Xô, pessimismo: investimentos em infraestrutura e produção crescem 13%

A edição desta sexta-feira do jornal Valor Econômico traz uma série de boas notícias, em meio ao cenário de incertezas na economia. Logo na manchete principal, o jornal — geralmente, o mais isento entre os grandes — anuncia que “Apesar da crise, empresas preveem investir R$ 1,4 tri”, referindo-se à previsão dos setores industrial e de infraestrutura para o quadriênio 2015-2018. “Pesquisa feita pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostra que os dois setores pretendem investir R$ 1,38 trilhão no período, mais do que o R$ 1,11 trilhão aplicado efetivamente entre 2010 e 2013 - o banco não incluiu 2014 no levantamento”, informa a reportagem do Valor.

:: Da redação20 de fevereiro de 2015 19:31

Xô, pessimismo: investimentos em infraestrutura e produção crescem 13%

:: Da redação20 de fevereiro de 2015

Além disso, o jornal informa que o “Investimento de infraestrutura deve alavancar mais R$ 930 bi” e que a estimativa do BNDES é de que a economia brasileira receba R$ 1,38 trilhão em investimentos em indústria e infraestrutura no período entre 2015 a 2018. “Se o volume se confirmar, a cadeia produtiva – empresas que recebem encomendas da indústria – deve ter fluxo de negócios de mais R$ 928,82 bilhões ao longo dos quatro anos, informou o banco. Esse efeito na cadeia produtiva até 2018 será 13,71% maior do que no período 2010-2013. O ano de 2014 não faz parte do estudo”, relata a matéria.

Outro bom sintoma para avaliar as perspectivas da economia é a determinação de três dos principais fabricantes de aviões comerciais do mundo – Airbus, Boeing e Bombardier – de continuarem “firmes na meta de elevar as vendas no Brasil, apesar da instabilidade econômica”. Segundo o Valor, a Boeing prevê que em 2017 o número de passageiros domésticos no país atinja 122 milhões, tornando-se o terceiro maior mercado global. Para o presidente da Airbus na América Latina, Rafael Alonso, o tráfego aéreo vem duplicando a cada 15 anos, independentemente das crises econômicas mundiais.

Confira as reportagens:

Apesar da crise, empresas preveem investir R$ 1,4 triValor
Apesar do baixo crescimento da economia brasileira nos últimos anos e da possível contração do Produto Interno Bruto em 2014, as empresas dos setores industrial e de infraestrutura estão prevendo expansão dos investimentos no quadriênio 2015-2018. Pesquisa feita pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostra que os dois setores pretendem investir R$ 1,38 trilhão no período, mais do que o R$ 1,11 trilhão aplicado efetivamente entre 2010 e 2013 – o banco não incluiu 2014 no levantamento.
Segundo o BNDES, o total de investimento previsto para este e os próximos anos vai gerar encomendas no total de R$ 928,82 bilhões, 13,71% mais do que no período anterior. Este é o efeito indireto do que será investido pelas indústrias e as empresas de infraestrutura.
A pesquisa, obtida com exclusividade pelo Valor, foi realizada entre outubro e novembro do ano passado, quando o país ainda vivia grande incerteza quanto ao futuro da política econômica. Não se sabe se as entrevistas já captaram o impacto da Operação Lava-Jato sobre as empreiteiras, que estão entre as maiores concessionárias de infraestrutura do país.
Economistas do BNDES consideram que a indústria é mais sensível à fraqueza da economia no curto prazo. Já os investimentos em infraestrutura são de longa maturação e, portanto, devem se manter nos próximos anos por causa das concessões. “Diferentemente da indústria, a infraestrutura, por estar atrasada há tantos anos, tem excesso de demanda. A infraestrutura depende mais de questões regulatórias”, disse o economista da área de pesquisa e acompanhamento econômico do BNDES, André Sant’anna.
O banco revê suas projeções e seus impactos a cada seis meses. A próxima revisão será feita em maio. Cláudio Frischtak, especialista em infraestrutura, acredita que as projeções do BNDES dificilmente serão cumpridas. “A expectativa é que 2015 seja perdido e que acabe contaminando 2016. É difícil esperar que a conjuntura econômica e a Lava-Jato se resolvam em 2015”, disse.

Investimento de infraestrutura deve alavancar mais R$ 930 bi
Valor
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estima que a economia brasileira deve receber R$ 1,38 trilhão em investimentos em indústria e infraestrutura no período entre 2015 a 2018. Se o volume se confirmar, a cadeia produtiva – empresas que recebem encomendas da indústria – deve ter fluxo de negócios de mais R$ 928,82 bilhões ao longo dos quatro anos, informou o banco. Esse efeito na cadeia produtiva até 2018 será 13,71% maior do que no período 2010-2013. O ano de 2014 não faz parte do estudo.
Os economistas do banco avaliam que o fato de a economia estar em desaceleração não deve influir negativamente na previsão. Para eles, os investimentos em infraestrutura são de longa maturação e se manterão estáveis por conta das concessões, o que os torna menos influenciáveis pela conjuntura. Já a indústria é mais suscetível à conjuntura econômica, e pode atrasar um pouco os investimentos, ainda que eles sejam mantidos no horizonte de quatro anos.
“Diferentemente da indústria, a infraestrutura, por estar atrasada há tantos anos, tem excesso de demanda. Depende mais de questões regulatórias”, disse, André Sant’anna, economista da área de Pesquisa e Acompanhamento Econômico do BNDES.
Os dados levantados pelo banco são usualmente utilizados para planejamento, pois indicam as áreas industriais mais demandadas. O estudo mostra que a construção deve receber o maior volume de demanda: R$ 279,29 bilhões. É 8,6% a mais do que o setor recebeu de 2010 a 2013. A indústria de transformação também vai absorver grande parte dos valores previstos até 2018. Só o setor automotivo deve ficar com R$ 276,56 bilhões a partir deste ano. O volume é 5% maior do que o obtido entre 2010 a 2013, diz o BNDES.
“O efeito direto dos investimentos nas cadeias da área de construção, automotiva e metal mecânica é muito grande. Somados, são R$ 700 bilhões dos R$ 928,82 bilhões previstos”, disse Sant’anna. As projeções consideram apenas a que será produzido no país, expurgando impostos, custos com transporte e de comércio.
É possível identificar, ainda, quais setores terão maior crescimento na comparação com o período anterior. Administração, saúde e educação públicas, por exemplo, verão seu fluxo de negócios aumentar 36,10% até 2018. Eletroeletrônicos receberão fluxo de negócios quase 29% maior no período, em função dos investimentos previstos. Comércio terá impacto 27,7% maior.
As perspectivas de investimento são coletadas pelas gerências setoriais do banco junto a empresas. Também são levados em conta planos de investimentos das próprias empresas já divulgados. As informações são repassadas à área de pesquisa e acompanhamento econômico do banco, que faz algumas estimativas e analisa os dados. O valor de R$ 1,38 trilhão não considera R$ 121 bilhões previstos para demais setores da indústria, valor que, por falta de dados concretos, são estimados pelo BNDES. No estudo referente a 2010/ 2013, as expectativas de investimento levantadas pelo BNDES chegaram a 90% do total realizado no país.
Os impactos dessa nova perspectiva foram desenhados a partir de dados coletados em meados do ano passado, quando o cenário para 2015 e 2016 era mais favorável e ainda não havia ocorrido o acirramento da operação Lava-Jato. Por isso, alguns números poderão sofrer alteração. Da previsão de investimento de R$ 1,38 trilhão, o setor de óleo e gás – o mais atingido pela investigação da Polícia Federal – responde por R$ 509 bilhões.
O banco costuma revisar as perspectivas de investimento e seus impactos a cada seis meses. A próxima revisão está prevista para maio. “É bem provável que a Petrobras revise seu plano de investimentos, mas até que haja posicionamento oficial da estatal, está mantido o número para o setor de óleo”, disse Sant’anna.
O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, estima que o plano de negócios da Petrobras, que era de US$ 220,6 bilhões, sofra redução de ao menos 20% a 30%. “A própria diretoria, antes da saída de Graça Foster, tinha planejado cortar 30% dos investimentos previstos para 2015. A perspectiva terá que ser revista. E vai impactar muitas indústrias.”
Lucas Teixeira, economista da área de Pesquisa e Acompanhamento Econômico do BNDES, admite que a perspectiva é contaminada pelo momento. Mas afirma que investimentos podem ser postergados em um a dois anos, mas mantidos quando se leva em conta o período de quatro anos estudado pelo banco.
O economista Cláudio Frischtak, especialista em infraestrutura e presidente da Inter.B Consultoria, é menos otimista e considera as projeções de investimento do BNDES para a área de infraestrutura difíceis de cumprir. “A expectativa é que o ano de 2015 seja perdido para a infraestrutura e que acabe contaminando 2016 também. É difícil esperar que a conjuntura econômica e a Lava-Jato se resolvam em 2015”, avaliou. Ele espera retomada dos investimentos em infraestrutura em 2017 – o que garante pouco tempo para a recuperação até o final do período estudado pelo BNDES, que é 2018.
Aloísio Campelo, superintendente-adjunto de ciclos econômicos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), considera razoável a projeção de movimentação de recursos na economia originada de investimentos programados pela indústria, mesmo no contexto de atividade mais fraca.
Ele ressaltou a importância dos empreendimentos de longo prazo na indústria brasileira. Campelo lembrou que mais da metade da atividade da indústria da transformação é focada em bens intermediários – como os setores de siderurgia e de papel e celulose -, cujo perfil é de projetos com três ou quatro anos de duração.
Para ele, previsões de PIB mais fraco não assustam empresários que têm projetos de expansão orgânica, por exemplo, como de aumento de capacidade. “A variável de investimento é volátil, certamente”, admitiu. “Mas não é tão volátil assim. Temos boa parte de nossos investimentos focados em horizonte de longo prazo. Tanto é assim que a Formação Bruta de Capital Fixo [FBCF – que mede a fatia de investimentos no total da economia] não oscila muito e está nas faixas de 17%, 18% [do PIB] há alguns anos”, comentou.