Governo interino coloca em risco a integração sul-americana, alerta Gleisi

:: Cyntia Campos7 de julho de 2016 20:57

Governo interino coloca em risco a integração sul-americana, alerta Gleisi

:: Cyntia Campos7 de julho de 2016

Gleisi: “Pediram o que não deveriam e ouviram o que não queriam”A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) manifestou preocupação com as ameaças que pairam sobre a integração sul-americana e o Mercosul — instrumento essencial à construção de um projeto de desenvolvimento da região — em decorrência da atual conjuntura política de países como Brasil e Argentina.

Ela lembrou que a integração regional é um velho sonho progressista que sempre esteve ameaçado “por fatores econômicos desestruturantes e por forças políticas conservadoras, que nunca acreditaram realmente num processo de integração e preferiram apostar em políticas externas que apontavam para a subalternidade estratégica frente a grandes potências”.

Em pronunciamento ao plenário nesta quinta-feira (7), Gleisi Hoffmann fez uma análise da longa peleja dos segmentos comprometidos com um projeto generoso de continente em busca de uma efetiva integração da região, tentativas que remontam aos anos iniciais da independência das antigas colônias ibéricas.

“Naquela época [Século 19]), quase toda a América do Sul obteve a ansiada liberdade em processos semelhantes e em muitos casos vinculados entre si”, ressaltou a senadora. “A luta de San Martin foi a luta da Argentina, do Chile, do Uruguai, do Peru. A luta de Bolívar foi a luta da Venezuela, da Colômbia, do Equador e a luta de um era a luta de outro”.

Integração: projeto dos “melhores americanos”
“O combate pela independência foi um combate que uniu os melhores americanos em uma era em que as fronteiras eram dadas apenas pelos vastos ideais iluministas. Naturalmente surgiram tentativas de manter unidas as forças e os povos que haviam se sublevado contra a opressão das metrópoles europeias”, relatou Gleisi.

A senadora lembrou que a proposta integracionista sempre esbarrou nos interesses externos das oligarquias locais — situação que não difere muito do bombardeio desfechado contra o Mercosul pelos partidários de projetos como a falecida Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e outras articulações que apostam mais na subserviência do que na parceria.

Desde junho, Gleisi integra o Parlamento do Mercosul e participou de sua primeira reunião dessa instância, realizada em Montevidéu. “O Parlasul é fundamental à construção da cidadania comum do nosso Bloco, o órgão que dá vida ao Mercosul”, explicou a senadora. Na condição de parlamentar do Paraná, que faz fronteira com Argentina e Paraguai, membros do bloco, ela avalia que sua participação cresce ainda mais em relevância, dada às identidades culturais e sociais, além do comércio.

Vencendo rivalidades
Somente nos anos 80 do século passado as nações sul-americanas conseguiriam vencer as rivalidades artificiais, os regimes autoritários, a dependência econômica e política frente às Nações industrializadas, a falta de consistência nos processos de desenvolvimento econômico e social e avançar em uma proposta concreta de integração, o Mercosul.

“E qual o fator que alterou o quadro político da região e pavimentou a implantação de um processo de integração mais aprofundado? Em uma só palavra, democracia”, explicou a senadora, citando o caso de Brasil e Argentina, que finalmente puderam abandonar disputas históricas e identificassem áreas de cooperação e de interesse mútuo.

“Até então nossos países se pensavam estrategicamente somente no contexto de possíveis conflitos bélicos, os grandes planos eram os relativos aos cenários de guerra e as ações mais incisivas de cooperação eram as relacionadas à tenebrosa Operação Condor”, rememorou Gleisi.

A Operação Condor, de triste memória, foi uma aliança político-militar entre as ditaduras implantadas no  Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai, assessorada pelos Estados Unidos, por meio de sua Agência Central de Inteligência (CIA). Nas décadas de 70 e 80, esses regimes montaram uma autêntica central de repressão que desconheceu fronteiras e legislações nacionais, perseguindo, sequestrando e assassinando lideranças populares e de esquerda.

Exportando o golpe
Gleisi acredita que hoje esse projeto de integração está novamente em risco, dada a guinada conservadora experimentada pela Argentina e à crise política atravessada pelo Brasil, “um processo claramente golpista, camuflado por uma ação de impeachment que embora respeite os ritos formais, carece da substância fática do crime de responsabilidade”.

No plano externo, o governo interino pretendeu quebrar a regra democrática da rotatividade da presidência do Mercosul. “Foram lá na expectativa de exportar um golpe”, relatou a senadora, citando a tentativa do chanceler provisório, José Serra, de impedir que o Uruguai passasse a presidência do bloco para a Venezuela. “Pediram o que não deveriam e ouviram o que não queriam: as ‘regras democráticas têm de ser respeitadas’. E o Parlasul-Mercosul vai respeitar as regras democráticas”.

Para Gleisi, a América do Sul está em uma encruzilhada histórica, onde posturas conservadoras ameaçam enterrar, de uma só vez, o sonho da soberania, o sonho da integração, o sonho da sociedade inclusiva e o sonho de uma democracia ampla e substantiva. “A História nos julgará por nossas posições, neste momento crucial. Como disse bem a presidenta Dilma Rousseff: ‘A democracia é o lado certo da História!’ E, assim, como a democracia é o lado certo da História, a integração cidadã, fundamentada na união aduaneira e no mercado comum, será sempre o rumo correto do Mercosul”, concluiu.

Cyntia Campos

 

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