Impune, mídia hegemônica deturpa novamente declarações de Lula

:: Da redação29 de abril de 2014 00:14

Impune, mídia hegemônica deturpa novamente declarações de Lula

:: Da redação29 de abril de 2014

 Edição de grandes jornais induz compreensão errônea da fala de Lula a repórter de tevê portuguesa

Ex-presidente, durante viagem a Europa, deu
entrevista a repórter da Rádio e Televisão
Portuguesa (RTP)

Não foi a primeira vez, nem será a última, que a mídia hegemônica manipula, distorce, inventa e tenta impor sua versão sobre palavras do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A mais recente manipulação está nas reportagens das manchetes principais da Folha de S.Paulo, do O Estado de S.Paulo e em reportagen di O Globo de hoje (28). Todas pretendem induzir que Lula se refere aos ex-dirigentes do PT condenados na AP 470, a do chamado “mensalão”, como se não fossem “gente de sua confiança”.

Há menos de um mês, o engodo foi empregado para deturpar uma das declarações de Lula durante entrevista a blogueiros independentes – e virou manchete dos jornais que fazem papel de partidos de oposição. Lula conclamou a militância petista a reagir aos ataques – “ir para cima” – contra a campanha de pessimismo que a mesma mídia hegemônica pôs na rua no final do ano passado, para alimentar a oposição, impor o derrotismo e afetar o governo Dilma e o PT.

A Folha de S.Paulo e O Globo distorceram a declaração, dizendo que Lula ordenou “ir para cima” contra a criação da CPI da Petrobras. O desmentido foi feito no mesmo dia pelo Instituto Lula, que pôs à disposição dos leitores o trecho gravado da entrevista como contraprova à nova mentira da mídia hegemônica.

A ombudsman da Folha, Susana Singer, escutou o que Lula efetivamente havia dito. Constatado que o jornal havia distorcido as declarações, cumpriu seu papel e cobrou esclarecimento dos responsáveis pelo noticiário político. Recebeu uma resposta que não assumiu o erro cometido, em que mais confundiu do que esclareceu – a ponto de levar a própria ombudsman a apontar a parcialidade dedicada do jornal às notícias sobre o Lula e o PT.

O Globo, por sua vez, não se deu ao trabalho de verificar o que, na verdade, havia sido dito por Lula – apesar de fazer alarde sobre a “honestidade” de seus “princípios editoriais”, deixando o caso somar-se à sua histórica tradição de deturpar notícias.

Para registro, o jornal da maior organização de comunicação do País apoiou o golpe militar que jogou o Brasil numa ditadura durante 21 anos; tentou manipular resultados eleitorais em 1982, o “caso Proconsult”, para forjar votos e impedir a vitória de Leonel Brizola ao governo do Rio de Janeiro; e editou o debate entre Lula e Fernando Collor, de 1989, que expôs os melhores momentos de Collor e os piores de Lula, às vésperas da eleição.

Não é preciso acrescentar mais, ou melhor, é preciso repor a verdade como manda o mais precioso voto de princípio de qualquer formando em jornalismo.
A contundência de algumas questões levantadas pela repórter portuguesa também é uma amostra de que a regulamentação dos meios de comunicação, ao contrário do que diz a mesma mídia hegemônica, não atenta contra a democracia nem reduz o papel investigativo e fiscalizador da imprensa. Portugal conta com uma das legislações mais severas contra abusos cometidos pela imprensa. 

Leia abaixo, na íntegra, a transcrição da degravação da entrevista de Lula à rede de tevê portuguesa:  

RTP, repórter Cristina Esteves – Lula da Silva esteve à frente dos destinos do País que vai receber o mundial de futebol. Nesses oito anos, tirou 40 milhões de brasileiros da pobreza e deixou o Brasil com investimentos de 7,5%. O homem que foi operário e conseguiu chegar a presidente, acabou por não deixar propriamente a política, apesar de ter deixado a presidência. E acaba por espalhar pelo mundo afora sua paixão pela política. Veio a Portugal precisamente na altura que se assinalam 40 anos de abril. Onde estava em 25 abril de 1974?

Lula – Olha, em 25 de abril de 1974 eu estava no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, na região do ABC paulista.

Tinha 28 anos?

Eu tinha, na verdade, 29 anos.

E em qual altura percebeu o que estava a acontecer deste lado do Atlântico?

Se falava muito pouco do que estava a acontecer desse lado do Atlântico, de Portugal.

Porque lá (Brasil) também estava sob uma ditadura?

Lá (Brasil) também estávamos num regime militar. Eu penso que não era interesse do regime militar permitir que a imprensa tivesse tanta liberdade para falar tudo o que queria falar.

Portanto houve um lápis lazuli. Houve uma censura.

Havia censura no Brasil e a imprensa escrita era muito fiscalizada.

Condicionada.

Só se dizia aquilo que o regime permitisse que falasse.

E o que o regime permitia que dissesse sobre 25 de abril?

Eu vou lhe dizer que eu estava, antes da entrevista, procurando na internet as grandes notícias no Brasil sobre a Revolução dos Cravos. E a primeira grande notícia que eu vi, num jornal importante de São Paulo, a manchete da primeira página era Golpe militar derruba governo português. E o primeiro jornalista que veio para cá me parece que chegou dia 26 de abril e depois de alguns dias chegaram outros para cobrir a Revolução dos Cravos.

E esses ventos de mudanças que estavam a respirar em alguns países europeus, nomeadamente em Portugal, conseguiram chegar ao Brasil?

Penso que a Revolução dos Cravos permitiu que os ventos da liberdade atravessassem o Atlântico mais rápido dos que as Caravelas de Cabral, ou seja, nós estávamos vivendo um momento difícil, um regime muito duro, 1974 era um ano muito duro. O presidente era Geisel e era um momento em que a gente estava vivendo um período complicado.

Desejava mudança?

Lula – Deseja mudança, mas a perseguição ainda era muito grande. Só para ter ideia, no ano de 1975, enquanto vocês tinham um ano de liberdade democrática, no Brasil nós estávamos vendo Vladimir Herzog sendo morto na cadeia. Nós estávamos vendo muita gente do Partido Comunista Brasileiro ser preso, inclusive meu irmão. Penso que a Revolução dos Cravos não se ateve a Portugal, ou seja, acho que ela foi um impulso muito grande para que pudéssemos pensar que era possível conquistar a liberdade.

Primeiramente através da constituição de várias movimentações. E agora nessa altura, como olha para Portugal, que tem um programa de resgate, a Troika da comissão europeia?

Deixe, Cristina, dizer uma coisa para você: eu tenho muito cuidado de ficar falando de países porque eu acho que cada país cuida de seus problemas. E nós não podemos cometer nenhum erro e nenhuma coisa que possa destoar daquilo que pensa o povo de Portugal. Portugal eu conheci pela primeira vez em 1980. Era presidente do sindicato, estava cassado, fui afastado pelo regime militar, e fiz uma viagem pela Europa porque eu fui condenado pela Lei de Segurança Nacional. Fiz uma viagem para conquistar solidariedade. Aí eu passei em Portugal, Espanha, Alemanha, Itália, França, passei pela Suécia, fui à Noruega e eu vejo que, de 1980 pra cá, Portugal mudou. Eu não sei quanto era a renda per capita nos anos 80, mas hoje deve cinco seis vezes mais do que era naquela época.

Embora o poder real atual, em relação ao salário mínimo, se estivesse durante nesses 40 anos subido, poderia ser muito mais elevado.

Penso que temos que medir a renda per capita das pessoas em função daquilo que sua renda permite comprar. Houve um avanço nas ruas, na moradia, na quantidade de melhoria de vida das pessoas. A gente percebe que essa melhoria fica abalada na medida em que tem uma crise econômica, que não foi causada pelos trabalhadores, mas sim pela irresponsabilidade do sistema financeiro internacional, e que começa a recair nas costas do trabalhador. Fico muito preocupado quando vejo que Portugal tem 14%, 15% 17% de desemprego, ou seja, o Brasil tem 5%. O Brasil vive uma situação inversa. Do que vive Portugal e outros países? O que eu espero na verdade, Crisitina, é que a economia europeia volte a crescer.

E acredita que isso seja possível, o que imputa responsabilidade ao sistema financeiro que acabou por abalar todos esses países? Acha que foi só ao sistema financeiro ou más decisões políticas? Aqui se imputa muita responsabilidade a José Sócrates.

Deixa eu te dizer uma coisa, com sinceridade. Houve uma irresponsabilidade do sistema financeiro que permitiu um sistema de crédito que conseguiu alavancar uma quantidade de financiamento muito além do que era o potencial de renda líquida do banco. Ou seja, no Brasil o banco não pode emprestar mais do que dez vezes seu capital líquido – nos EUA chegou a 35 vezes. Então, o que aconteceu: os bancos estavam emprestando aquilo que não tinham. Você só pode trocar sobre determinado produto. E, se não tem produto, vai trocando papéis a troco de papéis e chega uma hora que estoura. Eu, como sou muito amigo do Sócrates e fui muito amigo do Zapatero (ex-primeiro-ministro da Espanha), dizia para eles que é preciso construir um discurso correto para que a gente faça o povo entender a razão da crise.

E acha que José Sócrates não conseguiu?

Veja. Nós temos que explicar para a sociedade a razão da crise. A crise aconteceu no mundo inteiro e dá a impressão que a crise aconteceu apenas nas costas de países governados por partidos socialistas. Foi Sócrates, Zapatero, nosso companheiro da Grécia que pagaram o preço.

Foi mera coincidência ou eram países com uma debilidade estrutural?

Eram países mais pobres do que outros. Acho que era uma crise política e não se discutiu política. Se discutiram decisões econômicas. Eu fico olhando a Europa e eu acho que a União Europeia é um patrimônio da humanidade porque imaginar uma Europa quase destruída na Segunda Guerra Mundial e estar totalmente unida é um patrimônio da democracia.

Está mesmo unida? Está mesmo unida, Lula da Silva, tendo em conta toda exatamente essa questão toda da crise europeia? Pergunto: se a Europa conseguiu gerir bem essa crise e se houve ou não aqui falhas, porque são imputadas falhas do modo como a União Europeia olhou essa crise? E nomeadamente para os entes mais pobres do Sul?

Se teve algum erro tem que consertar. O fato de tirar dos países o direito de fazer política monetária e só fazer política fiscal, deixa o estado nacional fragilizado. Segundo: a decisão era mais política do que econômica. Eu não posso e não quero dar palpite sobre decisões políticas. Não consigo entender como é que uma divida da Grécia, que podia ser resolvida com € 40 bilhões, ou seja, chega a ser a ser insolúvel porque não foi resolvida no momento certo, não tomou a decisão no momento certo.

Isso foi culpa da União Europeia?

A Alemanha conseguiu ter uma força na Europa que ela não teve em duas guerras, ou seja, a Alemanha praticamente colocou a Europa de joelhos. Eu acho que a Alemanha teve um poder e faltou discussão política. Faltou, na minha opinião, uma discussão política concreta do papel de cada país na União Europeia. Agora, isso visto do Brasil é diferente. Quando a crise econômica era no Brasil, quando a crise era na Bolívia, quando a crise econômica era na Argentina, qualquer cientista político ou qualquer governante europeu ou qualquer dirigente do FMI tinha todas as soluções para os problemas dos nossos países. Quando o problema aconteceu aqui, ou seja, as pessoas não tinham soluções. O FMI ficou quieto. Aí descobrimos que o FMI não tinha tanto dinheiro, o Brasil que era devedor do FMI passou a ser credor e o hoje o FMI deve US$ 14 bilhões. Então, eu, sinceramente, a única coisa que quero agora é que pelo amor de Deus, sabe, que a Europa se recupere, porque o mundo precisa de uma Europa recuperada, que os postos de trabalho voltem a acontecer, porque não é justo. Não é justo, se você tiver noção que desde que começou a crise em 2008, segundo a Organização Mundial do Trabalho, 62 milhões de seres humanos perderam seu emprego. No Brasil, ao contrário, nesse mesmo período, nós criamos 11 milhões de novos postos de trabalho. Então, o que nós queremos é que Portugal se recupere e que volte a gerar empregos para melhorar a vida das pessoas, que a Espanha volte a gerar empregos.

Mas os sacrifícios, pelo menos dos portugueses, vão continuar durante alguns tempos, pelo menos assim que se anuncia. O presidente da comissão europeia, um português, agiu bem também, na sua opinião, ou agiu mal em toda essa situação?

Olha, eu tenho um problema que é o seguinte: eu acho que na Europa a política foi terceirizada, ou seja, as instituições que foram criadas como a Comissão Europeia, ela não decide. Ela não tem poder de decisão.

Quem decide por ela?

Depende do presidente, ou seja, ninguém toma uma decisão se a Alemanha não concordar. Ninguém toma uma decisão se a França não concordar.

E hoje é normal na comissão Europeia.

Tem coisa em que o político é insubstituível, ou seja, o primeiro ministro de Portugal foi eleito para governar Portugal. Portanto, ele não pode terceirizar as decisões dele. Ele é que tem que tomar decisões, foi para isso que o povo o elegeu. O François Holland (presidente francês) foi eleito fazendo críticas à política anterior. Foi eleito fazendo criticas ao jeito que Ângela Merkel governava a crise na Europeia.

Com está François Holland agora?

Então, não adianta terceirizar para seu representante na Comissão Europeia, para ele decidir. É ele que tem que decidir, é ele que tem que dizer o que tem que fazer. Então, se os políticos não tomam decisão, tudo fica pior. Tudo fica pior, ou seja, eu acho que Europa… Eu vou lhe dar um exemplo: muitas vezes, numa discussão sobre comércios, enquanto no Brasil participa a presidenta do Brasil, participa o presidente do México, participa o presidente da Bolívia; na União Europeia, não participa nenhum presidente. É a comissão europeia. Sabe? São pessoas terceirizadas, que são inteligentes, que são competentes, mas que não tiveram votos, não mandam. Não têm poder de decisão.

Ainda considera essa possível expressão utilizada de que “crises foram causadas por comportamentos irracionais de gente branca, de olhos azuis, que antes pareciam saber tudo e agora demonstram não saber nada”?

Eu vou lhe dizer por que falei isso. Eu disse isso numa visita do Gordon Brown ao Palácio da Alvorada, quando eu era presidente, porque logo que aconteceu a crise começou uma perseguição aos imigrantes. Ou seja, começaram a jogar a culpa da desgraça da Europa em cima dos imigrantes, dos negros e dos latino-americanos. Foi por isso que eu disse (isso) ao Gordon Brown. Ou seja, não são índios, não são negros e não são latino-americanos que têm culpa pela crise. A crise foi causada por brancos de olhos azuis, que era uma referência ao sistema financeiro.

E agora? Esta crise foi concentrada por muitos países como uma janela de oportunidades. O Brasil conseguiu aproveitar bem essa janela de oportunidades da crise europeia?

Ninguém consegue crescer por causa da desgraça dos outros.

Sim. Mas consegue aproveitar oportunidades.

Veja. Eu acho que o Brasil… Nós tínhamos feito uma coisa, antes da crise, que foi a diversificação das nossas relações comerciais. Ou seja, nós não ficamos apenas dependendo da União Europeia ou dos Estados Unidos. Nós abrimos um leque de comércio muito forte com a América Latina, com a África, com o Oriente Médio e com o mundo asiático. Então, só para você ter ideia, nós saímos de US$ 50 bilhões de comércio para a América Latina para US$ 125 bilhões de dólares com a América Latina. Nós temos quase US$ 90 bilhões com a Europa. Nós temos US$ 60 bilhões ou US$ 70 bilhões com os Estados Unidos. Mas nós crescemos muito com outros países que a gente não tinha negócio…

Certo. Mas o fluxo com Portugal não chegou aos € 2 bilhões.

Enquanto que com a Alemanha, o Brasil tinha um fluxo de comércio exterior de US$ 21 bilhões; nós chegamos, em 2010, a ter US$ 39 bilhões de dólares com a Argentina.

Mas como é que o senhor justifica que o fluxo comercial com Portugal não chega aos € 2 bilhões?

Já tivemos um pouco mais com Portugal; caiu. E recentemente fiz um debate com empresários portugueses, tenho conversado com vários dirigentes portugueses, que é uma vergonha Brasil e Portugal só ter € 2 bilhões de fluxo de comércio exterior.

É pouco.

É muito pouco. Nós poderemos ter muito mais.

Mas o que é certo é que o Brasil acabou por ficar no caminho nas várias privatizações que aconteceram em Portugal. Os chineses acabaram por ficar a frente.

O Brasil cometeu um deslize. Eu acho que o Brasil poderia ter participado com mais força, com mais vontade no processo de privatização de indústrias importantes portuguesas…

Mas aí não era mais Lula, era Dilma Rousseff.

…E não permitir que a China ocupasse um lugar que o Brasil deveria ocupar. Esse é um dado. Agora, tem outras coisas para serem privatizadas em Portugal e eu espero que o Brasil participe com mais disposição e com vontade de ganhar.

Essa é a indicação que esta no governo de Dilma?

Eu penso que a Dilma tem vontade de fazer. Agora, esse processo depende muito dos empresários.

Querer é uma coisa. E poder fazer?

Não é governo brasileiro que vai comprar uma empresa em Portugal.

Não. Mas pode dar estímulos.

Têm que ser os empresários brasileiros que tomem a atitude de comprar as empresas aqui. O que o governo brasileiro pode fazer é fazer linha de crédito para que isso possa acontecer.

É possível nesta altura?

Eu acho que é possível.

Uma linha de crédito de que grandeza?

Eu não ousaria dizer, porque eu não sou governo. Mas eu acho que o Brasil tem que olhar com muito mais carinho para Portugal. E Portugal olhar com muito mais carinho para o Brasil.

O que é certo é que o Brasil, a nível de importações e exportações, fala-se na ordem dos 12% e 14% do PIB. Portanto, o que demonstra que há um demasiado protecionismo, por parte do Brasil. E também há alguma dificuldade em escalar a Europa, por considerar eventualmente algum protecionismo, por parte dos países da União?

Lógico. Eu participei de negociações na OMC, participei de muitas reuniões. Muitas vezes os europeus querem que os países pobres facilitem o comércio nas compras governamentais e na questão industrial. E naquilo que nos interessa, que é a agricultura, os europeus são muito fechados. Eles têm medo de competir na questão da agricultura porque o Brasil não tem medo de competir com nenhum país do mundo em se tratando de tecnologia na área da agricultura. Mas nós também queremos ser um país industrializado. Nós também queremos ser um país de alta tecnologia. Então, nós também não poderemos abrir em tudo o que os europeus desejam, se os europeus não abrem naquilo que nós desejamos.

Tem que haver uma troca?

Lógico.

E Portugal poderá ter um papel determinante nessa entrada do Brasil na Europa. O Brasil está de algum modo a perder o protagonismo? Há quem diga que o Lula Da Silva tinha uma visão política-global de uma maneira e Dilma Rousseff abandonou esse conceito.

A política do governo é a mesma. A Dilma tem a mesma convicção e a mesma força que eu tinha dentro da política internacional. Acontece que quando a Dilma assumiu a presidência, houve um fortalecimento da crise econômica. A crise econômica não parecia que ia durar o tempo que durou. Os Estados Unidos já fazem cinco anos que parece que todo ano vai debelar a crise, não vai debelar a crise. A Europa parecia que no ano passado ia resolver, não resolveu. Parecia que esse ano ia resolver, não vai resolver. Então, a Dilma teve uma preocupação de cuidar um pouco mais das questões internas do Brasil. Mas eu acho que o Brasil tem por vocação fortalecer a sua política externa. Porque o Brasil, em 2016, será a quinta economia do mundo.

Mas a esta altura no grupo dos BRICs está a ficar ali um pouco entremisso (inconformado). Não acha que os outros estão a ter mais oportunismo?

Deixa eu te dizer uma coisa: eu acho engraçado algumas revistas estrangeiras a publicarem coisa de que o Brasil está bem.

Está ou não está? Isto é o que neste momento se levanta: por que o povo está zangado no Brasil?

Deixa eu te dizer uma coisa: primeiro sobre a questão econômica, Cristina. Você pode comparar o Brasil com o G-20. Pode pegar todos os países do G-20. Ora, qual é o país que conseguiu manter a inflação na meta, durante 10 anos consecutivos, aumentando o salário dos trabalhadores e com pleno emprego? Qual é o país que tem renda, que tem a dívida pública liquida de 33% do PIB, como tem o Brasil? Qual é o país que a renda pública bruta de 57%, que tem o Brasil? Qual é o país que fez superávit primário médio de 2,58% (do PIB), durante todos esses 11 anos? Ora, em se tratando de responsabilidade fiscal e de macroeconomia, não tem nenhum país melhor do que o Brasil.

Mas esse milagre ainda se mantém?

Ele vai se manter. E o Brasil vai continuar crescendo. O Brasil tem um mercado interno primoroso.

Tem imensas possibilidades. Isso é um dado que…

Cristina, deixa eu te falar uma coisa, querida. Nós tínhamos 46 milhões de brasileiros que andavam, viajavam de avião. Em 11 anos, nós chegamos a 120 milhões de passageiros. Três vezes.

Criou-se uma classe média?

Criou-se uma classe média e eu vou te dar um número. Nesses 11 anos, nós criamos 22 milhões de empregos. Nós tiramos 36 milhões de pessoas da miséria absoluta. E levamos 42 milhões de brasileiros à classe média. Nós tínhamos 3 milhões de estudantes universitários; hoje, nós temos 7 milhões de estudantes universitários.

Então, por que o povo está a ir à rua?

Porque o povo quer mais. Você não tenha duvida de que assim é a humanidade. Ou seja, se você consegue comer hoje um contrafilé, depois de uma semana você quer comer filé. Se você começar a comer contrafilé, você vai querer comer uma coisa melhor. Então, eu acho extraordinário que o povo queira mais. A Fifa foi fazer a Copa do Mundo no Brasil e a Fifa exige estádios mais qualificados do que aqueles que a gente tinha. Então, instituiu-se no Brasil, o padrão Fifa para a Copa do Mundo. E eu achei extraordinário, então, que o povo começasse a reivindicar. Eu quero escola padrão Fifa. Eu quero saúde padrão Fifa. Eu quero transporte padrão Fifa. Querida, nós produzíamos 1,7 milhão de carros por ano; hoje, o Brasil está produzindo 3,8 milhões carros por ano. Nós somos o quarto mercado consumidor de automóveis no mundo. E o sétimo produtor. Então, as pessoas mais pobres começaram a ter carro no Brasil.

E esta é uma questão que está sendo levantada por vários analistas. O Brasil não estava preparado a nível de infraestrutura para conseguir assumir de repente tantos carros nas ruas.

Esse é um bom problema, porque o povo pobre tem que ter carro mesmo. O povo pobre tem o direito de comprar. Ele tem o direito de usar aquele bem material que ele produz. Ou nós pobres somos obrigados a produzir só para os ricos? Ou só a classe média alta vai andar de carro e nós de ônibus? Não. É justo que o povo pobre possa comprar carro. E é justo que o povo requeira um transporte público melhor.

O povo, na sua opinião, sai à rua porque quer mais saúde, mais escolas no padrão Fifa ou por que está contra a essa realização da Copa? Porque há quem diga que o governo está a entrar em dispêndio enorme, na ordem dos R$ 30 bilhões; e os estádios que estão sendo construídos têm valores que ultrapassaram quaisquer expectativas.

Se você pegar o estudo da OCDE, você vai perceber que o Brasil é um país, só para lhe dar uma ideia, em 11 anos, nós somos o país que mais investiu em educação. Triplicamos o orçamento da educação. Triplicamos.

O adjetivo utilizado é ter “notável requalificação, redistribuição”.

Nós não vamos conseguir em 11 anos, nem em 15 anos, resolver as mazelas e a responsabilidade de cinco séculos. O dado concreto é que nós conseguimos avançar de forma extraordinária. Só para você ter ideia, o Brasil, em 100 anos, fez 140 escolas técnicas; em 11 anos, nós fizemos 365, duas vezes e meia. Só para você ter ideia, eu, embora não tenha diploma universitário, fui o governante que mais fez universidades na história de meu país: quatorze universidades federais novas e 146 extensões universitárias. E o pessoal quer mais? Eu acho ótimo. Eu acho ótimo que queira mais. E quanto mais o povo reivindica, mais nós temos que fazer. Nós não temos que ter medo da reivindicação do povo.

A questão é se há ou não condições para fazer e conseguir responder constantemente essas solicitações do povo. É que deixou o país com um crescimento de 7,5%; no primeiro ano de Dilma Rousseff, esse crescimento passou para 2,7% e continuou a descer.

Porque houve o crescimento da crise econômica. Deixa eu lhe falar uma coisa, que você falou agora e eu não posso deixar passar despercebido. O Brasil não tem dinheiro público do orçamento em estádio de futebol. O que o governo brasileiro tomou como decisão, e foi no meu tempo ainda, é que o governo não financiaria clubes. O governo emprestaria até R$ 400 milhões para os governos estaduais e financiaria até R$ 400 milhões para empresas que quisessem fazer os estádios. Não tem dinheiro do orçamento. O dinheiro gasto com a Copa é dinheiro em mobilização urbana. Então, uma rua que está sendo feita, um metrô que está sendo feito, uma ponte que está sendo feita. Tudo isso vai ficar para o País. A Fifa não vai levar embora. Agora, eu, às vezes, não quero nem discutir o quanto de dinheiro que custou a Copa ou quanto vai entrar de dinheiro com a Copa. Você sabe que quando foi feita a Copa europeia, aqui em Portugal, também aqui em Portugal se dizia que se gastava demais, que os estádios estavam custando muito caro, que não ia ter Copa…

Mas eles ultrapassaram.

… Que os hotéis não estavam prontos, que os hotéis… Vamos ser francos, nunca Portugal viveu um momento de autoestima como viveu. Nunca.

E o que acha que vai acontecer? E os movimentos na rua, como aconteceu na Copa das Confederações…

Deixa o povo ir para a rua. Não tem nenhum problema.

São protestos saudáveis?

É um povo indo para a rua protestando e outro povo indo para a rua para ver o jogo. O que importa é que nós temos que garantir tranquilidade aos jogadores. Não é qualquer momento que a gente pode receber no Brasil um Cristiano Ronaldo, um Messi, um Neymar. Não é qualquer momento que a gente pode receber essas figuras importantes.

O Brasil está preparado para receber a Copa?

 

Então, essas pessoas vão ter tranquilidade. Vão jogar em campos maravilhosos. Vão ser tratados de forma carinhosa. Outro dia, uma jornalista me perguntou: “Presidente, o que os estrangeiros vão ver no Brasil? O que vocês têm de bonito para mostrar para eles?”. E eu falei: o povo brasileiro. Vocês vão ver o resultado de uma mistura fantástica entre índios, negros e europeus, a começar dos portugueses.

Se fosse candidato a presidente, estaria a uma distância muito grande de Dilma Rousseff, que é candidata pelo PT nas próximas eleições, que vão acontecer daqui a cinco meses. O regresso a essa vida política não o atrai?

Não. Cristina,deixa eu te dizer uma coisa: primeiro, a Copa do Mundo. Tem muita gente que fica tentando explicar a Copa do Mundo, dizendo: “eu estou gastando tanto, mas vou ganhar tanto. Ou, a oposição é contra, o governo é favorável”. Isso é bobagem. A gente não faz uma Copa do Mundo pensando em dinheiro. A Copa do Mundo é um encontro de civilizações, feito através do esporte. É a oportunidade que o Brasil tem de mostrar a sua cara, do jeito que o Brasil é, com pobreza, com tudo o que o Brasil tem, mas com sua beleza também. É hora do mundo ver o Brasil como ele é. Colocar os pés no chão do Brasil. É isso que é a Copa, ainda com a vantagem de que a gente pode ganhar a Copa.

E nós também.

Não é uma questão econômica. Se a oposição pensa que vai ganhar voto, se o Brasil perder; e o governo pensa que vai ganhar voto, se o Brasil ganhar; está todo mundo enganado.

Não há risco político?

Não existe essa hipótese. O povo sabe separar.

Não há risco de violência?

Se você for, e espero que você vá cobrir a Copa do Mundo, você vai ver a melhor Copa do Mundo de todos os tempos. Muita alegria. Muita festa. Só não vai ser alegre se o Brasil perder logo no começo. Coisa que… {Lula olha para o céus com as mãos em sinal de fé}.

Mas vai haver samba com certeza. E eu pergunto, o samba da sua vida política tem 68 anos. Pode ainda candidatar-se ou não?

Em política, a gente nunca pode dizer não. Mas eu acho que eu já cumpri com a minha tarefa no Brasil.

Nestas eleições, está fora de questão?

Eu sonhava ser presidente, porque eu queria provar que eu tinha mais competência para governar o Brasil do que a elite brasileira. E provei. Provei.

E Dilma está conseguindo provar?

A Dilma é uma mulher de extrema competência. É a primeira vez que uma mulher governa um país do tamanho do Brasil. A Dilma é uma mulher muito competente.

Mas está abaixo de ti na sondagem. E quando estamos a cinco meses das disputas presidenciais até que ponto isso pode ser penalizador?

Ela vai ganhar as eleições. Ela vai crescer.

As sondagens dizem que sim. Mas o Lula da Silva estaria bem à frente.

O Lula da Silva não é candidato. Então, Lula da Silva não conta. Eu não vou ser candidato, Cristina. Eu não vou ser candidato.

O que é certo é que a sua popularidade acabou não sendo beliscada em situações em que ficou envolvido o seu partido, o PT, o caso do mensalão. Agora, também há toda essa questão envolvendo a Petrobras. Todas essas questões não beliscaram a sua popularidade?

Tem uma coisa que as pessoas precisam compreender: o povo é mais esperto do que algumas pessoas imaginam. O mensalão… O tempo vai se encarregar de provar de que mo mensalão você teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica.

Mas os homens da sua confiança estavam envolvidos.

Não. Não se trata de gente da minha confiança. Tem companheiros do PT presos. Eu indiquei seis pessoas da suprema corte, que julgaram. E eu acho que cada um cumpre com o seu papel. O que eu acho é que não houve mensalão. Agora, eu também não vou ficar discutindo as decisões da suprema corte. Eu só acho que essa história vai ser recontada. É apenas uma questão de tempo e essa história vai ser recontada para saber o que aconteceu na verdade. Eu acho que tem muita coisa para ser contada sobre esse processo. Porque esse processo foi um massacre que visava destruir o PT. E não conseguiram.

Para muita gente poder é sinônimo de corrupção. Portanto, é isso o que está subjacente?

O que é importante, o que as pessoas têm que descobrir é que quando uma pessoa é honesta, quando uma pessoa é decente, as pessoas enxergam nos olhos. Então, não adianta dizer que o Lula pratica qualquer ato ilícito, porque o povo me conhece.

E o povo quer a sua volta para resolver os problemas.

Olha, eu sou filho de pai e mãe analfabetos. E eu digo todo dia, para não ter dúvida, minha mãe não sabia fazer o ó com o copo. E o único patrimônio que a minha mãe me deixou foi a conquista de andar de cabeça erguida. E eu sei o valor de andar de cabeça erguida. Eu sei o quanto eu sofri para conseguir chegar lá. Então, não é uma denúncia, um adversário, que vai fazer o Lula tremer ou ceder.

Então, essa é a questão. O senhor regressa a vida política ativa?

Não. Eu vou ser cabo eleitoral da Dilma. Eu vou para a rua fazer campanha para a Dilma.

Mas não vai ter cargo político.

Eu não quero cargo político.

Então, o que queres fazer?

Cristina, eu era deputado em 90. E em 90, quando o meu partido queria que eu fosse candidato, eu tinha perdido a eleição presidencial de 89, e o partido queria que eu fosse candidato para ter 1,5 milhão de votos. Eu disse para o meu partido: eu não vou ser candidato, porque eu quero provar para o PT que eu não preciso de cargo para ser importante. Eu quero ser importante pela minha capacidade de trabalho. Então, eu não preciso de cargo.

E o que gostaria ainda fazer?

Eu vou fazer política.

Pelo mundo inteiro?

Eu tenho um compromisso com a minha consciência de tentar levar para os países africanos e para a América Latina a experiência bem sucedida do nosso governo, sobretudo como acabar com a fome no mundo.

Lula da Silva, para terminarmos, disse um dia que “a esperança vence o medo”. O que tem de medo?

Eu não tenho medo, não. Eu só tenho medo de trair os interesses das pessoas mais humildes do meu País. Eu, depois do câncer, eu acho que melhorei como ser humano. Eu acho que nós temos que ser mais solidários. Nós temos que olhar um pouco mais para aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades. E eu vivo dizendo, todo dia, se eu nasci aonde eu nasci, passar a vida que eu passei, muitas vezes sem ter o que colocar na mesa para comer, sem ter um diploma universitário, cheguei aonde eu cheguei, eu digo para todo mundo: ninguém pode desanimar. O ser humano não tem o direito de desanimar. A Europa não tem o direito de andar de cabeça baixa por causa dessa crise. A Europa já conseguiu muito. Ou seja, cada português, cada espanhol, cada alemão, todo mundo tem que levantar a cabeça e começar a construir o mundo que deseja.

É esse o seu ideal agora. Muito obrigada pela atenção.

Muito obrigado.

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