela assumir a presidência pro tempore do Bloco, o que tem direito pelas regras aprovadas no Tratado de Assunção e Protocolo de Ouro Preto, que estabelece que a presidência do Conselho se exercerá por rotação dos Estados Partes e em ordem alfabética, por períodos de seis meses.

O governo golpista, através de Serra, e por sua orientação, alega que a Venezuela não cumpriu os termos do Tratado relativos à tarifa comum e, portanto, não estaria em condições de assumir. Ocorre que nenhum país cumpriu integralmente com os termos do Tratado, inclusive o Brasil.

A vontade de impedir a Venezuela de assumir e implodir o Mercosul com essa crise é tanta que Serra chegou a propor a troca do voto do Uruguai por favores em negociações que o Brasil está realizando com a China. Um escândalo, que se fosse em um governo sério teria derrubado o ministro.

As condições internas da política e da economia venezuelanas não podem também ser justificativa para retirá-la da presidência do Bloco. É uma situação crítica, que vai requerer empenho do país e de suas forças políticas para resolvê-las. E se crise interna fosse critério, Brasil e Argentina também estariam com óbices.

Governos são efêmeros. No longo prazo e num ambiente democrático, é fato que se sucedam, nos países do bloco, muitos governos de matizes políticos bastante diferenciados. Essa inevitável diferenciação política não pode, contudo, paralisar ou inviabilizar o processo de integração. Os governos que estão provisoriamente representando seus países no bloco não podem usar o processo de integração como alavancas políticas de suas agendas internas específicas. Se isto acontecer, o processo de integração não evoluirá a contento e jamais se consolidará.

Toda a discurseira e articulação contra Venezuela tem o objetivo primeiro de implodir o Mercosul. Não satisfeitos com o golpe que estão dando na democracia brasileira, os interinos querem também dar um tiro no Mercosul e nas relações do Brasil com seus vizinhos próximos. A política externa brasileira está entregue a quem quer entregar o Brasil.

*Gleisi Hoffmann é senadora da República pelo Paraná. Foi ministra-chefe da Casa Civil e diretora financeira da Itaipu Binacional.

 

Leia também