Na CPI do Futebol, jornalistas apresentam lista de contratos suspeitos da CBF

:: Rafael Noronha25 de agosto de 2015 20:32

Na CPI do Futebol, jornalistas apresentam lista de contratos suspeitos da CBF

:: Rafael Noronha25 de agosto de 2015

A CPI da CBF realizou nesta terça-feira (25) a segunda reunião do colegiado para coleta de dados e informações que serão utilizados posteriormente no cruzamento de dados entre a entidade maior do futebol no País e a movimentação financeira de dirigentes e pessoas relacionadas aos eventos financeiros correlacionados a entidade.

O jornalista Lúcio de Castro, dos canais ESPN, apresentou uma série de documentos públicos que abordam movimentações financeiras suspeitas e relativamente próximas ao atual presidente da entidade, Marco Polo Del Nero e de seu antecessor, José Maria Marin, que se encontra preso na Suíça.

De acordo com o jornalista, a participação dos filhos de Marco Polo nos negócios ligados à CBF faz parte de seu modo de operação. Marcus Vinicius Del Nero, é diretor de arte da Mowa Sports, empresa terceirizada responsável pelo conteúdo produzido pela CBF TV.

“Entender a teia de negócios e relações da CBF no presente passa obrigatoriamente pela Mowa Sports. Como sócio da Mowa, consta Gregório Marin Junior, que, a despeito do sobrenome comum, nada tem a ver com José Maria. Seu pai, Gregório Marin Preciado, marido de uma prima de José Serra, é um dos grandes personagens das privatizações brasileiras nos anos 90”, explicou.

Ainda segundo Lúcio, Preciado é peça importante do “xadrez” do banqueiro Daniel Dantas na vitória da telefonia espanhola, cuja marca viria a ser patrocinadora da seleção brasileira”, emendou.

A mesma empresa, de acordo com o jornalista, é personagem fundamental na teia de parceiros que conta com agentes de viagem, agências de marketing e consultorias. “Empresas que exploram a imagem e jogos da entidade e tantas outras que, assim como a Mowa, vendem serviços difíceis de serem mensurados por venderem mercadorias cujos preços não são mensuráveis como bananas e laranjas”, disse.

“Enquanto toda essa estrutura putrefata estiver em vigor, continuarão saindo gols da Alemanha”, resumiu.

Outro dado apresentado por Lúcio de Castro aos senadores, é a data de criação da Finview Real Estate, empresa de Marco 20691071360 26f73964be nLúcio de Castro: “Enquanto toda essa estrutura putrefata estiver em vigor, continuarão saindo gols da Alemanha”Polo Del Nero Filho. A Finview foi aberta em outubro de 2014, em Orlando, Flórida. De acordo com o jornalista, a Procuradoria dos Estados Unidos afirma que José Maria Marin, ex-presidente da entidade, esteve nos Estados Unidos em abril do mesmo ano para coletiva de lançamento da Copa América 2016, prevista para ser realizada naquele país. “De acordo com denúncia da Procuradoria dos Estados Unidos, foi nessa viagem que Marin acertou propina de dois milhões [de dólares] anuais pelos direitos de transmissão da Copa no Brasil”, explicou.

Esse valor teria sido dividido entre dois cartolas brasileiros, cujo nomes não são conhecidos, mas que seriam co-conspiradores identificados pelas investigações do FBI.

“Os direitos de transmissão da Copa América, de acordo com o FBI, renderam propina de 110 milhões de dólares. 40 milhões já foram pagos e o restante a ser pago em parcelas no exterior”, apontou Lúcio. Pouco depois dessa negociação, a empresa do filho de Del Nero foi aberta no exterior.

Segundo Lúcio de Castro, a Finview, apesar de estar registrada e localizada num prédio comercial nos Estados Unidos, quando do registro, a correspondência e o endereço principal eram das Ilhas Virgens.

Segundo reportagem do jornalista, publicada no site da ESPN, as Ilhas Virgens foram o palco onde a ISL distribuía grande parte de suas propinas. A ISL também é a empresa de marketing que durante anos fez pagamentos indevidos para cartolas da Fifa e que foram o estopim da renúncia de Ricardo Teixeira de João Havelange. “O território é considerado um paraíso fiscal, onde empresas muitas vezes registram seus negócios para evitar o pagamento de impostos”, explicou.

Lúcio de Castro ainda alertou os senadores que uma questão fundamental para a CPI é se atentar aos intermediários dos contratos entre as entidades e os patrocinadores. “A experiência nos mostra que muitos contratos em si não têm nada de irregular. São os intermediários, as agências de marketing. São nessas adjacências que se encontram as irregularidades. Tentamos trazer alguns nomes desses intermediários. São nesses caminhos intercomunicantes em que se processam os desvios. Análise em si de um contrato entre uma entidade e um patrocinador dificilmente trará algo de relevante”, salientou.

Arrecadação e distribuição de recursos
No ano de 2014, segundo o jornalista Rodrigo Matos, do UOL, a CBF teve um faturamento de 519 milhões de reais. Desses, 350 milhões foram advindos de contratos com patrocinadores. “Qualquer investigação que for ser feita sobre a CBF deve ser feita em cima desses contratos de patrocínio que são a maior fonte de renda”, disse.

O jornalista explicou que esses contratos são fechados de forma direta, sem concorrência, por meio de empresas que captam os patrocínios. “Esses contratos sempre têm comissões que são pagas em contratos aditivos feitos aos contratos de patrocínio. E não sabemos quanto a CBF paga por essa intermediação”, apontou.

Matos ainda relatou que, após a saída de Ricardo Teixeira da CBF, a entidade se fechou ainda mais no quesito ‘transparência’. Desde 2011, no balanço da entidade, não se especifica quanto a CBF recebe por cada patrocinador.

“Não sabemos como são pagas essas comissões de intermediação. Nas despesas da CBF se tem 80 milhões de reais pagos a serviços de terceiros. Qualquer dirigente de clube tem muitos contratos de serviços de terceiros por conta do pagamento de direitos de imagem. Mas, geralmente, um clube que tem uma folha salarial alta chega a gastar entre 30 e 35 milhões. A CBF que não paga nenhum jogador tem um serviço de terceiro de 80 milhões. Quem está recebendo esse valor?”, questionou.

O senador Zezé Perrela (PDT-MG), ex-presidente do Cruzeiro Esporte Clube relatou que a CBF fecha o contrato relacionado aos direitos de transmissão da Copa do Brasil e decide o valor repassado a cada clube. Segundo ele, o valor recebido é menor, inclusive, que aquele pago pelo Campeonato Estadual de Minas Gerais. “Nós não temos acesso, enquanto presidente de clube, a esses contratos. Obviamente que esses contratos devem ser fechados por valores expressivos. Para se ter ideia, a Rede Globo pagou algo em torno de um bilhão de reais pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro da Série A. Por quanto foi vendida a Copa do Brasil?”, questionou.

O relator da CPI, senador Romero Jucá (PMDB-RR) destacou que, como os jornalistas trouxeram mais questionamentos e a CPI ainda não possui os dados necessários para realizar qualquer tipo de averiguação, aguardará o envio do material solicitado pela comissão para emitir resultados acerca das questões de interesse público e inerentes ao objetivo da CPI.

O senador Donizeti Nogueira (PT-TO) solicitou a cópia dos documentos apresentados pelos jornalistas e a transcrição dos depoimentos para que, numa análise mais criteriosa, possa haver desdobramentos por parte da CPI. “Foram pontuações sérias, com consistência e que precisamos analisar para ver quais são as medidas cabíveis”, salientou.

Próxima reunião
A colegiado volta a se reunir na próxima quinta-feira (27), às 10h15. Na oportunidade, os senadores ouvirão os depoimentos dos jornalistas Amaury Ribeiro Jr., Leandro Cipoloni, Luiz Carlos Azenha, autores do livro “O Lado Sujo do Futebol”.

Rafael Noronha

 

 

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