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Jaques Wagner: Preservação e prosperidade

O 5 de junho é dia de refletir sobre qual Brasil queremos: aquele da fome e do desemprego, ou o que protege o meio ambiente e gera empregos e qualidade de vida para a população? Este é nosso desafio como nação, aponta o senador
Jaques Wagner: Preservação e prosperidade

Foto: Alessandro Dantas

Em 5 de junho é celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente. Criada pela ONU há 50 anos, a data é um importante marco de reflexão e ação em defesa do planeta. Contudo, dificilmente podemos comemorar, pois nunca os ecossistemas naturais, biomas e, consequentemente, a biodiversidade
estiveram tão ameaçados. É hora de utilizar a data para apontar os caminhos para a urgente proteção ao meio ambiente, trajetória para a prosperidade.

Sabemos, pelos volumosos relatórios científicos, em especial as últimas publicações do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas das Nações Unidas, que as ações humanas causaram o aumento nas temperaturas globais de mais de 1 grau desde a Revolução Industrial. Ademais, sabemos que as temperaturas médias na Terra devem subir além de 1,5 grau antes de 2040, processo mais rápido do que se previa.

Também sabemos que tudo isso se traduz em uma crise climática que é realidade no mundo e no Brasil. Só entre 2020 e 2021, com a intensificação dos desastres ambientais, tivemos, devido às enchentes do Acre, passando por Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e, agora, Pernambuco, mais de 1,1 milhão de habitantes deslocados e impactados – com, infelizmente, centenas de mortes, especialmente dos mais pobres, que vivem em piores condições. É a nova face de uma crise migratória.

Sabemos que o efeito deletério no PIB será devastador, com cerca de 300 bilhões de reais estimados em perdas por conta dos desastres climáticos. Isso vai resultar em alimentos mais caros, luz mais cara, menor capacidade de produção da indústria e do agronegócio. Mais fome e menos emprego. Tudo o que queremos evitar.

E como o Brasil lida com isso? Da pior maneira possível: de 2019 para cá são mais de 33 mil quilômetros quadrados de área desmatada na Amazônia e queimadas cada vez mais virulentas, sem controle algum do governo. O Pantanal teve 26% de sua área total, em 2020, queimada. Os efetivos do Ibama e do ICMBio foram drasticamente reduzidos, assim como o orçamento do Ministério do Meio Ambiente, o menor em 21 anos. Somadas a isso, parcerias internacionais históricas na proteção ambiental, entre elas os acordos com Noruega e Alemanha, foram destruídas, a ponto de ambos os países congelarem mais de 3 bilhões de reais do Fundo Amazônia.

O resultado desse cenário devastador é de que as emissões de carbono brasileiras por desmatamento e queimadas somam agora 46% do total que o País produz. Ainda mais com a Amazônia, que segurava mais carbono e, agora, emitindo, o que coloca o Brasil como um dos principais emissores globais.

Há um caminho: proteger a floresta é falar em desenvolvimento. O Brasil, dono e soberano de 60% da maior floresta tropical do mundo e detentor de, praticamente, 20% da biodiversidade do planeta, tem aqui um grande ativo multicultural e de espécies nativas que podem impulsionar um pilar da economia, gerando empregos e renda.

No Pará, um estudo da Nature Conservancy com o Banco Interamericano de Desenvolvimento concluiu que 30 produtos das cadeias de biodiversidade do estado geraram cerca de 224 mil empregos, movimentando mais de 5,4 bilhões de reais em renda só em 2019. Esses produtos, diferentemente do mercado de commodities agrícolas, caracterizado por monoculturas, como a soja, trazem cadeias dos produtos da sociobiodiversidade. Ou seja, se distinguem em variedade, em que mais de 40 tipos surgem exatamente da cultura local com a ampla biodiversidade da floresta. Essa é uma vantagem competitiva na hora de diversificar a produção com a floresta de pé, permitindo geração de renda aliada à
conservação da vegetação nativa.

Isso tudo somente em um estado amazônico. Num exercício rápido, imaginem o potencial de explorar a floresta de pé nos outros oito estados do bioma, envolvendo também o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal e a Mata Atlântica. Imaginem incluir como beneficiários os povos quilombolas, indígenas e tradicionais, rompendo com preconceitos históricos. Imaginem criar políticas públicas que vão do fomento à pesquisa científica de ponta, atreladas aos conhecimentos tradicionais, focadas em produção inclusiva agroflorestal, criando novos polos industriais baseados na nossa biodiversidade. Trata-se de empregos dignos e renda dessa nova indústria. Falamos de desenvolvimento com o meio ambiente de pé.

O 5 de junho é dia de refletir sobre qual Brasil queremos: aquele da fome e do desemprego, ou o que protege o meio ambiente e gera empregos e qualidade de vida para a população? Este é nosso desafio como nação.

Artigo originalmente publicado na revista Carta Capital

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